
Nos grupos de amigos alargados, é raro encontrar um consenso que una todos em torno das mesmas melodias. No meu, não é exceção. Há quem se encante com o Vodafone Paredes de Coura e Primavera Sound Porto, e quem se perca nos horizontes do Waking Life ou do Draaimolen — dois universos que raramente se cruzam. Uma vez por ano, porém, dá-se o milagre: a comunhão acontece, fiel e luminosa, no bonito Mucho Flow.
A cidade medieval de Guimarães, que nesta altura do ano se cobre de folhas amarelas, vê as árvores despirem-se e o frio entranhar-se nas suas paredes de pedra, criando o cenário perfeito para o regresso a esta terra que parece vestir-se a rigor para o Halloween.

E, voltando ao que realmente nos trouxe ao berço de Portugal, esse contraste musical a que o Mucho Flow já nos habituou continua a atrair públicos dos mais diversos espectros sonoros, projetando o futuro no presente — e este ano não foi exceção.
Durante três dias, o festival foi palco de descobertas, de consagrações há muito anunciadas, de estreias entusiasmantes e de inquietações criativas. Aqui, não há cabeças de cartaz — algo que o próprio grafismo do cartaz deixa claro — apenas palcos que se moldam a cada som, conduzindo-nos numa deriva pelas várias salas e ruas que unem as coordenadas da cidade.
Dia 0 – Quinta-feira, 30 de outubro
Quinta-feira. O peso da semana ainda faz-se sentir, e a noite, apressada, cai cedo sobre a cidade. No ar, o frio anuncia o princípio do inverno, e há algo de melancólico na forma como o dia se despede. Ao contrário do ano passado, a sexta-feira não guardará o tão ansiado feriado — e por isso, este “dia zero” carrega um sabor agridoce.
Por um lado, o amanhã traz consigo o regresso à rotina, como se nada tivesse acontecido, por outro, o presente pede entrega. O cartaz ergue nomes que exigem presença, atenção e corpo inteiro.
Sassy 009
Entre eles — Sassy 009, nome que ecoa como promessa e a antecipar o seu disco ‘Dreamer +’ a ser editado no próximo ano.
A indie pop da norueguesa Sunniva Lindgård traz camadas de DIY tornando-se um projeto bem pessoal. No palco montado em cima do grande palco do auditório do Centro Cultural Vila Flor (CCVF), estava Sunniva com o seu hoodie meio desleixado acompanhada pela sua voz e o seu baixo, enquanto na bateria estava Elias Tafjord e nos teclados/sintetizadores estava acompanhada por Markus Anskau.
A voz melancólica de Sassy 009 flutuava sobre batidas firmes e ritmadas, mas nem isso bastou para incendiar a sala — preenchida, sim, mas longe de estar cheia. Aqui e ali, alguns corpos deixavam-se embalar, cabeças moviam-se num leve transe, mas o momento nunca chegou a tocar o verdadeiro nirvana.

Grande parte da setlist revelou-se inédita para o público, possivelmente composta por temas ainda por editar. Ainda assim, foi possível ouvir faixas como “Are You Still a Lover”, “Wannabee” ou a contagiante “Maybe on Summer”. Entre as mais aguardadas estava “Tell Me”, o recente single partilhado com Blood Orange e incluído no novo disco, mas Sassy 009 acabou por deixar o tema fora do alinhamento da noite.
Mesmo sem alcançar momentos de euforia coletiva, Sassy 009 conseguiu criar um ambiente imersivo, envolto em melancolia e eletrónica pulsante. Entre temas ainda por editar e momentos de pura delicadeza vocal, a artista norueguesa mostrou por que continua a ser uma das vozes mais singulares da cena alternativa. O público, embora contido, pareceu partilhar da mesma curiosidade — a de descobrir, ao vivo, o rumo que o novo disco irá tomar. Uma atuação breve, mas intensa, que deixou no ar a sensação de que o melhor ainda está para vir.

HiTech
O Mucho Flow já nos habituou a apresentar cartazes repletos de nomes que passam despercebidos ao público menos atento mas é precisamente essa curadoria que convida à descoberta e à surpresa. Um desses casos — e um dos nomes que mais aguardávamos nesta edição — foi o trio HiTech. O horário de atuação, quinta-feira à 1h da manhã, acabou por não beneficiar a experiência, admito, mas ainda assim resultou numa das performances mais enérgicas e envolventes do grupo de DJs, produtores e rappers.
O trio — King Milo, Milf Melly e 47Chops — entrou em palco com uma energia contagiante, prontos para fazer dançar até quem, poucas horas depois, teria de enfrentar o despertador das nove da manhã. Os ritmos frenéticos e as batidas cruas, mas irresistivelmente dançáveis, do ghettotech — esse som eletrónico nascido nos subúrbios de Detroit no início dos anos 2000 — incendiaram a sala e puseram em movimento as poucas centenas que resistiram ao avançar da madrugada.
Editado a 23 de Maio deste ano, ‘HONEYPAQQ Vol.1’ foi o mote para o regresso a Portugal depois de uma passagem no OUT.FEST em 2023.

Com malhas como “SPANK!” e “TAKE YO PANTIES OFF” — esta última adornada pela voz etérea de Georgie Riley —, o trio transformou a sala numa celebração pura, onde ninguém conteve o sorriso. A energia era tão contagiante que, a certa altura, um dos membros desceu até à frente do público, partilhando, entre gargalhadas e cumplicidade, a sua garrafa com o líquido dos deuses. Já levados por esse impulso, houve espaço para twerks, movimentos atrevidos e improvisos de dança que se espalhavam pelo espaço, transportando-nos para as intensas e vibrantes festas underground de Detroit, sentindo cada batida pulsar tanto no chão da sala do CCVF como no peito.
Por entre este festão, ainda ecoou “Paper Planes” de M.I.A., e, num instante, até os poucos céticos da sala se deixaram levar, entregando-se por completo à energia contagiante dos HiTech. Queríamos mais: mais calor, mais suor, mais corpos a vibrar juntos, e um horário diferente que nos permitisse sentir cada BPM pulsar nas veias e dançar lado a lado com eles até que a madrugada desaparecesse.

Quando a noite finalmente se despediu do CCVF, ficou no ar a sensação de que o primeiro dia do Mucho Flow tinha cumprido o seu papel: surpreender, desafiar e deixar-nos com vontade de mais. Entre a introspeção melancólica de Sassy 009 ao caos luminoso dos HiTech, o festival voltou a provar que o risco é a sua maior força.
Dia 1 – Sexta-feira, 31 de outubro
Ainda nos encontrávamos na ressaca da noite zero do Mucho Flow, e o dia de trabalho parecia arrastar-se num compasso lento. Aqui e ali houve tempo para recuperar forças — forças essas que já estavam reservadas para o segundo dia do festival.
Chegámos à garagem do Teatro Jordão quando Lauren Duffus já se encontrava em palco, e uma das primeiras coisas que se fez notar foi a clara melhoria da acústica da sala, agora totalmente coberta por longas cortinas pretas que lhe davam um ar mais íntimo e envolvente.
TRACEY
Quase se pode falar em duas partes bem distintas na performance de TRACEY. Para quem aterra pela primeira vez na página de Spotify do duo londrino, é fácil criar expectativas de uma sessão clubbing pronta para fazer suar e perder o público no jogo de luzes. Mas não foi bem assim. A primeira metade do concerto revelou-se surpreendentemente contida — uma introdução sóbria e melancólica, com temas como “Take Care” e “When I Choose To Be Here With You”, canções quase confessionais que pareciam sussurrar mais do que gritar.

A temperatura da sala mantinha-se fria, e os espaços vazios entre corpos ainda se faziam sentir na pele. O público parecia observar mais do que viver. Mas para os mais desatentos, a segunda parte de TRACEY foi uma reviravolta total. O duo trocou o minimalismo pela energia bruta, virando o disco — literalmente — e trazendo à superfície a pulsação clubbing que muitos esperavam.
Foi aí que “Sex Life”, o tema que incendiou pistas de dança durante o verão, assumiu o protagonismo passando também por “Sleazy”. Com ecos de um dubstep renascido e batidas atrevidas, o subsolo do Teatro Jordão transformou-se num verdadeiro clube noturno — luzes a pulsar, corpos finalmente em movimento, e uma sensação coletiva de libertação.
Quando o último som se dissipou na penumbra da garagem, ficou um silêncio curioso . TRACEY tinham deixado o público entre o fascínio e a confusão, como quem sai de uma viagem que muda de rota a meio, mas acaba por chegar a um destino inesperadamente certo. O duo despediu-se sem grandes gestos, mas com a certeza de ter deixado marca: entre o intimismo frágil do início e a libertação clubbing do final, construíram um arco que mais do que um concerto, foi uma metamorfose.
Infinity Knives + Brian Ennals
Quem esteve na edição do ano passado lembra-se bem dos Two Angry Blackmen — não só um dos concertos mais intensos do Mucho Flow, mas também um dos grandes momentos de 2024. Este ano, o produtor Infinity Knives e o rapper Brian Ennals fizeram-me reviver, ainda que de forma diferente, essa mesma energia crua e incendiária. Na bagagem traziam ‘A City Drowned in God’s Black Tears’, o disco lançado este ano.
A atuação começou de forma densa, quase cinematográfica — batidas graves que pareciam subir do chão, samples que se misturavam com ruído, e a voz de Brian Ennals a cortar o ar como uma lâmina. A cadência das rimas era crua, urgente, carregada de ironia e raiva, mas também de uma lucidez desconcertante. Ao fundo, Infinity Knives manipulava os controladores e o teclado com gestos precisos, alternando entre o caos e o controlo absoluto. As paredes da garagem vibravam, e o público, ainda estático nos primeiros minutos, começou a ceder à intensidade — cabeças a abanar, corpos a balançar, olhares a procurar cumplicidade.

O rap de Brian Ennals era um murro ritmado, e a eletrónica de Infinity Knives dava-lhe corpo — uma arquitetura sonora que oscilava entre o sagrado e o apocalíptico. Cada faixa soava como uma declaração, um protesto, uma catarse.
Durante o concerto, foram ouvidos temas do álbum mais recente da dupla, ’A City Drowned in God’s Black Tears’ — por exemplo “The Iron Wall” e “Sometimes, Papi Chulo” —, que serviram de eixo à sua performance. Neste registo, a crítica política surge com toda a força: Na letra de “The Iron Wall”, apontam-se nomes como Benjamin Netanyahu e Donald Trump («Netanyahu is the new Hitler», «Donald Trump – you a rapist and you know it») e realçam-se as questões do imperialismo, da guerra e da violência sistémica. Ao longo do set, essas referências foram intercaladas com batidas eletrónicas, momentos de catarses rítmica e instantes de introspeção. A performance não foi só musical — foi também política, provocadora e consciente.

O 2º dia do Mucho Flow trouxe-nos primeiro a metamorfose clubbing e emocional de TRACEY, depois a descarga política e incandescente de Infinity Knives + Brian Ennals, que transformou a garagem do Teatro Jordão num epicentro de ritmo e manifesto. À saída, ainda com o corpo a vibrar e as luzes a piscar na memória, percebia-se nos rostos um misto de exaustão feliz e leve incredulidade. O festival seguia em frente — e nós, com ele — prontos para mais um mergulho no desconhecido.
Dia 2 – Sábado, 01 de novembro
O Mucho Flow nunca se deixou por reger por rótulos musicais, e diria que este ano foi um desses anos que tal foi mais saliente. Contudo, este último dia do festival trouxe-nos uma dose extra de rock, nas suas mais variáveis vertentes.
YHWH Nailgun
Há uns dias, o algoritmo do Instragram levou-me até a um vídeo partilhado por Joe Talbot, vocalista e figura magnética dos Idles, onde se via um registo live dos YHWH Nailgun. Talbot escrevia por cima — “blew my tiny mind. Go dig ’em live, you won’t regret it.” — e aquela frase ficou a ecoar.
A curiosidade acendeu-se no instante. E assim que chegámos ao Mucho Flow, fomos escavar esse som ao vivo. Entre luzes pulsantes e ruído a rasgar o ar, testemunhámos mais uma das estreias do festival. Vieram carregados do seu primeiro disco, ’45 Pounds’, e deixaram-no cair no palco como quem lança uma granada sonora.
Os YHWH Nailgun confirmaram essa energia inquieta que atravessava todo o festival. Bastou o alinhamento das luzes no Teatro Jordão para que o ar da sala ganhasse uma espécie de tensão elétrica, como se alguém estivesse a carregar uma mola invisível. Quando a banda entrou, não houve apresentação nem cerimónia — apenas um jorro de som que cortou o silêncio como uma lâmina quente no frio do outono.

A bateria, liderada por Sam Pickard, foi o primeiro corpo a ganhar forma: golpes secos, repetidos, quase mecânicos, que funcionavam como um farol dentro da tempestade sonora que se aproximava. Por cima disso, linhas de guitarra e sintetizador surgiam e desapareciam como vultos — nunca totalmente definidas, sempre prestes a escapar. Havia momentos em que o palco parecia mais um laboratório do que um espaço de performance, com cada músico a explorar o limite entre ruído, groove e colapso.
Zack Borzone, vocalista do grupo, movia-se como se estivesse a travar uma luta invisível com o próprio ar, lançando a voz para o teto do teatro como um sinal de emergência. Não era apenas cantar — era exorcizar. Cada frase nascia da garganta como se viesse acompanhada de luz estroboscópica. A intensidade não era teatral; era física, quase táctil, como se o som empurrasse o público alguns centímetros para trás.

Quando chegou “Sickle Walk”, o ambiente mudou de repente. O público foi puxado para dentro daquela espiral de ruído controlado, uma espécie de redemoinho que parecia nascer do chão. As paredes do teatro vibraram com um grave que não se ouvia tanto quanto se sentia no estômago. A música avançava sem dar espaço para pensar, apenas para sentir — como se cada camada fosse uma porta que se abria para um túnel ainda mais fundo.
A música foi se dissipando, mas a vibração permaneceu, como se cada pessoa levasse consigo um fragmento daquele tumulto luminoso. Foi um daqueles concertos que não se esgota no momento — continua a acompanhar-nos, silenciosamente, enquanto caminhamos para fora da sala e voltamos à noite fria do exterior da CCVF.
These New Puritans
O Mucho Flow sempre se caracterizou por trazer os headLiners de amanhã, mas houve um nome que fugiu a essa regra: os These New Puritans. A banda britânica conta já com uma extensão discografia, datada desde 2008 com ‘Beat Pyramid’, e agora em 2025 trouxeram-nos o muito aclamado, o incrível ‘Crooked Wings’.
Quando entraram em palco, trouxeram consigo uma gravidade silenciosa que alterou imediatamente o ar da sala. A luz baixa recortava a figura de Jack Barnett, quase imóvel, como se estivesse a medir o espaço antes de o deixar vibrar. Os primeiros acordes ergueram-se devagar, num cruzamento de vibrafone, eletrónica espessa e um piano que ressoava como uma muralha antiga atravessada por corrente elétrica. A voz grave abriu caminho por entre as camadas metálicas e pulsantes, criando um ambiente que oscilava entre o cerimonial e o futurista.

O público, que até então se distribuía em murmúrios e passos soltos, rapidamente foi absorvido pela atmosfera. Alguns mantinham-se imóveis, como se tivessem sido apanhados pela intensidade hipnótica de “Industrial Love Song”; outros fechavam os olhos, deixando que os sinos, as máquinas e o piano os arrastassem para dentro de um lugar que parecia existir algures entre ruínas antigas e laboratórios luminosos. Quando “Bells” ecoou pelo espaço, houve uma espécie de respiração coletiva — um momento em que todos perceberam que estavam diante de algo meticulosamente construído, mas emocionalmente bruto. No final, ninguém aplaudiu de imediato; houve, primeiro, um silêncio denso, como se fosse preciso regressar ao corpo antes de bater palmas. E só depois, lentamente, veio a ovação, de um concerto.

O último dia do Mucho Flow terminou como um eco prolongado do próprio festival: feito de contrastes que dificilmente poderiam coexistir noutro lugar. Depois do caos luminoso dos YHWH Nailgun e da solenidade futurista dos These New Puritans, a cidade parecia respirar de outra forma. As ruas húmidas refletiam as luzes como pequenas veias a pulsar no centro histórico, e o público dispersava-se devagar ainda a tentar decifrar o que tinha ouvido.
Havia nos rostos uma mistura de exaustão feliz e silêncio partilhado, como se cada pessoa carregasse consigo uma parte do festival. E foi nesse intervalo entre o silencio da cidade e a noite fria, enquanto caminhava pela calçada em direção ao São Mamede para gastar os últimos cartuchos, que me veio um possível título para esta reportagem – O passado murmura nas ruas de Guimarães, o futuro ressoa no Mucho Flow: o contraste de dois mundos inseparáveis.
Texto: Luis Silva
Fotografia: João Octávio Peixoto – joctaviop (Instagram) // Fotos Oficiais Mucho Flow


