Enola Gay e Morn proporcionaram performances enérgicas e bombásticas

Fionn Murphy, o intrépido vocalista dos Enola Gay | mais fotos clicar aqui

A tarde deste último sábado, dia 10 de outubro, esteve excelente. Revelou-se soalheira com um gostinho outonal bem deleitoso. Daí ter sido uma excelente ideia ir visitar, na antecâmara dos showcases, a habitual exposição com elementos de pintura, de fotografia e vídeo de diversos autores. Esteve patente no edifício coberto ao lado dos Tanques da Fraterna.

Ambiente nos primeiros acordes da tarde | mais fotos clicar aqui

Já os três showcases, resultantes de uma escolha após a realização de um open call, foram o principal motivo para iniciar o meu habitual périplo pela longa jornada de Sonus Art Fest de sábado. Pelo segundo ano consecutivo aconteceu ao segundo dia de festival. Vale a pena relembrar que o festival inicialmente tinha somente um dia, tal aconteceu nas edições de 2022, 2023 e 2024.

A vertente dos showcases, para mim, é de presença obrigatória. Nos últimos anos tenho sempre encontrado bandas portuguesas talentosas prestes a subir de patamar de notoriedade. Esta parte do evento tem entrada gratuita e isso é mais uma particularidade a realçar e que deve servir de motivação para marcar presença.

Mariana Amaral e Matilde Roselló, um duo lisboeta | mais fotos clicar aqui

Bar Aberto é um duo formado por Mariana Amaral e Matilde Roselló no ano de 2022 em Lisboa. Ambas tocam guitarra e também cantam. Apresentaram-se num registo lo-fi em que a simplicidade das canções emerge de modo natural e bem simpático. Sem efeitos nem truques somente duas vozes sinceras e viscerais, às vezes a cantarem ao mesmo tempo. Já dos acordes das guitarras transpiraram uma ansiedade punk rock.

Fica o destaque “F9” e “A Seco”, temas do recém-editado EP homónimo, no passado mês de abril. Já no penúltimo tema interpretado, “L Grande”, a menina de óculos escuros tocou-o a solo. Duas jovens, em 2026, a fazerem música numa feição DIY é sinal que o mundo gira e que há ainda coisas boas a acontecerem. Com mais rodagem e outra maturidade musical acredito que podem dar-nos uma experiência ao vivo mais sólida e um repertório sólido com predicados porreiros.

A dupla Bar Aberto | mais fotos clicar aqui

Uncle Gueispar and the Oompa Loompas é um projeto bem sui generis nascido entre Guimarães e Braga, sendo composto por Gaspar Lopes (saxofone), Eduardo Ribeiro (baixo), Alexandre Ferreira (bateria) e Afonso Monteiro (guitarra). A tomar a dianteira esteve Gaspar com o seu saxofone.

‘Oompa Loomping All Around or The Quest of Overcoming’ é o título da estreia discográfica cuja gravação teve o apoio do programa ‘Trabalho da Casa’ da responsabilidade do gnration (Braga) em parceria com o Centro Cultural Vila Flor (Guimarães).

Gaspar Lopes no saxofone| mais fotos clicar aqui

Eduardo, Alexandre e Afonso estavam equipados a rigor com coletes refletores e capacetes das obras. Não, não, não tinham acabado de chegar de uma manifestação francesa, eles intitulam-se de “banda operária anti capitalista”.

A sua música instrumental tem uma imensa chama de um rock combativo em que os acordes do saxofone funcionam como som disruptivo no meio da malha urbana rockeira. Dizem que tocam Math Rock, não sou o maior fã de catalogar numa caixinha o estilo de cada banda. Gostei muito da atuação deste quarteto. Tiveram o pico da assistência no que diz respeito aos concertos vespertinos e deixaram indicadores muito favoráveis. Terminaram a atuação de 40 minutos com “Turno da noite”, faixa do seu EP de estreia ‘Oompa Loomping All Around or the Quest of Overcoming’. Vale a pena espreitar auditivamente.

Uma classe operária de músicos: os Uncle Gueispar and the Oompa Loompas | mais fotos clicar aqui

Belinda Rose são um quinteto tripartido na sua origem, de Portugal, do Brasil e dos EUA. O membro mais proeminente é João Simões (voz e guitarra), já o conheço de projetos como Hause Plants e Grand Sun. Outros membros são Michelle Martin (voz e sintetizador), Margarida Quesada (guitarra), Arthur Melo (baixo) e João Ribeiro (bateria).

A faixa “yesternight”, single de avanço editado a 14 de outubro, teve uma antestreia bem gira. Foi o terceiro tema que tocaram. Outro dos temas que soou muito fixe foi “Azul”. O álbum de estreia ‘Turn To Clear Vision’ foi tocado em Guimarães pela primeira vez. Um trabalho que se balança entre uma dose doseada a gosto de shoegaze e uma vincada pitada de post-punk. Agora é aguardar para ouvir na versão de disco e creio que valerá a pena a audição.

Quinteto Belinda Rose na estreia em Guimarães | mais fotos clicar aqui

Fica o realce final para o desempenho vocal de Simões e Martin. Ambos dão corpo aos temas com as suas vozes de modo bem gracioso e harmonioso. Já Quesada, Melo e Ribeiro complementam a banda num jeito bem estiloso e competente. Para quem ficou curioso fica a dica: eles estão em tournée e vão regressar a Guimarães no próximo dia 27 de novembro. Será um concerto a realizar no CAAA.

Michelle, Margarida e Arthur dos Belinda Rose | mais fotos clicar aqui

Leonor Arnaut estreou-se com o seu primeiro single no final de 2025. Conheci a sua voz quando a vi ao vivo como vocalista dos Fumo Ninja, projeto muito giro da música nacional. Por isso a minha curiosidade sobre a sua carreira a solo é imenso. Efetivamente foi um dos pontos de interesse nesta segunda jornada do Sonus Art Fest.

A artista lusitana apresentou-se em formato duo com a companhia de Bruna de Moura, uma violoncelista bem compenetrada tendo feito um par incrível com Leonor. Entraram em palco às 21:40h, já com uma assinalável presença de público.

Leonor Arnaut e Bruna no violoncelo | mais fotos clicar aqui

Por entre imensos efeitos nos instrumentos e na voz obtivemos uma experiência etérea que exercitou ao máximo os meus sentidos. Apenas com duas canções editadas, referências muito boas, a expetativa era algo elevada. “Avé, Raposa” teve uma interpretação algo diferente da versão gravada, soou na mesma de modo muito bonito devido à voz de Arnaut. Para fecho de 40 minutos de performance tivemos “Vida Cega”, um encerramento com nota elevada.

Esta foi a atuação mais diferenciada da noite, foi o oposto do resto dos vários géneros e subgéneros de “rockalhada” ou “punkalhada” que tivemos nos três projetos seguintes.

Leonor Arnaut na abertura da 2ª noite | mais fotos clicar aqui

MLEKO é um projeto proveniente de Manchester em Inglaterra. São sete os elementos que fazem parte: Ed Whirledge (voz/guitarra), Rory Baker (guitarra), Tom Houston (saxofone), Charlotte Nuta (trompete/teclado), Myron Endean (baixo), Ioan Saul (bateria) e Bruno Evans (guitarra).

A visita a Guimarães foi estreia deles fora no estrangeiro. A primeira vez de sempre fora do Reino Unido, pela boa disposição e pelo bom tempo que passaram em Portugal, com toda a certeza, terá sido uma experiência inolvidável. Os abraços que deram entre si no final do concerto terá sido o sinal derradeiro de tal.

Em destaque Ed Whirledge e os MLEKO | mais fotos clicar aqui

Todos os sete elementos conseguiram estar relativamente bem no cenário, o palco não era dos maiores, contudo geriram bem a situação. Seis elementos ficaram orientados na horizontal na parte frontal e atrás ficou apenas, como evidente, o baterista Ioan Saul.

Para mim foi igualmente uma estreia total e apreciei bastante o seu repertório. O seu ‘Gub Rock’, assim apelidam o seu estilo musical, é uma miscelânea refrescante e inédita que busca inspirações múltiplas no folk, no art rock e no post-punk.

Esta formação teve uma presença bem consistente durante os 36 minutos que tiveram em palco. Destaques finais de MLEKO: para o visceral desempenho vocal de Ed Whirledge e para o empenho focadíssimo de Charlotte Nuta obrigada a constantes trocas de instrumentos.

Em destaque Charlotte Nuta e os MLEKO | mais fotos clicar aqui

Oriundos de Abergavenny no sul do Pais de Gales os Morn são compostos por dois pares de irmãos: Oliver Riba (vocalista e guitarrista), Robert Riba (guitarrista e segunda voz), Mae Ryder (baixo e segunda voz) e Noah Ryder (baterista). O seu post-punk é alicerçado em riffs de guitarra estridentes e vozes acirradas.

Ainda não há muita música disponível online, por exemplo, no Spotify só podemos encontrar a edição de três singles. “The Standard Model” e “Modern Man” foram por isso naturalmente interpretadas e são dois fabulosos exemplos da valia destes galeses. O concerto beneficiou de um trabalho muito bom realizado por Igor Gonçalves, o técnico de luzes de serviço.

Em destaque Robert Riba e os Morn | mais fotos clicar aqui

Realces finais sobre os Morn: Muitas vez não notamos neles mais ao pormenor… O desempenho fabuloso de Noah Ryder, um baterista realmente intrépido. “I have been found and lost before” cantava Oliver Riba num dos fantásticos temas e a sua voz ressoava mesmo penetrante, desempenho vocal deveras assinalável a todos os títulos. Agora que ouvi “Anything”, “Anthem” e “Planino” ao vivo, anseio por ouvir a versão de estúdio com bastante expetativa.

O post-punk hipnótico dos Morn encheu-me as medidas e irei associa-los, em memórias futuras, a um dos meus concertos preferidos desta quinta edição do Sonus Art Fest. Efetivamente entraram no meu “radar musical”.

Irmãos Riba em destaque | mais fotos clicar aqui

Enola Gay é o nome do bombardeiro B-29 dos Estados Unidos da América que lançou a primeira bomba atómica sobre Hiroshima a 6 de agosto de 1945. Esta é também a denominação da explosiva banda irlandesa de Belfast que fez a sua estreia em Guimarães no Sonus Art Fest. Um regresso ao norte do país depois da performance no Sonicblast em 2024.

O vocalista é Fionn Reilly, o guitarrista é Joe McVeigh, o baixista é Adam Cooper e o baterista é Luke Beirne e o seu noise punk é mesmo incrível. Quem já os recomendou foi (nada mais, nada menos) que Iggy Pop. Quem também os apadrinhou foram os Idles, fizeram vários concertos de abertura para os britânicos.

Joe dos Enola Gay | mais fotos clicar aqui

Efetivamente tivemos um concertão memorável por muitos motivos. Primeiro o “bombardeiro” encalhou durante 10 minutos. A interrupção no concerto, logo no início, deveu-se a problemas entre a pedaleira e o baixo de Adam Cooper. A verdade é que o concerto teve um maior impacto devido a esta entrada em falso.

O público não desmobilizou, entreteve-se com cânticos a variadas e aleatórias músicas desde Geese a clássicos pop do imaginário lusitano. Esta vitalidade dos fãs transmitiu uma energia positiva aos Enola Gay. A banda sentiu-se um bocadinho “picada” e resolvidos os problemas simplesmente arrasou.

Fionn e Adam dos Enola Gay | mais fotos clicar aqui

Fionn, vestia uma camisa completamente abotoada e demonstrava uns ares de nerd em que despontava uma bigodaça imponente. Ele simplesmente revelou-se um figurão, daqueles de encher todas as medidas. Logo por entre “Stakes”, “PTS.DUP” e “Naked Names”, as primeiras faixas que tocaram, houve o pedido de Reilly para o pessoal dançar e poucos se fizeram rogados. A roda-viva ficou instalada e mais não parou até final.

As linhas do baixo reverberado soavam perfeitamente alucinantes. Já a voz irascível e ao mesmo tempo irresistível do vocalista entranhavam-se em nós. Vocalizações num cruzamento de rap com hip hop à Belfast way.

Luke e Joe dos Enola Gay | mais fotos clicar aqui

“Cortana” e “Cold” também não faltaram no alinhamento da performance mais animada, realmente o Sonus Art Fest encerrou de maneira tão bonita. O público deu tudo o que tinha em que o crowdsurf foi tão natural como a nossa sede. A conta no bar ficou, certamente, acima do que muitos esperavam.

A sonoridade dos Enola Gay é combativa traduzida por guitarras distorcidas e letras vigorosas devido ao cariz político e social, ambos bem salientes. O jogo de luzes à velocidade da luz, em que o verde foi cor predominante, fez jus à intensidade da música. Já o número de pessoas a ver o concerto foi o maior de toda a noite.

Em palco os Enola Gay | mais fotos clicar aqui

Para fecho de reportagens e como conclusão referir algumas notas:
– este ano os dois dias revelaram-se um bom encaixe para o festival. Se tive dúvidas com a experiência do ano passado, creio que este ano ficaram dissipadas.

– sobre os showcases: este ano correram melhor em temos de tempo de atuações e na transição entre sets. Continuo a achar que 30 minutos é o tempo ideal, mais do que isso torna-se longo e depois a pausa para jantar fica mais diminuída. Estes concertos têm de ter mais relevância no cartaz e no destaque geral. Este ano houve bastante público e a tarde foi mais bonita e simpática devido a isso.

O Sonus Art Fest está em plena evolução. A organização está bem profissional, tem melhorado de ano para ano. Já há fãs do evento e a vinda propositada de público do Porto e de outras cidades é uma fácil constatação disso mesmo. Para mim começa a ser mesmo imprescindível marcar presença.

Reportagem fotográfica Completa:  clicar aqui

Fionn Murphy, o intrépido vocalista dos Enola Gay | mais fotos clicar aqui

Texto:
–  Edgar Silva

Fotografia:
– Maria Vilaça @ mgvertex_ (Instagram)

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

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