
Summer of Hate, Conferência Inferno e Marquise puseram o Coliseu Box a dançar — e a timidez ficou nas cadeiras.
Foi numa noite de outubro já mais outonal que o Coliseu do Porto recebeu mais uma edição do Primeira Box. Aconteceu no passado dia 12 de outubro. Para ampliar as vozes e o alcance de bandas, projetos e grupos da cena local de Portugal e que merecem a devida atenção. Com uma temática diferente a cada mês, a terceira edição foi especialmente dedicada ao rock alternativo e contou com nomes já bastante relevantes.
No terceiro mês do evento, que ocorrerá pelos próximos três anos, três bandas atuaram na nova sala do Coliseu Porto Ageas, o Coliseu Box, quebrando a sacralização do palco histórico e abrindo-o para novos criadores. Foi nesta edição especificamente que vimos ao vivo os Summer Of Hate, banda que inclusivamente tocou no festival Sobe à Vila este ano, que antecede o tão conhecido Vodafone Paredes de Coura, Conferência Inferno e os Marquise, banda já conhecida deste veículo por terem feito a abertura para os Two Door Cinema Club cuja reportagem pode ser lida e vista aqui.

Num setting mais intimista, que parece ser precisamente a proposta do evento, o público foi crescendo aos poucos. Agendado para às 21h, às 20h30 ainda se via um público mais pequeno e talvez mais tímido, ainda a se ambientar. A música de fundo, com bandas como Arctic Monkeys, parecia dar o tom alternativo e, de certa forma, ser um prelúdio do que estava por vir. Por volta das 21h, o ambiente já havia se transformado: a sala estava preenchida por grupos de amigos que, em alguns casos, até pareciam conhecer-se entre si. Via-se inclusivamente uma ou outra pessoa frustrada com as cadeiras, por achar que não iam poder dançar ao longo da noite. Mal sabiam eles o que estava por vir.
Com poucos minutos de atraso e num palco pouco elaborado, os Summer Of Hate arrancaram com os concertos da noite. Em contraste com a simplicidade do palco, o guarda-roupa e a maquilhagem já revelavam um pouco da personalidade da banda, antes mesmo dos primeiros acordes. O grupo é composto pela vocalista Laura Calado, pelos guitarristas João Martins (ou Jonas), Xavier Valente e Ricardo Fonseca, por Fábio Pereira no baixo e por Pedro Lopes na bateria.

A estética, que remete para a psicodelia dos anos 60 e 70, encontrou eco na primeira canção, ‘Blood and Honey’, tema que dá nome ao mais recente álbum da banda, lançado este ano. A sonoridade neopsicadélica, com claras influências do Médio Oriente, um toque de shoegaze e até de um certo pop, pode parecer difícil de descrever pela mistura de referências, mas, ao vivo, faz sentido e ganha vida de forma única.
Summer Of Hate é uma banda originalmente de Espinho e que possui um vínculo com a Invicta. Foi entre 2016 e 2017 que a banda surge, mas foi nos anos seguintes que começou a ganhar notoriedade nacional e a participar de festivais como o Reverence Valada e Basqueiral. É mais ou menos por volta de 2024 e 2025 que a banda começou a explorar e a consolidar a sua sonoridade atual. Nessa altura, os elementos da música médio-oriental e até as escalas frígias e lídias ganharam maior destaque no seu som.

O concerto prosseguiu com a segunda música, introduzida por Jonas, que bradou contra a crise habitacional que há não somente no Porto, mas em todo o país. Soube aproveitar bem a plataforma para levantar um tema e uma discussão bastante atual e pertinente. Foi no calor deste momento que também aproveitaram para mandar todos a se levantarem e irem para a frente – aliviando a tensão daqueles que achavam que não iriam dançar naquela noite. Com a canção “El Saif”, a banda começou a trazer a plateia para perto de si e insistiu em ter as pessoas de pé. E os músicos pareciam mesmo dar o exemplo: embora Laura tivesse uma presença em palco mais contida, com uma voz doce mas imponente como principal força e traço distintivo, o dinamismo dos restantes elementos contagiava o público, embalado pela psicadélica da canção.
O concerto, que durou menos de uma hora, terminou com “Ashura”, tema do mais recente álbum, tal como todas as canções do alinhamento. Os Summer Of Hate mostraram uma presença forte em palco. O contraste entre a tensão da música e dos instrumentos e a doçura melódica das vozes pareceu alimentar a energia dos músicos, que acabaram por contagiar o público. No final, já quase ninguém estava sentado ou parado. O som único da banda parecia envolver os presentes numa espécie de ritual — nem que esse ritual fosse apenas passar uma quinta-feira à noite com amigos e aproveitar o momento para refletir sobre os problemas e as crises locais e os criticar.

A seguir, foi a vez dos Conferência Inferno. A banda portuense, no ativo desde 2018 e composta por Francisco Lima, José Miguel e Raul Mendiratta, subiu ao palco para reafirmar que a noite do dia 12 era, sim, para dançar! O trio deu continuidade à vertente dançante, alternativa e experimental que até então tinha marcado a noite no Coliseu.
Com um estilo marcado pela experimentação, pela new-wave e por um synthpop, as canções distinguiam-se uma das outras, mas de alguma forma o estilo próprio da banda era reconhecível – os Conferência Inferno não têm medo da experimentação, e isso dá muito certo. É uma experimentação que instiga os ouvintes e desperta curiosidade, há uma atmosfera de exploração: em determinado momento, podemos dar por nós a imaginar uma aventura intergaláctica. Obviamente no sentido figurado, mas tudo isso para dizer que o resultado da inspiração dos três artistas é instigante, evoca os Kraftwerk e se cruza com a new-wave dos anos 80, levando seus espectadores e ouvintes a uma experiência dançante e exploratória. O repertório contou com canções como “Sina”, “Alma” e “Pigmento”.

A iluminação ténue reforçou a proposta da banda, perante uma plateia um pouco menos agitada, mas que continuava a dançar. Os Conferência Inferno mantêm uma forte ligação ao Porto, presente desde logo no nome, inspirado numa fanzine portuense que abordava temáticas DIY ligadas ao punk. Também nas suas canções procuram transmitir a essência da cidade e as emoções, impressões e sensações de nela viver. A meio do concerto, Mafalda, dos Marquise, subiu ao palco para cantar uma canção com a banda — um momento que, a meu ver, reforçou esse laço com a cidade, já que os Marquise também possuem um forte vínculo com a Invicta.
Pelo que se podia observar, o público era composto por grupos de pessoas que já se conheciam. Ao longo da noite, as bandas foram reforçando esse sentimento de proximidade, que se tornou cada vez mais evidente. Após o segundo concerto, o público parecia menos tímido e mais satisfeito com a escolha de ter ido ao Primeira Box de 12 de outubro. A proposta intimista do evento parecia, assim, ter resultado naquela noite.

Para finalizar a noite da terceira edição do evento, os Marquise deram as caras. Com Mafalda Rodrigues nos vocais, Miguel Pereira na guitarra, Miguel Azevedo no baixo e synth e, por fim, Matias Ferreira na bateria, a banda reforçou o ambiente de proximidade e pôs o público ainda mais em movimento. Foi uma atuação que rematou com mestria aquela noite de quinta-feira.
A banda iniciou o concerto com uma canção inédita, mas bem reconhecível na sonoridade dos Marquise: a voz doce de Mafalda contrastava com a guitarra rasgada e uma bateria destemida, num som que nos remetia para os anos 80 e 90. A novidade também convidava à dança, e o público respondeu positivamente, recuperando a agitação dos concertos anteriores.

Tal como os Conferência Inferno, os Marquise mantêm uma relação estreita com o Porto: foi entre cafés e salas, em plena paisagem urbana, que a banda nasceu e se consolidou. A cidade não é apenas o pano de fundo da sua história; é também um dos temas centrais das suas canções.
A par desta importante dimensão temática, a sonoridade da banda é marcada pelo rock alternativo, com uma componente instrumental que se destaca pelos arranjos detalhados e pela combinação de competência e espontaneidade. Algumas canções tornam esses traços particularmente evidentes: em “Espanco do Espírito”, por exemplo, o rock alternativo e a melancolia evocam os Coldplay da época de ‘A Rush of Blood to the Head’. Já em “Não Fiques Triste”, houve um momento instrumental que se assemelhou a uma jam, com a inclusão de uma passagem de “21st Century Schizoid Man”, dos King Crimson.
A banda dominou o palco, mostrando segurança no que fazia. A voz doce de Mafalda, de timbre leve e sonoridade aérea e flutuante, era por vezes acompanhada por um sintetizador que reforçava a sua atmosfera naturalmente etérea. Em contraste, o baterista imprimia determinação, evocando por vezes o dinamismo e a força de Dave Grohl; o guitarrista não tinha medo de arriscar; e o baixista dava sustentação e músculo. Dessa combinação resultava uma sonoridade bastante interessante, bem ao jeito dos Marquise.

A meio do concerto, cujo alinhamento incluiu também “Passado”, “Delírios” e “QuatroQuatroCinco”, a banda apresentou mais uma canção inédita, igualmente bem recebida. Por essa altura, já havia alguns moshpits e malta a saltar e a cantar com a banda. Embora as interações diretas com a plateia fossem poucas, a atuação era tão contagiante que essa escassez não se fazia sentir.
Entre a delicadeza da voz e a força dos instrumentos, os Marquise encerraram a terceira edição do Primeira Box com a sensação de que o público queria mais. As canções inéditas encontraram lugar entre os temas já conhecidos, numa atuação em que a proximidade se construiu sobretudo através da música. Entre saltos e vozes a acompanhar a banda, aquela quinta-feira terminou bem longe da timidez inicial — as cadeiras já não ditavam o ritmo da noite.

Por fim, três bandas, três sonoridades distintas e ao mesmo tempo parecidas, e uma ligação comum ao Porto: a terceira edição do Primeira Box fez do Coliseu Box um espaço de descoberta e encontro. Entre a experimentação e a dança, espaços como este reforçam a importância de aproximar e encurtar a distâncias que possam haver entre palco e público.
Reportagem fotográfica Completa: clicar aqui

Texto:
– Marina Florence Siqueira @ mahflorence (Instagram)
Fotografia:
– Aitor Amorim @ torstudio (Instagram)
