
Fez recentemente 10 anos que vi a primeira vez o Valter Lobo ao vivo. Aconteceu em Guimarães no Festival Manta a 2 de setembro de 2016 num noite em que também atuaram os Capitão Fausto. Depois disso passei a segui-lo com particular atenção. Já o vi em cena em diversas variantes: a solo, em duo e com banda completa.
Inevitavelmente vi-o em Fafe (por mais de uma vez), a sua terra natal. A primeira vez que fiz reportagem foi em 2019, um concerto que teve lugar no CCOP no Porto, cuja reportagem pode ser vista e lida aqui. Em 2025 dei um salto ao Theatro Circo em Braga para ouvir as canções do seu álbum ‘Melancólico Dançante’, reportagem pode ser vista e lida aqui.
No ano de 2024 tocou no Vodafone Paredes de Coura, uma atuação épica e memorável, ainda recordada com muita nostalgia nos dias de hoje. As minhas palavras sobre esta aparição no Alto Minho podem ser lidas aqui.

Tive sempre bonitas experiências nos concertos do Valter Lobo, sou vimaranense, o local mais afastado da minha residência onde o vi ao vivo foi no Teatro-Cine de Torres Vedras. Por todo este enquadramento soou-me muito bem juntar à comemoração de 10 anos de ‘Mediterrâneo’, numa das melhores salas nacionais, para um balanço pessoal e comemorativo como fã do meu reencontro com o artista ao longo de todos estes anos.
Neste passado sábado, 17 de outubro, assisti ao concerto de Valter Lobo no Grande Auditório Francisca Abreu do Centro Cultural Vila Flor em Guimarães numa atuação para celebrar os 10 anos de ‘Mediterrâneo’. Um álbum que teve a sua primeira edição em vinil e que foi revisitado de forma sublime.
Fiquei muito satisfeito por ver a sala praticamente cheia, um claro sinal do crescimento sustentado de Valter enquanto artista independente e sem orçamentos megalómanos para marketing. Aliás, mesmo sem qualquer tipo de dotação para essa finalidade… A sala foi-se enchendo aos poucos, a música do duo Hermanos Gutiérrez serviu como banda sonora perfeita para esses momentos prévios ao concerto.

Além de Lobo na voz e guitarras, houve o companheiro de sempre Jorge Moura na guitarra e os habituais parceiros que completam a banda: Pedro Oliveira na bateria e Pedro Santos no baixo. Para fornecer um som mais etéreo às bonitas canções de ‘Mediterrâneo’ o músico fafense chamou três músicos que tocaram instrumentos de sopro: Alexandre Petisco no trombone, Rui Almeida no trompete e Tiago Martins no saxofone. No decurso do concerto e na parte dos agradecimentos houve uma chamada especial para Petisco, este músico foi o responsável por todos os arranjos musicais destes instrumentos.
As nove faixas de ‘Mediterrâneo’, disco editado a 1 de setembro de 2016, foram interpretadas sequencialmente pela ordem do álbum. A faixa “Oeste”, costuma fechar a maioria dos concertos, desta feita foi a terceira do alinhamento e foi “servida” de um modo fantástico. Esta é uma das minhas canções preferidas.

Valter esteve soltinho, bem mais soltinho do que o habitual. Faz parte da sua personalidade, do seu jeito informal. Esteve sempre muito dialogante, extremamente bem-disposto algo que é seu apanágio e que bem o caracteriza. Quis fornecer uma noite para “esquecer este mundo de merda”, algo que conseguiu na perfeição durante os 99 minutos que esteve em palco.
Fez revelações curiosas como, por exemplo, que nasceu no hospital de Guimarães (para quem não conhece, não se trata do edifico atual) e que foi também nesta cidade minhota que fez um estágio como advogado. Tristeza por tristeza, Lobo decidiu-se pelo caminho das músicas tristes. Esta melancolia musical fica-lhe bem e os fãs claramente agradecem que tenha escolhido este caminho de um folk de imenso traço melancólico em que uma pitada romântica faz o contrapeso na medida ideal.

Outra das revelações foi que o CCVF é um local especial aonde viu muitos concertos e onde ganhou inspiração para a sua veia artística como músico. Daí esta atuação ter sido, naturalmente, especial. A cidade vimaranense faz parte muito profunda do percurso de vida deste cantautor.
Quando o público deu o feedback da sua origem, a pedido do artista, houve muita gente a responder que vinha de Braga, do Porto e até de locais mais longínquos como Viseu e Lisboa. Curiosamente isto é algo recorrente nos concertos dele, há sempre um número significativo de pessoas de fora das localidades aonde atua.

Em diversas ocasiões como, por exemplo, em “Oeste” e “Guarda-me Esta Noite” houve coros afinadíssimos, tímidos e bem bonitos. Bem ao jeito melancólico de Valter Lobo. Foram dois dos momentos incríveis da noite. A atuação beneficiou, claramente, de uma identidade cénica fortíssima idealizada pelo seu técnico de iluminação Berto Pinheiro. Os jogos de luzes e de sombras resultam visualmente de forma muito impactante.
“Supernós” e “Quem Me Dera” fecharam de maneira sublime a parte do concerto em que ‘Mediterrâneo’ foi revisitado de modo bem magnânimo. Para tal contribuíram os instrumentos de sopro, a darem aquele impulso extra, fizeram lembrar os temas de Beirut, banda liderada por Zach Condon. Um projeto que aconselho vivamente e em que as passagens musicais com instrumentos de sopro são simplesmente irresistíveis.

Na parte final houve tempo para a interpretação de quatro temas de ‘Melancólico Dançante’, o último registo discográfico, editado em 2025. Por entre os temas “Tão Perto”; “Ainda ontem tinha céu”; “Aguarela” e “Se é primavera”, aqui em sequência em que foram tocadas, houve duas novidades deixadas por Valter Lobo. A de que está a escrever um disco novo sendo que tocou uma das novas composições. A reação a esta nova foi mesmo a melhor possível.
Valter Lobo leva já 14 anos de carreira musical, sempre em crescendo. Segue com uma identidade bem própria, de forma bem sólida, com uma progressão positiva de álbum para álbum. A sua melancolia romântica continua refrescante e a ganhar fãs ao longo dos anos. A sua relação com eles é bem cuidada e no final deste concerto vimaranense foi formidável a atenção que Valter Lobo teve com as pessoas. Assinou vinis (os itens esgotaram), tirou fotos com quem quis e distribuiu umas palavras sempre com um sorriso na sua face. Assim é a vida de um artista self-made sem tretas nem marketings.
Reportagem fotográfica Completa: clicar aqui

Texto:
– Edgar Silva
Fotografia:
– Maria Vilaça @ mgvertex_ (Instagram)
