
Sábado, 13 de junho, terceira jornada da 13ª edição do Primavera Sound Porto no Parque da Cidade. Para mim a derradeira etapa tal como fiz no ano passado, o último dia dedicado aos sons eletrónicos não me cativa.
Desde cedo percebeu-se que seria um dia massivo de fãs dos Idles pela quantidade de t-shirts alusivas à banda britânica que eram envergadas. Ainda assim, comparando com o dia anterior, vi muitas mais pessoas com merch alusivo aos Gorillaz. De há uns tempos para cá esta é uma tendência que se generalizou. É cool vestir a preceito, as pessoas gostam e cada um veste a sua “pele” à sua maneira. Trata-se, sem dúvida, de uma questão de afirmação de gosto e personalidade.

Pela primeira vez, à terceira jornada, fui ver o concerto do slot das 16:35h. Era uma das minhas enormes curiosidades para este Primavera Sound Porto. No Palco Primavera atuaram as Aiko El Grupo, elas fizeram a sua estreia em Portugal neste festival. Em boa hora!
Apesar do forte sol, em frente palco foram bastantes os corajosos, enquanto outros abrigavam-se à sombra no arvoredo.
Bárbara López Aliaga (voz e teclado), Teresa Iñesta Moreno (voz e guitarra) e Lara Miera Sañudo (voz e guitarra) e Mónica Vicente Rodríguez (bateria) são as quatro espanholas integrantes nesta banda entusiasmante.

Em “A mí ya me iba mal de antes” várias pessoas saíram da sombra e foram curtir o tema mais perto do palco. A boa vibe estava devidamente instalada.
Uma das minhas preferidas não faltou: “el aWard es para”. Tocaram também “Por qué no dices la verdad”, “Sexo Fender (Cenicero)” ou “wormz” para citar outras das passagens interessantes.
“modo sigilo” foi mostrada, é uma música nova, já deste 2016, sairá no próximo álbum. Segunda vez que tocaram “Hola a la muerte de nuestro amor”, dizem ser a sua melhor obra até agora. Soou muito bem.

Teresa, a vocalista principal, foi a mais expansiva e vibrou mais intensamente esta performance portuense. Bárbara e Mónica estiveram mais firmes nos seus postos, visivelmente contentes.
O punk pop destas quatro jovens madrilenas é isso mesmo jovial. Um arco íris colorido como estava na imagem animada. Têm sonoridade imensamente alegre contudo as letras são duras e cruas. Uma estreia promissora e quero vê-las em Portugal novamente em breve.

Isabel Cea Álvarez (voz e baixo), Rodrigo Camaño Díaz (guitarra) e Rafael Mallo García (bateria) são o trio espanhol Triángulo de Amor Bizarro oriundo da Galiza. Tocam uma mescla de indie rock, noise rock e post-punk.
Trouxeram consigo um teclista cujo contributo ajudou a amplificar a tonalidade mais obscura do seu som em alguns temas.
Com mais de 20 anos de carreira bem sólida por Espanha vieram mostrar alguns dos seus temas mais recentes como “Asmr para Ti”, “Mi Catedral” ou “Sacrificio”.

Sem elementos visuais no início, surgiram durante a interpretação de “Matar a un Rey”, e polvilharam aqui e ali em temas específicos.
Muitos fãs, notória a presença de muitos espanhóis, algo já perfeitamente natural como a nossa sede. Bem que foi preciso beber água para manter-me hidratado. Mais um dia, mais uma jornada de clima bem quente.
Na parte final os fãs levantaram poeira e alguns copos também voaram. Os ânimos estavam em ponto de rebuçado.
“Estamos aqui no nosso país irmão e muito felizes” disse Isabel e a boa disposição deu num concerto musculado no melhor sentido possível. Excelente atuação!

Yard Act, mais uns repetentes no festival. Tal como em 2023 voltaram a ter honras de palco principal. A estreia foi bem sucedida e voltaram-nos a trazer o seu som curioso alicerçado no ritmo pausado das letras cantadas por James mixado com ondas post-punk.
Estes Yard Act são formados por James Smith (vocalista), Jay Russell (baterista), Sam Shipstone (guitarra) e Ryan Needham (baixista). Neste concerto tiveram o apoio de Christopher Duffin, colaborador ao vivo.
Smith ao olhar para o letreiro na bancada afirmou “criado em Barcelona mas ganha vida no Porto” e feliz constatação acerca da versão portuguesa do Primavera Sound que chegou a solo luso há 14 anos.

James é um vocalista vigoroso e foi igual a si mesmo permanentemente dinâmico. Já o saxofonista Christopher Duffin serviu tiradas arrebitadas.
Desta vez trouxeram na mala o disco ‘Where’s My Utopia’, editado em 2024, e o segundo álbum de longa duração. “Redeemer” foi uma das apresentadas perante uma audiência curiosa e atenta.
As incríveis malhas “100% Endurance” e “The Overload” compareceram na fase final da atuação para um fecho em tom elevado.

A minha pausa para jantar coincidiu com a fase inicial do concerto de Mike D no Palco Vodafone por isso não vi a sua atuação na totalidade. Não resisti a ir espreitar o ambiente e deparei-me com muita gente na encosta a ver a estreia a solo deste ex Beastie Boys. Ele trouxe consigo banda e todos apareceram equipados de encarnado.



Formados em 1988, os Massive Attack são sobejamente conhecidos como uma das principais bandas do género trip hop.
Robert Del Naja (3D) e Grant Marshall (Daddy G) atualmente são os dois elementos responsáveis pela formação britânica. Rodearam-se de músicos competentes tendo contado com a preciosa ajuda de duas vozes femininas bem cativantes, as de Deborah Miller e Elisabeth Frazer.
A componente multimédia foi brutalíssima com fortíssimas mensagens políticas e sobre o status quo do nosso mundo atual. Foco tremendo na situação na Palestina, nomeadamente na Faixa de Gaza. Ouviram-se gritos de “Free Free Palestine”.

A Inteligência Artificial e a Palentir com mensagens de atenção para o desmesurado poder do digital foram também alvo, assim como o foco em determinadas personalidades mundiais.
A individualidade e a posição de cada um neste mundo foram também dissecadas.
Ativismo social e politico que certamente não terá sido do agrado de toda a gente. A cultura e a música sempre tiveram este lado mais ousado e frontal, uma forma de despertar consciências. Atualmente a sociedade anda algo entorpecida e, provavelmente, estas intervenções são cada vez mais relevantes para “abrir horizontes” as pessoas.

Desde logo em temas como “Risingson” ou “Girl I Love You” o silêncio da audiência foi arrepiante e a atenção totalmente focada no palco.
Os músicos não estiveram iluminados, o propósito principal foi mesmo na absorção da componente visual de vídeo. Os temas dos Massive Attack serviram de banda sonora perfeita para tudo o que eles quiseram transmitir.
Toda a banda esteve num patamar de excelência. Um dos bonitos momentos em termos musicais foi na interpretação de “Unfinished Sympathy”, tema incrível.
Atuação magnetizante e massiva emocionante que me deixará a refletir nos próximos dias. Um fecho magistral com “Teardrop” ao fim de hora e meia de atuação.

O irreverente Joe Talbot, de personalidade bem vincada, é o incansável vocalista destes magníficos Idles. Mark Bowen (guitarrista) com a sua interação com os fãs não deixa Joe ficar com toda a diversão.
Adam Devonshire (baixista), Jon Beavis (baterista); Lee Kiernan (guitarrista) são os outros músicos desta formação. Desde que chegaram nunca mais descolaram da notoriedade e ainda bem! O filão de bandas vindas de Bristol parece não ter fim…
Referência extra para Talbot. Veio mais cedo para o Porto tendo participado no concerto nos Gorillaz na véspera.

“Mother” e “Mr. Motivator” deram impulsos ao concerto em pontos diferentes da primeira parte da atuação que teve sempre energia contagiante.
Para eles foi uma honra e um privilégio tocar nesta cidade para um dos melhores públicos do mundo, o portuense pois claro.

Em “I’m Scum” o pessoal baixou-se e subiu com vontade em continuar a fazer a festa como se o mundo acabasse no dia seguinte… Um concerto de Idles tem este ingrediente irresistível.
“Danny Nedelko”, tema já emblemático, foi um dos pontos mais elevados na noite. Joe Talbot também embala os fãs bem pertinho deles com bastante assertividade.
Corpos imundos, empoeirados, suados, sangrados… Feitas as contas a felicidade de participar ativamente numa celebração punk rock é o que os fãs levam de modo bem saudoso para futura memória.

No final de Idles tinha uma decisão a tomar: ou ia embora ou dava uns passos ao lado até ao Palco Primavera para ver os Model/Actriz. A decisão foi a de ficar e demonstrou-se acertada.
O vocalista Cole Haden, o baterista Ruben Radlauer, o.guitarrista Jack Wetmore e o baixista Aaron Shapiro satisfizeram a minha curiosidade acerca da valia destes Model/Actriz.
Uma banda com muito rock e batidas acelaradas pelo meio porém quase impossível de catalogar devido a todas as imensas tonalidades musicais presentes nos seus temas.

Cole Haden revelou-se bastante teatral e cénico, basta reparar na sua vestimenta para ter um bocadinho de noção da sua personalidade extrovertida em palco. Tão extrovertida que logo na fase inicial do concerto desceu do palco e deambulou, a cantar e a dançar durante dois temas inteiros, cruzando a imensidão de pessoas presentes na plateia em diversas direções.
A elevada intensidade desta jornada, já quase perto das 3 da manhã, fazia-se sentir e não consegui ficar até final dos Model/Actriz. Fiquei com a firme certeza de quer voltar a vê-los numa próxima ocasião.

Foi uma jornada bem intensiva e com escolhas musicais certeiras. O roteiro previamente definido foi muito bem conseguido. Só ficou uma pequeno lamento por não ter conseguido presenciar o concerto dos Agriculture, foi à mesma hora dos The xx.
Já fisicamente aguentei bastante satisfatoriamente a intensidade de 3 dias sempre intensos. Este foi o meu quinto Primavera Sound Porto consecutivo, porventura este terá sido aquele em que cheguei ao final em melhor condição. Registei com muito agrado.
Reportagem fotográfica Completa: clicar aqui
Texto:
– Edgar Silva
Fotografia:
– Ana Lourenço @ blackphant.stage (Instagram)
