Humana Taranja e PVA: refrescante juventude a dar cartas – destaques de sábado

Ella Harris, a vocalista dos PVA | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

Como habitualmente neste evento ficou reservado para o último dia a tournée por diversos espaços na cidade, neste passado sábado, 11 de abril. Felizmente consegui manter esta tradução viva e que gosto tanto, fiquei com um bocadinho de tristeza por não ter podido ir aos showcases das residências artistas, por outro lado fazer o périplo pelos ‘City Showcases’ pela cidade ao sábado à tarde dá-me um gozo especial.

Esta programação apelidada de ‘City Showcases’ ou Concertos na Cidade (dito em português) levou concertos ao Convívio, ao Ramada 1930 e também ao CAAA. Todos estes locais recebem frequentemente atividades culturais e locais já com longo histórico de participação no Westway.

Sábado, 11 de abril

Este ano a programação dos ‘City Showcases’ foi repartida pelos três espaços já citados com duas atuações seguidas em cada um deles. Regulei-me pelo meu maior interesse pessoal e foquei-me nos projetos lusitanos.

Iniciei o meu périplo pelo Convívio para a performance de Tiago Sampaio & Cody XV cujo início aconteceu pouco depois das 15h O duo revelou o seu repertório de exploração dos possíveis caminhos eletrónicos a partir dos acordes da guitarra e do teclado. O resultado é uma mescla bem relaxante e introspetiva, uma onda experimentalista entre sons eletrónicos dinamizados pelo sintetizador de Cody XV e a guitarra, hipérbole cheia de efeitos, executada por Tiago Sampaio. Este músico, conhecido pelos projetos St. James Park e Grandfather’s House utilizou um arco por diversas vezes para extrair determinados efeitos sonoros da guitarra.

O duo Tiago Sampaio & Cody XV | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

Efetivamente foram sons etéreos e atmosféricos de belo efeito a ressoarem pelo bonito espaço do Convívio onde várias dezenas de pessoas, fazendo uso das cadeiras disponíveis, puderam usufruir do momento mesmo pertinho dos artistas. Uma maré sonora refrescante que contou com um público em modo atento, curioso e interessado. Tal como já tinha vivenciado na Noite dos Reis da Bazuuca em janeiro deste ano.

O concerto seguinte foi proporcionado, no mesmo espaço, pelos Hate Moss. Não tinha previsto ficar para a atuação deste duo ítalo-brasileiro contudo fiquei intrigado e fiquei uns minutos para perceber o seu som. Ian tocava bateria, já Tina ocupava-se do sintetizador e também cantava. Naqueles 15 minutos que lá estive fiquei agradado com o seu eletro-punk.

O duo Hate Moss | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

Segui rumo ao Ramada já sabendo que Guilherme Correia tinha vindo a solo. Gosto muito de Hause Plants em formato banda e num registo mais indie. Com o novo single “Do It Like This” parece que o projeto vai tomar uma nova roupagem, mais eletrónico e dançante. Gui fez-se acompanhar pela “caixinha de sons”, do teclado e, naturalmente, fez uso da sua voz. Em cerca de 30 minutos deixou claros indícios: mais eletro-dançante e muito menos indie.

Fiz a estreia da minha t-shirt dos Humana Taranja relativa ao álbum ‘Eudaemonia’, finalmente ao fim de uns meses depois de a ter adquirido. Foi a quarta vez que os vi ao vivo, a segunda em Guimarães.

Vindos da margem sul, mais especificamente do Barreiro, os Humana Taranja marcaram presença novamente em Guimarães poucos meses depois de terem tocado no Sonus Art, em outubro de 2025. Eles são o Guilherme Firmino (guitarra e voz), o David Yala (guitarra), a Filipa da Silva Pina (teclado e voz), a Marta Inverno (baixo e coros) e o Afonso Ferreira na bateria.

Do Barreiro até Guimarães, eis os Humana Taranja | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

Começaram com “Longe”, depois tocaram “DIGO TUDO” e prosseguiram com “BANHO QUENTE”. No Mavy em Braga, Guilherme já tinha dado a indicação que estão em processo de fazerem novas músicas. Nessa altura em fevereiro não tocaram nenhuma novidade, agora em Guimarães já fizeram a estreia de um tema fresquinho.

Desta vez tiveram um palco mais alargado o que permitiu-lhes a uma atuação mais descontraída. O quinteto esteve bem-disposto, especialmente sorridente esteve Marta, os outros elementos também estavam relaxados e ao mesmo tempo concentrados nesta atuação. Num ritmo gostoso de matiné tiveram bastante gente a espreitar a sua atuação.

Humana Taranja em palco | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

Tal como no referido concerto bracarense terminaram com uma tríade de luxo: “GUERRA”, “DEIXA ARDER” e por fim “PODEM ENTRAR”. Os Humana Taranja são uma banda emergente com selo garantido de qualidade. Sem margem para dúvidas.

Tal como na noite transata o debute teve lugar no auditório do Teatro Jordão. A responsável pela abertura da jornada noturna foi XEXA. A artista lisboeta, radicada em Londres, fez a sua atuação a solo equipada com a sua parafernália eletrónica munida também pela sua voz. Uma atuação acompanhada pela projeção, atrás de si, de uma animação com as letras XEXA em mutação de estilo e de cores.

Uma performance deveras invulgar extremamente absorvente e sonoramente introspetiva. “Txê”, “Quem És Tu” e “Libelula” foram algumas das suas composições apresentadas em que a profundidade do seu experimentalismo foi mais sentida. A passagem sonora mais mexida foi “Ondas”, precisamente a última do set que teve duração aproximada de 45 minutos. Ficou demonstrado que é uma artista com um repertório de assinatura pessoal bem vincado.

XEXA em palco | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

O momento menos positivo de todo o Westway LIVE aconteceu no concerto seguinte na Nave do Teatro Jordão. Lá tocaram os bracarenses Travo, uma das formações nacionais na moda com a reputação em alta quer a nível nacional quer a nível interna nacional.

O quarteto composto por Gonçalo Ferreira (voz e guitarra), Gonçalo Carneiro, (guitarra e sintetizadores), David Ferreira (baixo) e Nuno Gonçalves (bateria) foram igual a si mesmos e “deram o litro” como é-lhes seu apanágio. O que não esteve ao mesmo nível foi o local. O espaço não é, de longe, o mais apropriado para um concerto dos Travo devido à falta de uma acústica apropriada à sua “jarda” musical. Quem programou o concerto deles para este espaço deveria ser despedido por justa causa, é no mínimo total falta de conhecimento. O concerto deveria ter sido na Box do Centro Cultural Vila Flor como concerto de encerramento. Aí teríamos tido uma experiência apropriada e otimizada.

Para quem aguentou historicamente estoicamente assistir a todo o concerto dentro da sala viu um jogo de luzes extremamente psicadélico a condizer na perfeição com as “cores” musicais dos Travo.

Gonçalo Ferreira, vocalista e guitarrista dos Travo | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

O último concerto na Nave do Teatro Jordão neste Westway LIVE 2026 foi proporcionado pelos Ditter. Este trio francês composto por Rosa (vocalista), por Samuele François proporcionaram um concerto bastante dançável em que o público entrou descontraidamente na sua onda.

Samuel e François ocuparam-se de diversos instrumentos: do baixo, da guitarra, da componente eletrónica e do sintetizador. Já Rosa foi o dínamo da atuação e à sua voz foram acrescentados efeitos de reverb o que deram um tom mais expressivo ao seu “pop combativo ” misturado com trechos de indie e punk. A sua estreia em Portugal foi positiva.

Trio francês Ditter | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

Nos momentos prévios à atuação dos PVA, a instalação sonora dava-me a conhecer músicas bem fixes, uma delas ficou a ecoar na minha mente “My Drummer’s Girlfriend” dos ALT BLK ERA. Mais uma ocasião em que a “música ambiente” ajuda a entrar na disposição certa para o que aí vem. Este foi o caso.

Passavam apenas 4 minutos depois da meia-noite quando os PVA, um trio vindo do sul de Londres, compareceu em palco. Ella Harris é a vocalista e também fez uso do teclado, Josh Baxter ocupou-se dos sintetizadores e parte eletrónica e Louis Satchell é o baterista. A estreia deles em Portugal aconteceu em Paredes de Coura no Courage Club realizado em 2021.

Agora em 2026 regressaram para um concerto na Box do Centro Cultural Vila Flor e, indiscutível a meu ver, realizaram a performance mais revelante da noite. Bom número de espetadores a revelar que eles eram uma das grandes curiosidades de todo o festival.

Trio PVA no principal palco do evento | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

Depois de “Boyface” e “Peel” a vocalista Ella já estava com o aquecimento devidamente feito e demonstrava-se livre e empenhada. Estávamos no terceiro tema, “Hero Man”, e o tom para o restante da atuação devidamente estabelecido.

Em “Mate” a energia esteve num nível incrível e o público já estava contagiado pelo som trip hop eletro com pepitas indie altamente dançável. O álbum ‘No More Like This’ é o mais recente da discografia dos PVA, editado em janeiro deste ano, continuou a ser mostrado com outros temas, como por exemplo, “Enough”, “Send” e “Moon”.

Uma performance bastante cativante proporcionada por este jovem trio inglês a comprovar a atenção que têm tido nos últimos meses. Esse destaque é comprovadamente merecido. O concerto deles revelou-se bastante generoso, durou quase uma hora, sendo que a média dos sets esteve nos 45 minutos.  Eles terminaram com “Okay”, outra das faixas mais recentes. Eles ganharam novos fãs e consolidaram o gosto de outros que vieram a Guimarães de propósito.

Ella Harris, a vocalista dos PVA | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

A última atuação do Westway LIVE, foi tão portentosa quanto rápida, coube aos GANS. Na sua estreia em Portugal o duo britânico foi explosivo com o seu post-punk de intensidade comparável à velocidade de um TGV… Nem mesmo os problemas técnicos resolvidos pela intervenção do roadie, merecedor de um sentido abraço por parte do baixista, foi motivo para refrearem ânimos.

Tanto Euan Woodman (bateria) e Tom Rhodes (baixista/eletrónica) fizeram também uso das duas vozes e demonstraram toda a sua irreverência. Inclusive o baterista aventurou-se também descer do palco e “agitar as águas” numa altura em que o público era um pouco menos em relação ao concerto anterior. Foi uma performance elétrica e enérgica, tendo deixado um “gostinho doce”. Talvez noutra ocasião possam regressar a Portugal e confirmar estas credenciais, de uma das bandas mais excitantes do Reino Unido, com uma atuação mais prolongada.

Dupla britânica GANS | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

Esta edição do Westway LIVE, mais uma vez, proporcionou boas descobertas musicais sendo essa a sua mais-valia. Efetivamente, de ano para ano, esse alto nível de qualidade é mantido. Como já referi neste segundo artigo nem tudo pautou-se a 100% contudo no cômputo geral o evento merece uma nota bastante positiva. Foi este ano que a identidade visual mudou, surgiu um logotipo refrescante e futurista. Oxalá seja também o pronúncio que o Westway continue a trilhar um caminho seguro e ao mesmo tempo ousado. Sempre focado em ser um festival que marque pela diferença e destemido pelas suas escolhas programáticas.

Texto:
– Edgar Silva

Fotografia:
– Paulo Pacheco – AOficina // fotos oficiais Westway LIVE

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

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