Agosto sem L’Agosto já não é a mesma coisa

Já ganhou raízes em Guimarães e na agenda cultural nacional este Festival L’Agosto que era suposto só ter tido uma edição, a de 2017. Contando com a deste ano já lá vão 6 edições e, pelo “andar do carrossel” (ou não estivéssemos numa altura de festas da cidade), não ficará por aqui.

Dia 1, quinta-feira 3 de agosto

Vindos de São Tomé e Príncipe os África Negra proporcionaram uma abertura de evento bastante festivaleira com música com aquele timbre tipicamente africano. Não atrasou muito e, apesar da equipa local de futebol estar a jogar com mais de 18 mil pessoas a assistir, certo é que não afetou a afluência de publico já em bom número desde cedo.

Sons africanos bem quentes dos África Negra // Foto @ José Caldeira

São uma formação com mais 40 anos de história tendo tido o seu apogeu nos anos 80. Atualmente com 6 elementos, eles puxaram pelas gentes de Guimarães e puseram as pessoas a bailar na relva do jardim do Museu de Alberto Sampaio. Com canções como “Angélica” ou “Madalena meu amor” um mini baile foi criado deixando os presentes muito bem-dispostos. Chamada de atenção para o baixista, mostrou os seus dotes extra: tocou o seu instrumento com a boca e com os pés. Algo que ainda não tinha visto em tantos anos de concertos.

Glockenwise, a banda de Barcelos como Nuno Rodrigues fez questão de repetir orgulhosamente durante o concerto, foi a seguinte em palco. O novo rock lusitano é liderado por eles e pelo seu muito aplaudido e elogiado LP ‘Gótico Português’ editado no passado mês de fevereiro. No decurso dos seus 45 minutos de atuação, slot bastante curta efetivamente, focaram-se nesse incrível álbum do qual tocaram “Vida Vã”, ”Lodo”, “Natureza”, “Margem”, “Gótico Português” e a última da atuação “Besta”. Esta é a ordem pela qual foram interpretadas.

Cláudio dos Glockenwise // Foto @ José Caldeira

Nuno Rodrigues pediu por duas vezes para o público se juntar em frente ao palco e as pessoas corresponderam criando uma vibe mais apropriada para o momento. Com a noite bem fresca até foi uma boa ideia juntar o pessoal. Nuno esteve interventivo qb e até teve a proeza de ter, pela primeira vez, o capotraste da guitarra partido.

“Primeira vez que apresentamos o gótico foi em Guimarães e estava menos gente. Vitória!” disse Nuno Rodrigues e aquele grito de vitória foi uma espécie de anti-clímax para os adeptos do Vitória Sport Club em noite de eliminação europeia. Questões futebolísticas aparte, o artista referia-se à atuação no passado mês de fevereiro quando tocaram no Teatro Jordão numa atuação inserida no Courage Club. Estive também nessa performance e foi igualmente um momento bem passado.

Nuno dos Glockenwise /// Foto @ José Caldeira

Nuno Rodrigues (voz e guitarra), Rafael Ferreira (guitarra), Rui Fiúza (bateria) e Cláudio Tavares (bateria) são o núcleo duro desta formação barcelense e ao vivo contam com o apoio de dois músicos: Gil Amado (guitarras) e Sérgio Bastos (teclados) e proporcionaram o melhor momento da jornada inaugural no qual existiu o pico de público nesta noite. Nota ainda para a particularidade dos fãs terem as letras na ponta da língua.

O único da noite a ter um slot superior a 45 minutos foi Ryan Lee West conhecido musicalmente como Rival Consoles. Este artista britânico tem já mais 15 anos de carreira e estreou-se em Guimarães neste L’Agosto. A sua atuação foi pautada pelo seu som característico e diferenciado produzido através dos seus sintetizadores.

Ryan Lee West como Rival Consoles // Foto @ José Caldeira

Alguns dos temas interpretados por Rival Consoles foram “Persona”, “Forwardism”, “Afterglow” e “Sudden Awareness of Now” . Como jeito de remate posso afirmar que foi um bom cartão-de-visita do seu trabalho discográfico.

Dia 2, sexta-feira 4 de agosto

Esta noite ficou marcada pela primeira enchente nas ruas de Guimarães por causa das Festas da Cidade e Gualterianas. Um cenário totalmente divergente relativamente à noite anterior em que as redondezas do Museu de Alberto Sampaio estavam perfeitamente serenas. As ruas estavam cheias de vida e de pessoas, já o recinto do L’Agosto estava muito pacífico por volta das 22h.

A lisboeta Maria Reis prossegue a sua carreira a solo iniciada em 2017 deixando para trás o projeto Pega Monstro em versão duo com a sua irmã Júlia. A cantora e compositora subiu ao palco a pedir com os braços, como a querer dar um abraço, pedido dessa forma visual, para as pessoas se aproximarem dela. A solicitação foi aceite e o público, ainda em número tímido, chegou-se à frente do palco.

A canautora Maria Reis em estilo muito sincero // Foto @ José Caldeira

‘Benefício da Dúvida’, lançado em 2022, foi o mote para a sua atuação. Apresentou-nos canções como “Elefante na Sala” e “Odeio-te”, as duas primeiras tocadas, e desse LP tocou também, por exemplo, “Virgem Maria” e faixa que dá o nome ao trabalho e discográfico. A crueza sincera e desarmante com que interpreta as suas próprias canções, com letras bastante diretas, é algo que as pessoas sentem nos ossos. O devido valor pela sua coragem dessa pose pública é-lhe devido.

Para a atuação de Moullinex △ GPU Panic o ambiente já estava mais vibrante e o número de pessoas bem mais significativo. Companheiros de editora e de palco, Luís Clara Gomes e Guilherme Tomé Ribeiro, proporcionaram um dos momentos mais significativos do evento. Vestidos a rigor ao estilo yin-yang subiram ao seu mini palco situado sensivelmente a meio do recinto.

Moullinex & GPU Panic num conceito diferenciado // Foto @ José Caldeira

O público já estava ansioso e os últimos preparativos da “nave espacial” fizeram ainda borbulhar um pouco mais a expetativa. O sistemas de luzes já estava com OK dos técnicos e por isso foi hora de “levantar voo”.

Tudo afinado e pelas 23:11h o duo entrou e iniciou a sua performance com “Inner Child”. Do mais recente álbum conjunto tocaram, por exemplo, “Break Me In Pieces”, “Pacífico” ou “Sublime”. Pelo meio apresentaram um tema novo e em seguida como disse Moullinex: “a partir de agora só se parte pedra aqui”. Aí entramos numa nova fase do espetáculo, sempre com um sistema de luzes bastante apelativo. A proximidade do público funciona muito bem e quebra-se aquela “barreira invisível” quando os artistas estão num local mais afastado, ajuda a criar sensações mais intensas.

Moullinex & GPU Panic num conceito diferenciado// Foto @ José Caldeira

“Luz” foi a última interpretada ao fim de 1h numa atuação positiva e satisfatória para todos os que puderam presenciar.

Axel Moon e Niko Shin são franceses e o seu projeto chama-se Ko Shin Moon. Eles que regressaram ao Minho depois da presença no gnration Open Day em 2022, altura em que pude comprovar a sua valia. O som que produzem é construído com claríssimas inspirações indianas e arábicas. Um cruzamento entre os sons mais modernos das batidas eletrónicas e dos sintetizadores com o som de instrumentos tradicionais orientais de cordas.

A dupla francesa Ko Shin Moon /// Foto @ José Caldeira

A performance foi bem recebida pelo público vimaranense e durante 1 hora o público aproveitou para dançar ao ritmo dos Ko Shin Moon não tendo desarmado depois da atuação do duo lusitano.

Dia 3, sábado 5 de agosto

Praças, ruas e esplanadas cheias em ambiente de festa. Assim estava Guimarães em mais um dia das Festas da Cidade e Gualterianas 2023. A boa vibe entrou igualmente no jardim do Museu de Alberto Sampaio e logo deste início, até mesmo antes do arranque dos Solar Corona já se registava uma boa afluência. “Dancing in the dark” na versão dos Hot Chip entoou na instalação sonora nos instantes antes do arranque da última noite e para uma estreia de peso na Cidade Berço.

José Roberto Gomes (baixo), Rodrigo Carvalho (sintetizadores), Peter Carvalho (bateria) e Nuno Loureiro (guitarra) entram de forma convicta pelas 22:15h para uma jornada que foi a verdadeira aceção de “partir pedra”. Já não há o saxofone de Julius Gabriel. Há, no entanto, uma viagem stoner na qual os sintetizadores foram aquela especiaria que deu aquele toque especial naquele menu rock servido de forma marcadamente picante.

Solar Corona numa belíssima abertura do 3º dia // Foto @ José Caldeira

O orgulho barcelense foi, mais uma vez lembrado, duas noites depois dos Glockenwise o terem igualmente enfatizado. Barcelos é realmente a capital do experimentalismo do rock nacional de nota máxima.

Tinha curiosidade nos Cobrafuma, exacerbada pelo facto das opiniões ouvidas sobre as suas qualidades acima da média. A boa expetativa foi confirmada com selo de qualidade atribuído ainda mesmo antes do final dos 45 minutos em que atuaram.

José Roberto Gomes mudou o seu outfit deixou o baixo e pegou na guitarra, o que não mudou foi a sua constante entrega. Ao serviço dos Cobrafuma e ao lado de Luís Chaka Santos (bateria), Miguel Azevedo (voz e guitarra), Rui Pedro Martelo (voz e guitarra) foram uma espécie de superbanda nacional.

José Roberto e Chaka a dar o seu melhor // Foto @ José Caldeira

“Fecharam-nos a sala mas nós vamos tocar para vocês” disse Azevedo em alusão à recente polémica com as salas do STOP no Porto. Sendo uma banda do Porto seria inevitável a referência. Tocaram o seu álbum de debute na sua totalidade. As 3 vozes zangadas e roucas de Miguel, José e Rui deram uma roupagem mais punk ao som já de si bastante fortíssimo.

O público correspondeu com uma energia impetuosa, no bom sentido, no qual o mosh lá fez a sua abençoada aparição. Mosh que não foi de presença omnipresente como sua santidade o Papa.

Miguel Azevedo, a figura ímpar da música portuense // Foto @ José Caldeira

Para o encerramento de 3 dias de L’Agosto ficou guardada a presença dos And So I Watch You from Afar, quarteto oriundo de Belfast na Irlanda do Norte. Eles foram a cereja no topo do bolo rubricando o momento mais marcante do festival em 2023. Entraram instantes depois da meia-noite e meia por entre o fogo-de-artifício das festas da cidade o que deu um impacto visual brutal à parte inicial da sua atuação, algo que apanhou desprevenidos Rory Friers (guitarra), Niall Kennedy (guitarra), Ewan Friers (baixo) e Chris Wee (bateria), os atuais membros dos And So I Watch You from Afar.

No público notou-se a presença de fãs, inclusive vindos de Espanha, numa noite que registou a melhor adesão de público comparativamente às duas transatas. O post-rock instrumental dos And So I Watch You from Afar é delicioso e emocionante. Deu para percecionar o porquê do seu sucesso, eles que já têm uma vida longa e que está a caminho dos 20 anos de carreira.

O post-rock imparável dos And So I Watch You from Afar // Foto @ José Caldeira

“Big Thinks Do Remarkable”, quiçá o tema mais emblemático desta formação irlandesa, não faltou e foi interpretado antes do encore. Até esse ponto não faltaram temas como “Mullally”, “A Little Bit of Solidarity Goes a Long Way” ou “7 Billion People All Alive at Once”.

A boa disposição do quarteto foi reinante durante a performance e para um final ainda mais épico no encore Ewan Friers e Rory Friers desceram ao jardim e tocaram no meio dos fãs.

Ewan Friers dos And So I Watch You from Afar // Foto @ José Caldeira

Este foi um final merecido para o L’Agosto, com nota altíssima e que fica marcado para a história do festival. Um evento que aconteceu de maneira fluida num local bastante aprazível e que pareceu uma ilha no meio de tanto reboliço das festas. Uma ilha encantada e um cantinho bom que serviu de resguardo acolhedor.

Considerações finais:
– Penso que o festival L’Agosto devia ser apenas dois dias, a organização poderia assim maximizar (até mesmo financeiramente) a escolha das bandas para sexta e sábado, respetivamente.

– Não coincidir nos dias em que se realizam as Festas Gualterianas, acho que retira visibilidade ao festival.

– O festival teria mais a ganhar com bandas das “ondas sonoras” dos And So I Watch You from Afar e Cobra Fuma (tocaram nesta edição) ou dos Zen e Bizarra Locomotiva (toraram no ano passado). Foram os dias com mais gente nas respetivas edições.

Texto: Edgar Silva
Fotografia: José Caldeira | Festival L’Agosto (fotos oficiais)

Edgar Silva

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Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

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