
Ao terceiro dia quebrei a minha regra de abandonar o recinto às duas da manhã. Os culpados foram os Maruja cuja atuação estava prevista ter início a essa mesma hora. Valeu ter dormido bem na noite anterior e estar com os níveis de adrenalina em alta após uma jornada repleta de concertos simplesmente fabulosos.

Fisicamente tenho-me sentido bem e agora que chegamos a sábado dia 15 de agosto, último dia do Vodafone Paredes de Coura, sinto-me em condições para terminar a aventura de 2026 em grande estilo mesmo não tendo dormido fabulosamente. A vida de Rock & Roll é mesmo assim, é preciso ir buscar energia e força mental para desfrutar deste bom corrupio que é fazer o acompanhamento jornalístico do festival de uma forma mais leve e informal. Faço-o por gosto e com gosto. Enquanto assim for estarei sempre disponível para mais uma aventura.
Dia 3 – sexta-feira, 14 de agosto
Carolina Durante é um projecto existente desde 2017. A banda espanhola é composta por quatro amigos de Madrid: Diego Ibáñez (voz), Martín Vallhonrat (guitarra), Juan Pedrayes (bateria) e Mario del Valle (guitarra).
O single “Cayetano” (2018) tornou-se um fenómeno viral em Espanha e, desde então, têm progredido na sua carreira com muito sucesso.

A vinda a Portugal destes “nuestros hermanos” tem sido recorrente, este ano vieram ao Primavera Sound Porto e em dezembro de 2025 tocaram também no Hard Club do Porto.
Lisboa é igualmente ponto de passagem.
Tiveram o apoio de diversos músicos, inclusive em instrumentos de cordas tais como violino ou contrabaixo. Surgiram, por exemplo, em “San Juan”. Houve também trompete em ação. Uma gama extremamente completa, algo incomum numa banda de indie rock.

Muito quente mesmo, a tarde mais quente desde quarta-feira. Já em palco um cenário de escritório, bem curioso, com secretárias e computadores a fazerem lembrar os anos 80.
Os Carolina Durante destacam-se com muita evidência devido à sua pela energia adolescente e por letras diretas que falam sobre temas como ansiedades da juventude contemporânea.

‘Elige Tu Propria Aventura’, álbum editado em outubro de 2024, é o motivo pelo qual andam em digressão. Desde disco tocaram, por exemplo, “Verdes, Césped” e “Normal”, esta última na fase final do set.
A juventude preencheu o espaço entre o palco e a cabine de som: levantaram pó e curtiram imenso. Diego Ibáñez, o frontman, com a sua energia fez a sua parte para arrebatar a plateia.

Alexander Morgan Stephens veio a Coura para o arranque da sua tournée europeia. O seu nome artístico é Strawberry Guy e veio com apoio de quatro elementos: na bateria, baixo, guitarra e teclados. O artista além de cantar também tocou piano.
Lançada recentemente, “Guy Love Me Like You Used To”, foi tocada numa bonita interpretação. Logo de seguida mostrou a primeira canção que editou: “Without You”.

“Give me a dream”, a faixa que vai dar nome ao novo disco, surgiu naturalmente bem como outras que farão parte desta nova edição. Este lançamento vai ocorrer a lançamento ocorrerá a 23 de outubro de 2026.
Fica a nota relevante: em outubro, Strawberry Guy regressará para concertos a solo na Casa Capitão em Lisboa e no Mouco no Porto.
O escocês revelou gostar muito de Portugal. Alexander esteve mesmo bastante comunicativo. O seu bedroom dream pop fofinho soou reconfortante e surgiu na melhor altura do dia.

Sérgio Godinho compareceu com Os Assessores, a sua banda, composta por Nuno Rafael, Miguel Fevereiro, Nuno Espírito Santo, João Cardoso e Sérgio Nascimento.
Trouxe consigo também alguns amigos bem conhecidos. Participaram neste concerto A Garota Não, Ana Lua Caiano, Capicua, Manuela Azevedo, Milhanas e Samuel Úria.
Por ordem de entrada: Samuel Úria foi o primeiro a entrar em cena para “Maré Alta”. Manuela Azevedo colaborou em “Espetáculo”. Já a jovem Ana Lua Caiano deu uma ajudinha vocal nos poemas de Alexandre O’Neill. A dupla Milhanas e A Garota Não cantaram a “Balada da Rita”. Para Capicua ficou a colaboração em “O Elixir Da Eterna Juventude”.

Quase a completar 81 anos o artista lusitano foi brindado com casa cheia com a encosta bem bonita. Um ambiente inesquecível num concerto memorável para milhares e milhares. Um presente de aniversário antecipado, sem dúvida.
Alguns dos seus clássicos não faltaram como “Com um brilhozinho nos olhos”, “Liberdade” e “Primeiro Dia”, todos interpretados na fase final em ritmo apoteótico com o público a brindar o mítico artista português com a vénia que definitivamente merece.

Alguém na plateia empunhava pelos braços de forma bem visível e que foi captado pelas filmagens do concerto “Paz, pão habitação… Sérgio Godinho no coração”. Efetivamente Sérgio Godinho é património humano e da cultura portuguesa cuja obra deverá ser cantada e celebrada sempre que seja possível. Foi bonita o tributo do público português que até deu uns gritos de “Sérgio, Sérgio, Sérgio” de forma carinhosa e reverente.
Conforme já esperava foi um dos momentos marcantes da edição de 2026. No balanço final antevejo que será, provavelmente, mesmo um dos mais significativos.

Benjamin Clementine regressou ao Vodafone Paredes de Coura a seu pedido nove anos depois. As recordações desse concerto de 2017 continuam bem vincadas na memória do artista e de milhares que marcaram presença.
A entrada do artista em palco registou um atraso de 5 minutos, só aconteceu às 20:45h, e durante os primeiros 4 minutos aconteceu em simultâneo com o concerto que estava a acabar no palco secundário. Algo que foi raro e que não deveria ter acontecido, pelo menos 99% dos concertos não tiveram sobreposição.

Nesta fase está a atuar poucas vezes, foi mesmo de aproveitar. Mereceu atenção diferenciada pois é um artista muito acarinhado em Coura. “É incrível estar de volta. Obrigado Paredes de Coura” disse Benjamin. Recebeu no retorno carinho e reações efusivas. O público esteve a todo o tempo irrepreensível e participativo de forma inacreditável. António José Seguro, presidente da República Portuguesa, marcou presença tendo inclusive “apanhado” pelas câmaras.
Em “Delighted” o artista puxou pelo público e este correspondeu com coros afinadissímos. Já em “Adios” a magnífica voz de Clementine ecoou pelo recinto. O concerto seguia de “vento em popa” de forma natural e com muita magia.

Benjamin Clementine divide-se entre o jazz, a música clássica e o soul e tal ficou bem perceptível em alguns dos seus clássicos. Não faltaram no alinhamento “I Won’t Complain” ou “Condolence”, esta última foi mesmo um dos pontos áureos da sua performance.
Um mestre de cerimónia vestido a rigor, deu um show inacreditável, mais uma vez inesquecível. No final cumprimentou os fãs da primeira fila.

Terraplana é uma banda de shoegaze e indie rock oriunda de Curitiba no Brasil. Fizeram a estreia na Europa neste concerto em Coura. Stephani Heuczuk (voz e baixo), Vinícius Lourenço (voz e guitarra), Cassiano Kruchelski (voz e guitarra) e Wendeu Silverio (bateria) são os seus integrantes.
Com entrada em palco às 21:55h, os músicos ocuparam os seus lugares: Stephani no centro, já Vinícius e Cassiano ficaram um de cada lado. Atrás ficou Wendeu. Dividiram os créditos vocais tendo Heuczuk sido a mais proeminente.

Com guitarras densas em contraste com vozes suaves, o quarteto apresentou canções dos seus discos ‘Olhar Pra Trás’ (2023) e ‘Natural‘ (2025). Tocaram, por exemplo, “conversas” ou “charlie“, dois belos exemplos da discografia desta banda brasileira.
A belíssima “morro azul” foi a última interpretada num concerto em que pude experienciar pela primeira vez ao vivo os Terraplana. Valeu totalmente a pena. O seu som é um shoegaze misturado com um bocadinho de indie resultando num mix coeso e bem aprazível. Um sucesso esta apresentação lusitana.

Os contagiantes grooves de indie dançantes continuam a agitar as pessoas, mesmo após 26 anos de carreira dos Bloc Party. Para início de festa nada melhor que um tema fresquinho: “Coming On Strong”.
Este foi regresso a Coura 20 anos depois. Realmente passou demasiado tempo para o retorno destes britânicos ao Alto Minho. De certa forma eles são uma das bandas sonoras do Vodafone Paredes de Coura e do seu main sponsor pelo que só pecou por tardio o seu regresso. Antes tarde do que nunca e foi mesmo uma performance de altíssimo nível.

Durante todo este tempo a banda foi mudando de configuração. Kele Okereke, o vocalista, é a força motriz presente desde sempre e mostrou-se bastante satisfeito pela presença em Coura. Foi também imensamente comunicativo, relevou estarem a acabar um novo álbum: ‘Anatomy of a Brief Romance’ é o título já escolhido.
Russell Lissack (guitarra) acompanha Okereke desde o início do projeto em 1999. Desde 2015 têm a companhia de Louise Bartle na bateria e Justin Harris no baixo.

Alguns temas fundamentais deste projeto britânico foram tocados. Um desses casos foi o mega sucesso “Banquet” reconhecido facilmente em Portugal. Esta canção foi usada pela Vodafone para anúncios televisivos por diversas vezes inclusive para situações ligadas a este festival.
“I Still Remember”, “Hunting for Witches” ou “The Love Within”, foram outros temas interpretados numa atuação bem segura e pujante cuja energia foi inegável bem como aquele pezinho de dança maroto que se quis soltar espontaneamente.

A carreira da rapper britânico-cingalesa Mathangi Arulpragasam, conhecida artisticamente por M.I.A., tem já 20 anos de duração.
Antes da entrada em palco via-se no ecrã gigante a seguinte mensagem: “Aviso: a próxima artista é considerada extremamente ofensiva! Veja por sua conta e risco!” ao mesmo tempo escutava-se na instalação sonora “Cop Killer (Body Count)” dos Damage. Sinceramente este advertimento foi mesmo mais “fogo de vista” do que outra coisa qualquer…

Tem já 7 álbuns de estúdio e o mais recente ‘M.I.7’ é a razão para estar em Coura. Apesar disso foram temas mais antigos a fazer mais furor, tais como “Bucky Done Gun” ou “Double Bubble Trouble”.
Em “Galang” veio à grade cantar olhos nos nos olhos dos fãs. Já em “Born Free” fez uso de uma tocha num efeito visual brutal, se calhar um pouco irreverente demais. M.I.A teve o apoio de várias dançarinas num espetáculo extremamente visual, a nível multimédia e de jogo de luzes. Não teve o apoio de banda, o som foi colocado ao bom estilo de karaoke.

Notou-se a presença de fãs, sobretudo do sexo feminino, pelas suas indumentárias. No geral foi um público demasiado amorfo, a exceção foi mesmo a “linha da frente”. Este concerto teve batidas fortes mas de conteúdo musical escasso pese embora a boa performance vocal de M.I.A.. Vendo o cartaz não posso deixar de considerar, tendo em conta o histórico do festival, uma espécie de erro de casting.

Um ano depois os Maruja compareceram finalmente no Vodafone Paredes de Coura. No ano passado tiveram de cancelar à última hora. Este ano calharam no mesmo slot horário. o seu concerto teve inicio às 2 da manhã. Fiquei para vê-los e quebrei a minha regra. A curiosidade era demasiada depois do fantástico concerto que vi deles na Cidade Invicta no Mouco há poucos meses.
Os Maruja, oriundos de Manchester em Inglaterra, contam nas suas fileiras com Harry Wilkinson na guitarra e voz, Joseph Carroll no saxofone, Jacob Hayes na bateria e Matthew Buonaccorsi no baixo.

“Bloodsport” foi a faixa de abertura uma altura em que os “motores” dos fãs já estavam a aquecer a altas “rotações”. O crowdsurf foi intenso de forma permanente, a tempo inteiro. Nem a hora tão avançada fez quebrar os ânimos.
Em “Thunder” as alas abriram para Joseph e ele veio até à plateia sem pudores.. Já “Saoirse” foi o tema perfeito para serenar por momentos os ânimos. Os acordes de Carroll no seu saxofone marcam de forma indelével o traço de sensualidade no meio do restante da floresta sonora caótica dos Maruja. São essenciais para contrabalançar com o contraste mais obscuro e pesado do significado da maioria das letras.

O som é pujante e poderoso contendo influências claríssimas e bem diversificadas dentro dos sub-estilos do rock, do punk e do free jazz. “Look Down on Us” foi um ponto áureo mesmo quase no encerramento. O palco Coura sem Paredes teve um momento de pujança e festa punk à moda antiga. A estreia no festival dos Maruja foi mesmo fabulosa.
Reportagem fotográfica Completa: clicar aqui

Texto:
– Edgar Silva
Fotografia:
– Ana Lourenço @ blackphant.stage (Instagram)
