
Em noites quentes e agradáveis de verão, pese embora os dias atuais sejam de um calor sem precedentes, é com uma satisfação enorme que regressei aos jardins do Museu de Alberto Sampaio em Guimarães. Há um ano atrás a Covid19 dava algumas tréguas e seguindo as regras governamentais o Festival L’Agosto realizou-se tendo, portanto, tido apenas a interrupção em 2020.
Nessa edição de 2021 a lotação foi bastante limitada e o público teve de respeitar em ficar num lugar sentado. Agora em 2022, já com a pandemia numa fase totalmente diferente, o evento vimaranense regressou ao seu formato habitual e sem condicionantes.
Este cartaz revelou-se bastante ecléctico, direi eu até demais, face aos diferentes géneros musicais presentes e aos artistas que marcaram presença em cada dia. Creio que fazia mais sentido um maior equilíbrio diário nesse sentido.
4 de agosto, quinta-feira – Dia 1
Na quinta-feira, dia 4 de agosto, Angélica Salvi foi a primeira a apresentar-se à frente da gigante lagosta, o símbolo do festival. A espanhola, nascida em Salamanca e radicada em Portugal já há muito tempo, regressou ao museu depois da performance integrada no Westway LAB deste ano. Uma atuação que tive o gosto de ter assistido. Na altura atuou numa das salas e perante uma audiência bem mais reduzida.

Angélica Salvi durante a atuação de abertura
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Com mais gente a ver o seu concerto, a maioria das pessoas presentes desde o início fez questão de ficarem sentadas a usufruir do espaço verde intra muralhas, prestando a devida atenção à atuação. Por toda esta conjuntura, o impacto deste concerto de Angélica Salvi, agora ao ar livre, foi diferente. Desta vez não foi tão intimista, ainda assim, foi bastante agradável e relaxante.
A harpista apresentou os seus temas a solo com a sua harpa e a sua parafernália eletrónica. ‘Phantone’ é o título do seu álbum de debute, editado pela Lovers & Lollypops teve uma bonita apresentação. O som da harpa é a sua base natural, com a ajuda da bits eleva a sua música a um patamar electroacústico com traços de experimentalismo. Está aí a diferenciação da sua música.
Roberto Caetano (voz), Telmo Soares (guitarra e voz), Rui Gaspar (baixo e voz), Pedro Marques (bateria e voz) e João Marques (teclas) são os elementos que compõem os First Breath After Coma e são, sem margem para a mínima dúvida, uma das minhas bandas portuguesas favoritas. Já os acompanho há bastante tempo, talvez uns 6 anos, provavelmente até serão mais e já os vi ao vivo quase uma dezena de vezes. Só este ano são já duas, antes desta em Guimarães, já os tinha visto em Freamunde no Walk & Dance. São daquelas bandas que não me cansam de vê-las ao vivo. Todos temos pelo menos uma nas nossas preferências, certo?

First Breath After Coma no momento mais significativo do 1º dia [mais fotos clicar aqui]
Este concerto do L’Agosto foi o mais concorrido da noite, a banda leiriense já tem bastantes seguidores um pouco de norte a sul de Portugal. Os jardins estavam muito bem compostos, com as pessoas já à espera da banda e foi pelas 23:15 horas que os 5 músicos lusitanos deram entrada em palco.
A discografia dos First Breath After Coma foi cuidadosamente salpicada com temas retirados ‘The Misadventures Of Anthony Knivet’ de 2013, ‘Drifter’ de 2016 e ‘NU’ de 2019.
“The Upsetters”, “Howling for a Change”, “Change” e “Please Don’t Leave” foram as primeiras 4 tocadas numa setlist sem habitual até então. Foi por essa altura que Roberto Caetano anunciou que iam tocar duas músicas que já não tocavam ao vivo há muito tempo. Presentearam o público com “Apnea” e “Escape” ambas do disco de estreia editado em 2013.

First Breath After Coma, os rapazes de Leiria em palco [mais fotos clicar aqui]
O público ia cantando, até mesmo “bebendo” as letras das canções, deixando ao mesmo tempo os seus corpos cambaleavam ao ritmo das músicas. “Tierra Del Fuego: La Mar”, “Salty Eyes”, “Heavy” e “Feathers & Wax” foram apresentadas até à saída de palco. Num merecido e requisitado encore a banda encerrou uma bonita hora de concerto com “Blup”.
Não foi a primeira vez que os First Breath After Coma tocaram em Guimarães e tenho a certeza que não terá sido a última. Estes 5 rapazes de Leiria serão sempre bem recebidos.
Christian Löffler encerrou a primeira noite inaugurando a pista de dança cerca de 30 minutos depois da meia noite. O recinto ficou um pouco menos composto, estávamos de quinta para sexta-feira, nem toda a gente estava de férias. Ainda assim, um bom número de pessoas seguia resistente, bem disposta e alegre curtindo uma bonita noite vimaranense. O produtor alemão estreou-se em Guimarães num DJ set e teve uma estreia auspiciosa. Ele virá a Portugal mais adiante no ano para uma atuação diferente, no qual será acompanhado por um quarteto de cordas.

O alemão
Christian Löffler duante o seu set
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O dia teve lotação esgotada e houve público que esteve presente especificamente para assistir ao concerto dos First Breath After Coma.
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– 5 de agosto, sexta-feira – Dia 2
Na noite de sexta-feira, 5 de agosto, tivemos a segunda jornada do festival. Chouk Bwa formação oriunda da República do Haiti teve a companhia do duo belga duo The Ångströmers composto por Frédéric Alstad e Nicolas Esterle. Ao todo tiveram em palco 8 artistas. Aos 6 elementos haitianos coube produzir o som Mizik Rasin um estilo musical originário daquele país caribenho assente na percussão e na voz. Aos artistas belgas coube a manipulação de sintetizadores modulares e outros instrumentos eletrónicos. Trata-se de uma joint venture bem peculiar.

Chouk Bwa & The Ångströmers em estreia em Guimarães
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Um a um foram entrando em palco começando de forma divertida a atuação. Foi um cheirinho a world music naquela que foi a performance mais diferenciada do evento. Tiveram uma atuação peculiar, a qual incluiu uma saída de palco em falso…
A tradicional jarda proporcionada pelos Conjunto Corona começou cerca de 30 minutos depois da hora prevista. A atuação anterior já tinha começado atrasada, não foi tão concorrida, à hora que devia ter começado o recinto estava com pouca gente.
Ao duo dB e Logos juntou-se o Homem do Robe, uma espécie de acompanhante de luxo, isto dito com o maior respeito. Já os tinha visto em Guimarães, no Suave Fest há 4 anos, portanto não foi uma surpresa a tradicional jarda que proporcionaram aos que marcaram presença. Relativamente a esse concerto de 2019 o público esteve com uma atitude bem mais sossegada inicialmente, pelo menos, até cerca de meio da performance.

dB e Logos e Homem do Robe, o trio Conjunto Corona [mais fotos clicar aqui]
“187 no Bloco”, um dos hinos do duo, foi apresentada por duas vezes: no início e no fim do set. A segunda passagem foi bem mais poderosa na qual David Bruno veio para o meio do público num final em êxtase. Nesse momento de encore também interpretaram “Onde aparra a polícia”.
Por entre as dedicatórias do costume, incluiu uma a Mário Ferreira, usando um vernáculo muito impróprio. Eles que têm tanto de impróprio, como de divertidos e extremamente irreverentes. Têm uma imagem de marca muito própria.
A farra foi feita também com a presença em palco da malta de Barcelos: de Leonel Miranda dos Doutor Assério, de Tiago Martins dos Gator The Alligator ou de Marquito, guitarrista que acompanha David Bruno na sua carreira a solo.
“Santa Rita Lifestyle” foi um dos temas mais celebrados e não faltaram à chamada “Eu Não Bebo Coca Cola Eu Snifo”, “Pacotes” ou “Sempre a Riffar” mesmo com alguns problemas técnicos à mistura… Conjunto Corona é sinónimo de desbunda e festa e foi isso mesmo o que aconteceu.

Bruno Cardoso encerrou a noite com o seu DJ set como Xinobi e animou as hostes até às 2 da manhã.
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– 6 de agosto, sábado – Dia 3
A abertura do último dia do L’Agosto esteve a cargo dos Bizarra Locomotiva e assim que cheguei ao recinto percebi que iam ter uma recepção forte. Eles existem desde 1993 e são precursores do Metal Industrial / Electrónico e já têm uma base de seguidores fiéis. Do início ao fim o concerto deste quarteto foi intenso e assim vivido por quem conhece mais particularmente a banda. Rui Sidónio, o vocalista, é a força motriz e uma espécie de “fogo vivo” pois a sua expressividade vocal aliada à sua (boa) inquietude em palco fazem com que o público se sinta ligado ao espetáculo desde o primeiro momento.
“Na Febre de Ícaro” e “Gatos do Asfalto” foram os temas de abertura. “Mortuário”, “Na Ferida Um Verme” e “Foges-me Em Chamas” foram outras tocadas num concerto que foi em crescendo e no qual o vocalista fez questão de vir até meio do público para uma forte interação. Ele fez questão de atuar em tronco nu. “O Anjo Exilado” e “O Escaravelho” foram as últimas duas da setlist.

Bizarra Locomotiva durante uma bela performance [mais fotos clicar aqui]
O concerto dos ZEN acabou por ser um privilégio para quem o assistiu. ‘The Privilege of Making the Wrong’, o primeiro álbum, foi re-editado em 2018 e no ano seguinte a banda portuense reapareceu ao vivo depois de muitos anos inativos.
Gon, na voz, é um tipo castiço e tem em palco uma irreverência insolente à moda do Porto. Utiliza um vernáculo provocador e altamente importuno, o que vale é que o pessoal leva-o para o lado divertido. Não o levando a sério, como assim tem de ser, pois faz parte da persona em palco. O quarteto conta igualmente com Miguel Barros (baixo), André Hollanda (bateria) e Miguel Azevedo (guitarra) e eles assinaram o momento mais incrível do festival em 2022.
Apesar de uma certa aparente dificuldade, coisas que o povo em linguagem de rua apelida de “PDI”, Gon esteve sempre enérgico e nem se furtou a fazer moche. Os fãs puxaram sempre por ele e o vocalista não perdeu a sua faceta irreverente durante a performance.

A irreverência de Gon durante a performance dos ZEN [mais fotos clicar aqui]
“Not Gonna Give Up” foi o primeiro momento com uma energia extra num concerto em que não faltaram temas como o mítico U.N.L.O. (The Urgency Of The Need Lingers On) ou outros como “Mutant”, “11 A.M.” ou de “True Funk” (a primeira interpretada).
Álvaro Costa e Miguel Quintão, personalidades incontornáveis da Antena 3 encerraram o festival com o DJ set de Bons Rapazes, nome do programa emitido naquela rádio pública.

Álvaro Costa e Miguel Quintão, a dupla Bons Rapazes [mais fotos clicar aqui]
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O L’Agosto teve noites esgotadas e foi um sucesso. Estive nas últimas 4 edições e posso afirmar que em 2022 aconteceu, de longe, a mais concorrida. Decorreu nos dias coincidentes aos das Festas Gualterianas, evento que levou milhares de pessoas às ruas da cidade de Guimarães e, apesar de muitos outros acontecimentos, não ofuscou a realização deste festival de música alternativa.
Posso dizer que pela experiência que tenho, o evento está já consolidado na cidade e no panorama musical. Resta referir que o festival é organizado em parceria pela Elephante MUSIK e Estúdio Lobo Mau em colaboração com a Câmara Municipal de Guimarães.

Texto:
Edgar Silva
Fotografia:
Jorge Nicolau
