
Nasceu um novo ciclo de música no Porto apelidado de “Primeira Box” pela mão do Coliseu Ageas Porto em parceria com o município portuense. O “Coliseu Box” recebeu a noite de estreia na passada segunda-feira, dia 6 de julho. Este ciclo pretende dar visibilidade a bandas e artistas emergentes que, segundo a organização, merecem ser descobertos por novos públicos. Nota relevante: todos os projetos têm uma intensa conexão à Cidade Invicta.
A curadoria está a cargo de João Vieira coadjuvada pelo Coliseu. Este músico, DJ e produtor tem tido bastante sucesso no decurso da sua longa carreira iniciada como DJ Kitten nos anos 2000 em que teve um enorme impacto na cena clubbing portuguesa. Com o passar dos anos foi acumulando diversos projetos tais como X-Wife, White Haus ou Wolf Manhattan. Tudo com ponto de partida no Porto e por isso é uma pessoa com profundo conhecimento da cena musical portuense.

6 de julho de 2026 virou data malfadada pois quis o destino que calhasse em jornada de jogo de Portugal no Campeonato do Mundo de Futebol da FIFA. Para remediar um pouco a situação a organização decidiu, à última hora, transmitir o jogo na tela gigante. Já tinha anteriormente passado o início das 21 horas para as 22 horas.
Felizmente a contenda não foi a prolongamento nem a penáltis senão… Pessoalmente acho que a decisão mais sensata teria sido do adiamento da data, nem que fosse para o dia seguinte. Ganhava o público e os artistas também. Provavelmente a sala teria tido uma plateia mais preenchida… Seria o esforço certo para permitir a desejada maior visibilidade para estes projetos de música alternativa.
O formato da sala permite 500 lugares sentados ou 800 em pé. Desta vez a disposição foi em configuração sentada. Esteve longe da lotação esgotada. Registou uma adesão algo tímida, ainda assim, estiveram mais pessoas que eu esperava tendo em conta todo o contexto menos favorável.
Neste debute a noite contou com três projetos musicais extremamente distintos. Deambulou entre o folk hipnótico, a pop do underground e a vibe eletro-retro anos 80 com a presença de Calcutá, de Evaya e dos Astra Vaga.

Com a derrota de Portugal selada, defrontou a Espanha começaram os preparativos para o primeiro concerto. Felizmente foi tudo rápido e logo às 22:11h surgiu Teresa Castro mais conhecida como Calcutá no meio artístico. Oriunda de Lisboa está atualmente sediada no Porto. Esteve a solo em palco e durante os cerca de 40 minutos de atuação quis deixar uma “pegada” marcante acerca do seu álbum ‘Soon After Dawn’. Este é o seu álbum de estreia, editado em janeiro deste ano.
Logo no arranque a artista fez jus ao seu nome artístico começando por tocar um harmónio indiano. Tocou também guitarra elétrica e fez igualmente uns loops de algumas vocalizações.
Uma performance bastante curiosa, introspetiva e poderosa em que a sua experimentação de diversos universos musicais resulta num folk de densidade hipnótica. Dos temas que Calcutá tocou fica o destaque para “Eterno Retorno” e “Run Come Rally”.
Revelou-se feliz por partilhar a noite e o palco com artistas pelos quais tem bastante respeito. Este “Primeira Box” terá também esse lado, o encontro de artistas que habitam na mesma cidade e que se encontram numa noite num local mítico para uma compartilha de música e experiências.

Seguiu em palco Beatriz Bronze mais conhecida como Evaya no meio artístico, ela que é oriunda do Poceirão e ficou publicamente com mais relevo por ter participado do Festival da Canção em 2026.
Ela realizou esta atuação no Coliseu em formato trio, teve o apoio de Phaser nas eletrónicas e de Frederica Vieira Campos na harpa. Phaser e Evaya surgiram em palco às 22:58h para uma atuação que teve cerca de 40 minutos tendo aberto o seu set com os bonitos temas “contemplação” e “ofereço ao sol”. Estas são as duas primeiras faixas de ‘Abaixo Das Raízes Deste Jardim’, álbum editado em abril de 2024 pela Saliva Diva. Este seu disco de estreia contempla “paisagens sonoras imersivas, drum-machine e poesia mutante”. Um trabalho discográfico cujo ponto de ignição foi um apoio do Fundo Cultural da SPA.
Em tom de curiosidade revelou ter sido a primeira vez que tomou café à noite. Pese embora o público não soubesse o efeito disso nela, como Evaya deixou no ar, a verdade é que artista rubricou uma performance com dinamismo e com muita boa vibe. Pareceu um “pouco acelerada” porém isso só pode ser visto de forma positiva. Evaya deambulou sobretudo pela zona frontal do palco, em redor dos suportes dos seus dois microfones. Esteve enérgica e os temas que mostrou precisavam dessa vivacidade.

Frederica Vieira Campos entrou mais adiante, nomeadamente, para o tema “dança da mudança” e participou com os acordes da sua harpa. A sonoridade destes acordes deram uma pitada refrescante e mística aos três temas em que colaborou. Nesta faixa Evaya até cantou ajoelhada, algo que aconteceu mais uma ou outra vez.
Duas canções “bué frescas”, assim apelidadas pela artista, foram devidamente apresentadas. A primeira chama-se “continuar” e ambas farão parte do próximo álbum.
Depois de “o que acontece agora”, um tema “meio dramático”, veio o fim em tom mais animado com “fé azul-celeste” e “sementes”. Nesta última os três jovens músicos fizeram a festa em palco dançando de forma alegre e descontraída. Estes foram os predicados da performance bem conseguida de Evaya e seus parceiros.

A última atuação coube aos Astra Vaga, projeto de Pedro Ledo. Atualmente a banda mostra-se em versão quarteto com Pedro Ledo na guitarra e voz, Pedro Adelino no baixo, Pedro na guitarra e Eduardo na bateria. O mote para esta atuação foi o álbum ‘Unção Honrosa’ editado em janeiro deste ano com o auxílio da editora portuense Saliva Diva.
“Ninguém Me Vê” e “Lamento” foram dos dois temas interpretados na fase inicial. Foi igualmente nesta altura que o guitarrista falou sobre a “enriquecedora experiência” de terem tocado depois da transmissão de um jogo de futebol. Deixou também elogios às artistas que já tinham tocado dizendo que deviam ser mais apoiadas.
Durante a atuação os vídeos projetados na gigante tela por detrás da banda surgiam desfocados e num registo lo-fi fazendo lembrar os tempos da televisão analógica e das cassetes VHS. Um claro paralelismo com o estilo musical.
“Nada a meu favor”, um dos principais singles, foi devidamente mostrado em que batidas eletrónicas com uma vibe intensa a anos 80 proporcionaram uma profundidade revivalista bem cativante.

Um problema técnico com “Cor-de-Rosa” causou três tentativas frustradas em levar o tema adiante. Felizmente à quarta tentativa a faixa decorreu lindamente. “Roxo” encerrou uma atuação digna e empenhada. Foi a mais curta da noite, teve sensivelmente 35 minutos
Desta vez pude apreciar bem melhor o som dos destes Astra Vaga, em fevereiro deste ano vi-os no Rum by Mavy em Braga e nessa altura já tinha ficado com boas sensações. Com as condições de excelência proporcionadas pelo Coliseu pude ter uma experiência sonora diferenciada em que amplifiquei e confirmei essas boas sensações.
Astra Vaga têm um som pop-rock (mais rock, é certo) com uns travos indie e uma vibe eletro-retro anos 80 para a qual muito contribuiu a bateria eletrónica.

O ciclo Primeira Box regressa em setembro e tem outra data em outubro. A colocar em agenda as próximas datas:
21 de setembro com hip-hop e sons urbanos
– Ed
– João Não & Lil Noon
– Rodrigo 13
12 de outubro com rock alternativo
– Conferência Inferno
– Marquise
– Summer of Hate
Reportagem fotográfica Completa: clicar aqui

Texto:
– Edgar Silva
Fotografia:
– Mariana Fortunato @ phortun.art (Instagram)
