
Kevin Parker dos Tame Impala [mais fotos clicar aqui]
Cheguei neste primeiro dia à zona do Parque da Cidade por volta das 15 horas, na boa companhia do excelente parceiro João Machado (colaborador na fotografia), e desde logo vi uma anormal quantidade de carros já estacionados em cima de passeios e em segunda fila. Em dia laboral com esta afluência acima do habitual tornou-se uma mini aventura a
tarefa de estacionar o carro.
Esse foi o um bom indicativo para aquilo que ia encontrar: a hora do pico com a lotação esgotada iria acontecer bem mais cedo. Para tal contribuiu decisivamente uma massiva afluência de estrangeiros, vindos de vários países europeus com principal ênfase dos espanhóis e britânicos tal como em outras edições transatas. O efeito de dois anos sem o evento terá provocado uma adesão superior.

Entrada de público [mais fotos clicar aqui]
Aquela ansiedade de voltar ater a vivência festivaleira fez com que as pessoas comparecessem mais cedo. O clima esteve fantástico, um bonito dia primavera/verão com céu azul e sem estar demasiado quente. O NOS Primavera Sound 2022 foi porventura a mais edição esperada de todas desde que o festival chegou ao Porto.
Em tempos em que a pandemia Covid19 ainda atravessa o planeta Terra, a verdade é que pessoas não se mostraram receosas e viu-se pouca gente a utilizar máscara. Nem a terem cuidados em manter um distanciamento físico. Neste último aspeto até foi o oposto, pois
a ocasião foi aproveitada para conviver com familiares e amigos num jeito pré-pandemia. A ordem do dia dos festivaleiros era mesmo para usufruir do dia sem restrições e focados apenas no aproveitamento máximo do dia sem amedrontamentos.
O pontapé de saída nos concertos foi dado pelos espanhóis Derby Motoreta’s Burrito Kachimba 30 minutos após a abertura das portas ocorrida às 16 horas. Nesta altura ainda era visível a azáfama da organização para conseguir limar os últimos pormenores no recinto…
Apostei em espreitar os artistas do nosso burgo para início de experiência NOS Primavera Sound 2022. Deste modo os Throes + The Shine foram a primeira banda que vi a atuar. Igor Domingues, Marco Castro e Mob Dedaldino estavam vestidos a condizer num verde alface que lhes assentou muito bem. Traje colorido e alegre a condizer com o seu som altamente dançável.

Mob Dedaldino, vocalista dos Throes & The Shine [mais fotos clicar aqui]
“Tirao pé do chão” foi o lema deste trio luso-angolano e o público colaborou generosamente na festa dançando, cantando e aderindo à energia positiva do vocalista Mob Dedaldino. Ele que a determinado disse “abram alas” e as pessoas libertaram o espaço central em frente ao Palco Super Bock. Em seguida desceu para a relva e contagiou as hostes. Houve pelo meio uma homenagem a Bonga e ao seu “Mariquinha vem comigo para Angola” entoado em uníssimo. “Balança” e “Hey!” foram dois dos temas interpretados nesta autêntica festa que contou com público em muito bom número.
Logo ali ao lado no Palco NOS pouco depois começou a performance do lisboeta Pedro Mafama. A responsabilidade era grande já que atuou no palco principal e foi o primeiro que o fez no festival. Vestido em estilo de toureiro num expressivo tom de cor-de-rosa. Esteve acompanhado por dois elementos na bateria e sintetizadores. Apresentou o seu som alicerçado na sua voz e acompanhado de batidas eletrónicas e inspirado em traços tradicionais como o folclore.

Pedro Mafama na dura tarefa da primeira atuação do festival no Palco NOS [mais fotos clicar aqui]
Em destaque esteve o seu álbum ‘Por Este Rio Abaixo’ do qual interpretou canções como “Leva”, “ Estaleiro” ou “Barca”. Ele próprio destacou-se tendo feito uso de uma plataforma de dois níveis do qual teve uma vista privilegiada do recinto à sua frente enquanto cantava.
O primeiro grande momento do NOS Primavera Sound esteve a cargo dos DIIV. No Palco Cupra, situado no seguimento da entrada e da zona de alimentação em paralelo com a estrada, aconteceu uma adesão massiva ao seu concerto. Inclusive muita gente ficou em modo de espera pelas 18:20 horas. Eles que admitiram, no decurso da performance, não estarem à espera de tanta gente àquela hora. Confessaram também que esta não foi “uma
experiência normal” para eles e que “adoram Portugal”.
“Under the sun” e “Skin Game” foram as duas primeiras tocadas. Todas as músicas
foram acompanhadas por vídeos que passavam no gigante ecrã por detrás da banda.

Andrew Bailey, guitarrista dos Diiv [mais fotos clicar aqui]
Eles que recordaram ‘Oshin’, álbum de debute que está quase a fazer 10 anos da sua edição. Tocaram “Doused”, um tema emblemático, que em Portugal foi utilizado em 2013 num spot publicitário para televisão pela então ZON (agora NOS). Antes de terminarem com “Horsehead” e “Blankenship”, houve tempo para “Loose Ends” e “Acheron”,
por exemplo.
A banda do vocalista Zachary Cole Smith percorreu, numa setlist sem surpresas, os três álbuns da banda. Um concerto recebido e acompanhado com entusiamo ou não houvesse bastantes fãs em Portugal e igualmente um pouco por toda a Europa. Excelente atuação do quarteto norte-americano.
Fiz a caminhada entre o Palco Cupra, ontem estiveram os DIIV, até ao Palco NOS, onde atuou a Stella Donnelly e deu para notar no recinto um número de pessoas muito acima do que é mais habitual para o horário, o relógio digital marcava as 19:20h.
Em dia com vários artistas australianos, todos a tocarem no Palco NOS, a primeira a entrar em cena foi Stella Donnelly. Ela tem uma presença muito querida e comunicativa. Voltou assim a Portugal depois de ter tocado em Paredes de Coura em 2019. A australiana tem um novo look, deixou o seu ar de adolescente com cabelo liso, agora mostra-se com cabelo encaracolado e avolumado dando-lhe um ar fresco de jovem adulta.

A australiana Stella Donnelly [mais fotos clicar aqui]
Confessou ainda não ter escrito muitas músicas de amor antes de interpretar “Mosquito”, uma das que encaixa nesse perfil. Feliz e de sorriso rasgado revelou-se feliz por estar no Porto. Antes de terminar com as suas duas músicas mais conhecidas “Die” e “Tricks” interpretou “Lungs” e “Flood”. Estas últimas são novas canções e vão fazer parte de ‘Flood’, álbum com lançamento marcado para agosto deste ano. Uma performance a deixar uma vibe bem simpática no ar.
Isto de andar num festival desta envergadura com vários palcos e concertos a colidirem obriga a escolhas. Já é hábito falhar algo que tinha previsto assistir, desta vez, neste primeiro dia isso aconteceu com Kim Gordon. A pausa para descanso e respetivo jantar, antes de atacar a forte programação noturna, assim o obrigou. Foram-me passados excelentes ecos da atuação da ex-Sonic Youth, pelos vistos, a artista não se deixa definir pelos seus 69 anose continua a ser uma artista referência na história do rock alternativo e a passear classe. Oxalá tenha uma nova oportunidade.

Sky Ferreira no palco Super Bock [mais fotos clicar aqui]
Antes do momento pelo qual a grande maioria dos presentes no recinto estavam à espera deu para espreitar Sky Ferreira. A artista norte-americana com raízes lusa provocou o momento menos agradável do festival. Entrou em palco 19 minutos depois da hora ajustada para o seu concerto e viu o seu set encurtado. Muita gente aderiu ao Palco Super Bock. Fãs, sobretudo femininas, deliciadas pelas suas canções pop cantaram as letras com avidez. Com fortes ovações nos finais das músicas. Assisti a 4 temas: “Boys”, “Don’t Forget”, “Your’re Not The One” e “Nobody Asked Me” e ao contrário do que fui lendo e ouvindo mais tarde achei uma atuação dentro do normal. Pelo menos na parte a que assisti…
Nick Cave e seus os Bad Seeds não sabem desapontar. Quem vai vê-los, são aquele tipo de fã “hardcore” e fazem-no como uma experiência religiosa. Especialmente um público já com uma faixa etária menos jovem, já (bem) acima dos 40 anos.

Maré de gente para ver Nick Cave [mais fotos clicar aqui]
Aquilo que mais me impressiona e que reforcei na minha impressão em Nick Cave, já o tinha visto na ocasião anterior no mesmo local em 2018, é a sua inegável intensa personalidade em palco. Energia e entrega únicas, sem comparações possíveis, ele canaliza as suas emoções para o público partilhando-as numa simbiose notável. Não se nega a ir à beira das pessoas e as olhar olhos nos olhos. Mesmo estando muito longe das primeiras filas, sinto essa forte ligação.
Já sobre as canções, como “Jubilee Street”, “Tupelo” , “O Children” , “The Ship Song” ou a fantástica “Into My Arms” são imprescindíveis e farão para sempre parte do imaginário musical da história dos melómanos, não só dos fãs do artista. Mesmo para quem não é propriamente fã de Nick Cave devo dizer que é uma experiência catártica recomendável a toda a gente que aprecia um concerto. Direi mesmo que excedeu as melhores expetativas, sem dúvida, um dos momentos âncora do NOS Primavera Sound 2022.

Geordie Greep, um dos vocalistas e guitarristas dos Black Midi [mais fotos clicar aqui]
Por entre aquelas duas horas de Nick Cave, fiz uma escapada de alguns minutos para espreitar os britânicos Black Midi. Eles foram os únicos que colidiram durante algum tempo com o australiano que tocava no Palco NOS. Aquele som disruptivo que produzem é autêntico e qualquer tentativa de ser rotulado é uma asneira abismal. Não foi de estranhar, logo à primeira música, o aparecimento de mosh pit.
Os cartuchos, pese embora já não sendo muitos, foram os suficientes para o restante da noite. Pelas 23:45h era já muito difícil de arranjar um espaço simpático na área do Palco Cupra para assistir ao projeto de Greg Gonzalez.
Para gáudio de milhares de pessoas os nova-iorquinos Cigarretes After Sex arrancaram a sua performance com “Crush”. Em seguida foi tocada “You’re All I Want” single avulso lançado em 2020.

Greg Gonzalez, a mente por detrás deste projeto Cigarretes After Sex [mais fotos clicar aqui]
“Affection”, “Sweet”, “K.” e “Apocalypse” temas emblemáticos da dream pop sensual e melancólica dos CAS não faltaram. Disse-o várias vezes e aqui o escrevo… Não acho que é possível uma experiência imersível a 100% com Cigarretes After Sex ao vivo num ambiente como aquele que esteve na passada quinta-feira no Parque da Cidade do Porto. Isto porque gostava tanto de os ver numa sala fechada, com uma audiência mais modesta em termos de número, para uma experiência mais profunda e intimista.
Feito o desabafo, há que dizer que a atuação dos Cigarretes After Sex satisfez, sobretudo o público feminino, pois as reações foram por demais expressivas. Nota positiva neste regresso 5 anos depois da performance no mesmo evento.
A noite triunfante dos australianos teve o seu epílogo com a segunda grande enchente no palco principal. Os responsáveis foram os Tame Impala e o seu ambiente sonoro psicadélico.
O concerto esteve morno, especialmente numa fase inicial, em que foram tocadas “Borderline”, “Breathe Deeper e “Elephant”. Com o passar dos temas o ambiente foi crescendo de intensidade e o espetáculo foi incrível e inesquecível.

Kevin Parker durante a atuação dos Tame Impala [mais fotos clicar aqui]
O brutal impacto visual proporcionado pelo requintado show de luzes contribuiu de forma decisiva. Aliás, para o tremendo impacto visual, é preciso frisar no gigante anel de
luzes montado especialmente para Kevin Parker e seus pares. Aquela roda luminosa foi-se movendo no decurso da performance, inclusive, antes de “Let It Happen” os músicos saíram por alguns momentos quando a roda mudou de posição. Confettis, lançados mais de uma vez, deram um impulso extra à festa e levar uns quantos milhares ao delírio
como em “Eventually”, um dos momentos altos.
Para o encore ficaram guardadas “The Less I Know the Better” e “New Person, Same Old Mistakes” já bem depois das 2 horas da manhã.
A primeira jornada de NOS Primavera Sound 2022 revelou-se ainda mais intensa relativamente ao que tinha previsto. Não só pela música igualmente também pelo ambiente efervescente e pelo recinto com várias alterações de configuração relativamente a anos anteriores.
Vejam toda a foto-reportagem do 1º dia: clicar aqui
Texto:
Edgar Silva
Fotografia:
João Machado

