Frank Carter & The Rattlesnakes, Julie e Squid abanaram devidamente com os alicerces – Dia 1 do Vodafone Paredes de Coura 2023

Em 2023 o trigésimo aniversário do Vodafone Paredes de Coura tem sido celebrado com entusiasmo e alegria, mesmo até bem antes do arranque dos concertos do cartaz principal no anfiteatro natural do Taboão.

A 1ª edição realizou-se em 1993 e na altura apelidou-se de “Festival de Música Moderna Portuguesa” e teve apenas um dia. Passado estes anos todos o festival tornou-se numa “meca anual” para milhares de fãs do festival, de Paredes de Coura, da sua praia fluvial e do rio Coura. A seleção musical é a “cereja no topo do bolo” com escolhas altamente personalizadas e dentro de um estilo que tem sido recorrente já há longos e bons anos. Apesar de lá ter alargado um pouco o ramo dos estilos musicais, felizmente a organização tem o cuidado de não “shoppinguizar” a programação.

“Coura é Amor” é um lema que surgiu espontaneamente tendo ficado como uma “imagem de marca” de um festival que não tem paralelo em Portugal, é uma história única.

Este ano o cartaz não será dos mais apelativos de sempre, é uma opinião que ouvi por múltiplas vezes, contudo não deixa de ter atrativos fortíssimos para uma visita ao Alto Minho. Pessoalmente foram os suficientes para deslocar-me àquela belíssima zona de Portugal e fazer a reportagem deste Vodafone Paredes de Coura.

Foco agora então aos acontecimentos da primeira jornada, nesta passada quarta-feira, dia 16 de agosto…

Belíssimo anoitecer durante os Yo La Tengo | mais fotos clicar aqui

Parti rumo a Paredes de Coura, a partir de Guimarães, a seguir ao almoço e já tinha conhecimento da 1ª Vodafone Music Sessions. A rápida viagem proporcionou o devido tempo para chegar a horas à Casa Grande de Romarigães, o local onde Samuel Úria tocou. Ele que foi um convidado de última hora. Trata-se de um momento proporcionado pelo patrocinador principal no qual convidam pessoas (umas boas dezenas) que estão no acampamento do festival e levam-nas a estas sessões misteriosas que não são divulgadas de antemão. Aproveitei a oportunidade pois será difícil ter nova.

O artista tondelense esteve fiel a si mesmo, com o seu característico e divertido humor. Logo por aí desarmou o público e o seu mini showcase à varanda foi empolgante por entre temas como “Fica aquém” e “A contenção”. Apesar do atraso no início valeu totalmente o esforço em estar presente e passar por locais “nunca dantes navegados”.

Já no recinto, como faço sempre questão assim que é possível, gosto de assistir às performances das bandas nacionais. Com os Evols não foi exceção.

No Sobe à Vila de 2022 os Evols não puderam tocar devido ao cancelamento dessa noite por causa da chuva. Nesta passada quarta-feira eles tiveram a honra e privilégio de fazerem a abertura do evento no Palco Yorn, o cenário secundário com uma nomenclatura estreante.

Evols numa apresentação envolvente | mais fotos clicar aqui

Inicialmente aprazada para as 17:10h, houve alteração de horário, e o sexteto nacional começou a sua atuação pelas 17h. Fui apanhado de surpresa e provavelmente não fui o único. O que vale é que já estava em modo de espera àquela hora. A presença de público no concerto deles foi mais modesta ao que perspetivava, ainda assim uma comparência bem gentil.

‘III’, o disco mais recente editado em 2020, foi o mais abordado do qual interpretaram alguns temas como, por exemplo, “Father Death”, “Cops”, “Jungle” ou “White Lady”. O seu rock com claríssimas influências em música psicadélica dos anos 60/70 está bem audível e apresentam a sua visão sonora com temas bastante atraentes.

Vitor Santos e França Gomes dos Evols | mais fotos clicar aqui

Vitor Santos (voz e guitarra), França Gomes (guitarra), Carlos Lobo (guitarra), Rafael Ferreira (baixo), André Simão (bateria) e Sérgio de Bastos (teclados) deram perfeitamente conta do recado com uma compenetrada, descontraída e seguríssima atuação com cerca de 40 minutos.

Vindos de Itália, os Calibro 35 não estavam na minha agenda. Ainda assim fiz questão de focar-me nestes italianos por longos minutos. Este quarteto toca música instrumental, é rock alternativo com funk e jazz à mistura com um ritmo hipnótico no qual os teclados criam um background bem diabólico. O público emergiu nesse espírito musical, foi aprovando a atuação por entre palmas e gritos com bastante vontade.

Calibro 35 em estreia em Paredes de Coura | mais fotos clicar aqui

Tom Dowse (guitarrista), Florence Shaw (vocalista), Nick Buxton (baterista) e Lewis Maynard (baixista) são os quatro músicos que formam os Dry Cleaning e deram a segunda performance em Portugal, a outra foi igualmente registada a norte no Primavera Sound Porto em 2022 a qual tive também o gosto de assistir.

Eles foram a primeira banda a tocar no Palco Vodafone, o palco principal, e sentiam-se privilegiados por tal situação, algo que Florence Shaw revelou logo na parte inicial da sua performance.

Num belíssimo final de tarde com calor naquele ponto certo pontificado pelo céu azul, os Dry Cleaning arrancaram com “Viking Hair”. A erva em bom estado convidava as pessoas a se sentarem e efetivamente na colina foram muitos os que assim viram este concerto. O rock & roll faz parte do seu cardápio musical com pertinentes laivos de indie e punk. A grande diferença deste projeto britânico é a forma de Florence Shaw entregar as letras, fá-lo com um estilo de spoken word invulgar porém de forma deliciosa.

A pose irreverente de Florence Shaw | mais fotos clicar aqui

Além de “Gary Ashby” e “Strong Feelings” os Dry Cleaning expuseram os seus temas mais conhecidos, casos de “Unsmart Lady” e “Scratchcard Lanyard”. O ritmo dos seus temas, por vezes pachorrento, acabou por ser adequado ao cair da tarde, estava assim desse modo a pedir alguma serenidade e paz com uma banda sonora de qualidade.

Tal como os britânicos referidos anteriormente, a norte-americana Lindsey Jordan esteve igualmente no norte de Portugal pela segunda vez. A diferença é que a artista conhecida como Snail Mail fez a sua estreia mais cedo, em 2019. Nessa atuação no Primavera do Porto, a qual assisti, não fiquei muito convencido dos seus dotes vocais. Terá apenas sido um mau dia da cantora?

Lindsey Jordan a tocar as suas músicas como Snail Mail | mais fotos clicar aqui

A atuação vocal de Lindsey Jordan neste concerto no Vodafone Paredes de Coura já me encheu mais as medidas, ela que apresentou-se com voz rouca logo em “Pristine”, a canção de abertura. A cantora e guitarrista, que foi trocando constantemente de guitarra, estava muito bem-disposta e feliz pelo seu regresso ao nosso país. A jovem artista até presenteou o público com um “What’s Up?” bem enérgico e aos saltos.

Com o aproximar da hora da atuação Yo La Tengo, seguia-se no cardápio, as pessoas foram saindo rumo ao palco principal. Até lá presenciaram uma atuação sólida de Snail Mail e dos seus músicos. “Glory” ; Thinning” ; “Heat Wave” e “Headlock” foram interpretados numa setlist bem construída e com uma sequência pensada.

Lindsey Jordan a tocar as suas músicas como Snail Mail | mais fotos clicar aqui

Por todo o festival tivemos sempre um público muito heterogéneo nas idades, literalmente dos 7 aos 70. A idade mais jovem será menor e a mais idosa porventura até maior. Quando assim é, para mais num cenário tão idílico e com um ambiente propício a uma paz entre outros, a vivência no festival causa um impacto permanente na memória de quem o vive.

Já com o cair da noite os Yo La Tengo, trio formado por Ira Kaplan (voz e guitarra), Georgia Hubley (voz e bateria) e James McNew (baixo), juntaram a primeira grande audiência perante o cenário principal. Eles que são um dos esteios do indie rock norte-americano de algumas décadas a esta parte.

Georgia Hubley num momento fora da bateria | mais fotos clicar aqui

Tiveram direito às primeiras grandes ovações. Os ânimos finalmente começam a ficar mais intensos. Forneceram um travo de melancolia, encaixou belissimamente no panorama da encosta ao anoitecer. Ira Kaplan, não foi de modas, e na introdução de uma das primeiras canções disse que iam tocar uma música “mais velha do que a maioria de vocês”. Efetivamente a influência dos Yo La Tengo tem sido intensa à escala global desde 1984, ano em que se juntaram.

A primeira parte de músicas tocadas pelos Yo La Tengo foram mais calmas e numa segunda parte “abriram o livro” para a sua versão indie-rockeira. Eles que tocaram temas de ‘This Stupid World’, o disco mais recente lançado este ano e outras composições mais antigas. Uma setlist única e diferente de outras. Mais uma presença de sucesso ímpar e para a história do festival.

Ira Kaplan dos Yo La Tengo | mais fotos clicar aqui

Alex Brady (baixo e voz), Keyan Zand  (guitarra e voz) e Dillon Lee (bateria) são jovens norte-americanos oriundos da Califórnia e, apesar da juventude, tocam na banda Julie e combinam Art Rock e Grunge como adultos com longa experiência. Fiquei impressionado com este trio explosivo cuja descarga sonora é tremenda e bem vigorosa. O ritmo alucinante dos seus temas foi acompanhado por vídeos animados bem curiosos passados em loop. Uma das projeções foi um famoso “blue screen” do Windows e se há algo que demonstraram é que não estão para grandes conversas nem para bloqueamentos. Julie é uma banda a ter em atenção para os próximos anos, definitivamente.

Um dos momentos mais marcantes da jornada 1 foi a atuação dos Frank Carter & The Rattlesnakes. O músico Frank Carter conta com os The Rattlesnakes, a banda que dá-lhe suporte desde 2015 e atualmente é constituída pelos músicos Elliot Russell (guitarra e teclados), Gareth Grover (bateria), Dean Richardson (guitarra) e Tom ‘Tank’ Barclay (baixo).

Frank Carter e aquela irreverência punk ao estilo britânico | mais fotos clicar aqui

Frank Carter esteve sempre altamente comunicativo com a audiência e puxou para si os galões de showman, ele que logo nas primeiras músicas “mergulhou” literalmente para o público e fez um arriscado mosh. O público português, o de Coura pelo menos, não deixa ninguém ficar em maus lençóis. Frank estava deliciado, ele confessou nunca ter visto um moshpit numa encosta. Em “Kitty Sucker” e “Parasite” o público já estava devidamente conquistado.

Estava a acontecer uma festa punk rock, a fazer a cara do festival e aquilo que o público de Coura mais adora. A banda foi alternando entre um ritmo mais aceleradamente rock e outros instantes menos efusivos sempre sem deixarem cair o norte rockeiro. Entre canções como “Cupid’s Arrow”, sobre apaixonar-se ou “Lullaby” dedicada aos pais, houve momentos para todos os gostos.

Músicos dos The Rattlesnakes a banda de apoio de Frank Carter | mais fotos clicar aqui

Em “Devil Inside Me” um dos guitarristas tocou no fosso junto à juventude na grade e foi igualmente nesse tema que Frank orquestrou uma onda gigante com o público, bem-sucedida diga-se.

“Esta não é para vocês pois vivem no país mais bonito do mundo” na introdução a “My Town” e seguiu-se “Crowbar” para encerramento das festas. Belíssima presença de Frank Carter e seus pares, estão de parabéns pelo empenho.

Foi ainda com um mar de gente no Palco Yorn a deleitar-se com uns portentosos Squid e cujo ambiente esteve em altíssima qualidade que Jessie Ware entrou para a sua atuação à meia-noite e meia.

A britânica Jessie Ware veio mais cedo para Portugal, algo que foi possível detetar pelas suas redes sociais, pela zona metropolitana de Lisboa. Ela que acabou por confessar que “adora Portugal”, veio mais cedo para o nosso país afim de umas férias em família.

Jessie Ware muito bem acompanhada | mais fotos clicar aqui

A britânica de 38 anos é detentora de uma voz poderosa e tal foi percetível em “Begin Again”, o tema de abertura. Apoiada por 2 músicos, por coro/bailarinos deu um espetáculo pop com todas características inerentes a tal. Jessie foi deambulando pelo palco demonstrando os seus dotes dançarinos. As brilhantinas do seu vistoso vestido ajudaram que se fixassem os olhares em si.

Por entre temas como “Pearls” ou “Ooh La La” o público estava demasiado na expectativa enquanto a pujança dos Squid continuava a todo o vapor com muita gente a usufruir daqueles britânicos.

Já terminado o concerto dos Squid algum público afluiu à encosta e foi aí que presenciei a um dos momentos em sintonia de Jessie com o público. Ironicamente o público arrebitou com um tema que não é dela e até cantaram em coro. Foi com “Believe”, original de Cher, que o concerto animou um pouco mais.

Jessie Ware numa atuação muito movimentada | mais fotos clicar aqui

Até final houve a oportunidade para ouvir canções como “Hot N Heavy” , “What’s Your Pleasure?” ou “Free Yourself”.

Numa jornada inaugural, sem ter lotação esgotada algo que foi um pouco notório, o Vodafone Paredes de Coura teve uma boa afluência de público. A vida no recinto foi cómoda em todos os aspetos, desde a visualização tranquila dos concertos, do usufruto dos WC e das zonas de restauração. Nota muito positiva em todos esses itens.

 

Foto-reportagem completa deste dia: Clicar Aqui

Público sempre a usufruir ao máximo | mais fotos clicar aqui

Texto: Edgar Silva
Fotografia: Tiago Paiva

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

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