Suave Fest demarcado pela velocidade intrépida dos Expresso Transatlântico e das Lesma (1ª parte)

Gaspar Varela dos Expresso Transatlântico © foto de Rui Torres // @cadernetamusical_

Este ano o Suave Fest esteve de regresso ao Pátio e Largo da Misericórdia em pleno o coração de Guimarães. A 10ª edição teve lugar no ano passado em que os nossos destaques foram os concertos de Surma, Ana Lua Caiano e Cassete Pirata. A reportagem desta edição pode ser recordada aqui.

Agora em 2026 aconteceu a 11ª edição. Como habitualmente, teve chancela da Associação Convívio, uma entidade de cariz cultural e recreativa, sem fins lucrativos, fundada em 1961. Tem sido uma agregadora de público através das suas iniciativas, tem dinamizado o setor cultural na Cidade Berço.

3 de setembro, quinta-feira

Tal como na edição de 2025, esta em 2026, teve igualmente “dia de aquecimento” na passada quinta-feira, dia 3 de setembro. No ano passado o “dia zero” teve ingresso pago a 8€, já na passada quinta-feira o acesso foi gratuito. Agora esta jornada passa oficialmente a ser integrada de forma oficial na programação do Suave Fest. Tal acontecimento teve lugar no Pátio da Igreja da Misericórdia, mesmo ali a dois passos da sede da Associação Convívio.

Glass Glass no Pátio da Misericórdia © foto de Gonçalo Fontes // @__goncalof__

Mais uma vez foi um gosto naquele pátio, um espaço mesmo junto à Igreja da Misericórdia, lugar religioso inaugurado em 1606. O local é aprazível, a noite quente, foi um dia de temperaturas altíssimas, pelo que soube bem finalizar o dia com um par de concertos incríveis, cujo início ocorreu às 21:43 horas.

Glass Glass nasce do encontro entre Joana Brito e Tiago Sampaio, dois músicos conhecidos da nossa praça musical, especialmente mais a norte entre o Porto, Guimarães e Braga. Ambos são amigos há sensivelmente uma década. Joana é guitarrista e vocalista nos incríveis The Black Wizards, já o seu amigo Tiago é reconhecido pelo seu trabalho nos Grandfather’s House, banda que esteve ativa durante muitos anos num projeto partilhado com a sua irmã Rita. Ultimamente o músico tem-se debruçado entre vários projetos, sendo o mais expressivo aquele ele salienta sua veia eletrónica: St. James Park.

Tiago Sampaio do duo Glass Glass © foto de Gonçalo Fontes // @__goncalof__

Entrei no pátio com um quase total desconhecimento dos Glass Glass, sabia quem eram os seus intervenientes e mais nada… A esperançosa expetativa que tinha confirmou-se de maneira positiva. A experiência e o mergulho na sonoridade do duo revelou-se bastante deleitosa em que vi dois músicos a acarinharem duas guitarras e a aglomerarem os seus sons de forma simbiótica. Assisti a uma bela exploração das particularidades sonoras da guitarra em que os pedais deram uma dimensão extra. O público, grande parte sentou-se no chão empedrado, tendo acompanhado de feição extremamente atenta aos acordes do duo.

“Canção do Deserto” foi uma das músicas do disco de debute tocadas para uma bonita audiência na passada quinta. Um tema que faz parte de ‘Daydream Country Club’, um registo discográfico preparado e gravado em residência nas instalações do Convívio.

Joana Brito a olhar o público enquanto Tiago comunicava © foto de Rui Torres // @cadernetamusical_

Pela segunda vez vi Afonso Dorido com o seu projeto a solo Homem Em Catarse com uma nova roupagem em versão banda, a estreia também tinha assistido na Noite dos Reis da Bazuuca em janeiro deste ano. A reportagem pode ser lida aqui.

Nesta versão banda em formato trio Afonso contou com José Rios no baixo/guitarra (ele que faz parte dos Semivitae) e ainda de Carolina Gomes, uma jovem e talentosa baterista, igualmente também um pouco tímida conforme pude constatar neste concerto vimaranense.

Afonso Dorido com o seu projeto Homem Em Catarse © foto de Rui Torres // @cadernetamusical_

Quem já conhece ou viu Dorido ao vivo sabe utiliza sempre um boné. Desta vez tanto ele como os seus parceiros entraram todos com bonés iguais. Tudo uma questão de identidade visual. Um chapéu que faz parte atualmente do seu merchandising oficial e que tem a expressão “em catarse” impregnada no objeto.

Durante cerca de 45 minutos tocaram 8 temas, abriu a performance com “Hotel Saturnyo” e continuou com “O Tempo vem Atrás de Nós”. Logo aí percebeu-se a positividade superior da simplicidade dos arranjos e a beleza extra que as camadas proporcionadas pelos instrumentos adicionados proporcionam às canções. Essa beleza extra foi particularmente sentida em “Mergulho no Cávado” com uma belíssima versão a três.

José Rios no baixo e Carolina Gomes na bateria © foto de Rui Torres // @cadernetamusical_

Afonso relevou o seu carinho pela Cidade Berço tendo afirmado: “Estar em Guimarães é como estar em casa”. Efetivamente, ao longo dos anos, Guimarães tem acolhido o artista sempre de “braços abertos”.

“Eu Não Serei” foi um momento sonoro pacífico e introspetivo, um tema que o artista não costuma tocar ao vivo. Pelo meio o artista oriundo de Barcelos estreou duas novas composições, feitas com estes seus parceiros, no contexto de uma residência artística realizada precisamente no Convívio no passado mês de julho. As novas canções estão no “forno” e provavelmente teremos novidades em 2027 a nível de novo registo discográfico, pelo menos é isso que o músico tem na perspetiva.

Homem Em Catarse em formato trio com Carolina e José © foto de Rui Torres // @cadernetamusical_

Em “Hipoteca” o músico voltou a falar da gentrificação, fazendo o seu “grito” de atenção. Para o final ficou “Gueto da Paz”, um tema de união. Nesse espírito Afonso Dorido desceu, tocando fora do pequeno estrado e bem perto do público, de forma bem particular e tão expressiva como só ele consegue fazer. Mais uma atuação francamente bem conseguida e que dá esperanças que este Homem em Catarse com banda seja um formato com continuidade.

4 de setembro, sexta-feira

Sofia Reis apresentou-se em Guimarães pela primeira vez. Foi igualmente a ocasião que eu aproveitei para fazer a minha estreia num concerto dela. A lisboeta trouxe-nos o seu projeto apelidado de Capital da Bulgária, basta refletir um pouco e percebe-se de forma fácil este seu nome artístico… Apresentou-se em formato banda com elementos na guitarra, no sintetizador/baixo e na bateria.

Capital da Bulgária em estreia em Guimarães © foto de Rui Torres // @cadernetamusical_

A suave e cativante canção “VEM COMIGO” foi o tema de abertura. A letra versa “Vem comigo, preciso de um amigo” e o Suave Fest é também um pouco isso: amigos que vão juntos e que convivem durante os concertos com os copos pelo meio. Todos precisamos de amigos, ora pois.

A sua setlist esteve polvilhada de um duelo entre temas do mais recente EP ‘Pequeno-Almoço’, lançado no decurso deste 2026, e do álbum ‘contei e deixei que tu me julgasses’, editado em 2024. Em “sol”, tema que Sofia escreveu numa fase em que não encontrava o seu “sol” é um dos temas que destaco. “nao me apetece”  e “Lisboa” foram interpretadas num concerto que finalizou com “Onde Andas”.

Visão do palco durante Capital da Bulgária © foto de Gonçalo Fontes // @__goncalof__

Com uma sonoridade indie-pop-bed-dream este concerto de Capital da Bulgária revelou uma performance cuidada e bem trabalhada. Ao vivo é registo sonoro mais “açucarado” em tons de pop-rock, a versão disco tem uma estética mais Lo-fi e DIY. Em todo o caso agradou a alguns dos fãs que marcaram presença, logo neste concerto da abertura de sexta à noite houve muita gente a espreitar o palco instalado em frente do Convívio.

Luís Judícibus (guitarrista e vocalista), Hugo Luzio (baterista), Diogo Sá (guitarrista), Francisco Dias Pereira (teclista) e João Tomázio (baixista) são os cinco amigos de Sintra que formam os Them Flying Monkeys. Eles entraram em palco 4 minutos após as 23 horas e trouxeram, mais uma vez, o seu rock alternativo com veias de post-punk até à região de Guimarães. Repeti o seu concerto depois de os ter visto no passado mês de julho no Rock no Rio Febras em Briteiros.

Them Flying Monkeys no Largo da Misericórdia © foto de Gonçalo Nogueira // @da_gac

São já quase 10 anos com a banda a retornar a Guimarães. O vocalista Luís aproveitou para recordar a atuação no CAAA em 2017, algo que também o fizeram nas redes sociais tendo repetido uma foto com uma pose particular num local da bonita cidade minhota. Ele que cantou em cima das colunas logo na primeira música.

Com a energia e a mesma entrega de sempre houve até a oportunidade de uma espécie de “comboinho punk” instigado por Diogo Sá que deu um saltinho rapidinho à plateia durante um dos primeiros temas.

Luís, o vocalista dos Them Flying Monkeys © foto de Rui Torres // @cadernetamusical_

A ocasião áurea da atuação destes lusitanos foi quando Judícibus abriu alas e deambulou pela “passerelle” a cantar para a frente e para trás puxando pelas pessoas. A determinado momento parou e aninhou-se mesmo em frente ao posto da mesa de som/luzes. Algum do público alinhou na sua coreografia e foi um momento engraçado durante a interpretação de “Les Gens Sont Fous, Les Temps Sont Flous”.

“Pretty Sticks” e “Everybody Everything” são temas essenciais tendo surgido perto na fase final da performance.  A atuação do quinteto Them Flying Monkeys foi sólida durante os 51 minutos em que mostraram o seu repertório de forma bem competente e extremamente vigorosa.

Elementos dos Them Flying Monkeys sempre expressivos © foto de Rui Torres // @cadernetamusical_

Já bem depois da meia-noite, 45 minutos depois do término dos Them Flying Monkeys, entraram em palco os Expresso Transatlântico e foi o concerto com mais gente a assistir. Efetivamente existe bastante curiosidade neste projeto e toda essa curiosidade é particularmente justificada.

Nesta passada sexta-feira os Expresso Transatlântico fizeram a sua estreia em Guimarães e segundo os próprios foi “do caralho”. Os irmãos Sebastião e Gaspar Varela com Rafael Matos formam este tridente musical. Conquistaram o reconhecimento generalizado com ‘Ressaca Bailada’, o LP de estreia, editado em 2023.

Sebastião Varela, guitarrista dos Expresso Transatlântico © foto de Rui Torres // @cadernetamusical_

Repeti a experiência deles ao vivo pela quarta vez, a terceira em contexto de festival ao ar livre. A ocasião anterior ocorrera na Sala 2 da Casa da Música no passado mês de março cuja reportagem pode ser vista e lida aqui.

Na realidade, não foram só três em palco, a banda mostrou-se em formato quinteto, teve o apoio de Filipe Louro no baixo e José Cruz em vários instrumentos como a flauta, o teclado ou o trompete.

Gaspar Varela, mestre na guitarra portuguesa nos Expresso Transatlântico © foto de Rui Torres // @cadernetamusical_

O baterista Rafael exibiu uma precisão suíça, já Gaspar e Sebastião foram dinâmicos na zona central do palco. José esteve do lado esquerdo compenetrado perante a sua parafernália e já Filipe optou por ficar mais resguardado atrás do lado direito.

Os álbuns ‘Trópico Paranóia’ de 2026 e ‘Ressaca Bailada’ de 2023 foram abordados na medida certa com temas escolhidos à medida de uma setlist bem equilibrada. “Tigre da Serra” e “Bombália” foram dois dos temas interpretados com pompa e circunstância.

A sequência final com “Ressaca Bailada”, “Flor Trovão”, “Nikita Punk” e “Não Pares Povo” foi diabólica, efetivamente uma sequência épica à altura da intensa vibração que o público demonstrou. Mesmo numa noite quente, extremamente abafada como nunca dantes se tinha sentido, um fenómeno advindo das alterações climatéricas mesmo esquisito.

José dá apoio ao vivo e Rafael é o baterista dos Expresso Transtlântico © foto de Rui Torres // @cadernetamusical_

Estas novas faixas soam extremamente bem ao vivo e são a clara certeza que os Expresso Transatlântico estão a trilhar um caminho em crescendo de clareza musical com ritmo bem pulsante. Eles são uma banda jovial, com uma atitude irreverente e postura sonora sedutora. Merecem ser foco de atenção pois a sua discografia tem muita qualidade e ao vivo são soberbos. Um dos projetos mais sólidos e diferenciados do panorama musical nacional.

Texto:
–  Edgar Silva

Fotografia:
– Rui Torres @ cadernetamusical_ (Instagram)

– Gonçalo Nogueira @ da_gac (Instagram)
(fotos gentilmente cedidas pela fotógrafo oficial da banda)

– Gonçalo Fontes @ __goncalof__ (Instagram)
(fotos oficiais gentilmente cedidas pela organização)

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

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