‘Audição IndieSpensável’ é uma rubrica que vai dedicar-se a dar um destaque de bandas e/ou artistas a solo relevantes no panorama musical nacional mais virado para os universos mais indie e alternativos.
Será dado o destaque a bandas e/ou artistas já com algum reconhecimento no meio embora não sendo propriamente do tipo mainstream. Daquele tipo que não surgem na televisão com frequência e que as suas músicas passam em todas as rádios, o destaque é sempre dado mais pelas rádios especializadas e não nas rádios nacionais de âmbito geral.
~ “Radiografia musical” a Samuel Úria
Samuel Úria é um músico português oriundo de Tondela, bastante orgulhoso das suas origens, nascido em 1979. Nos exórdios musicais o artista deambulou pelo punk, pelo rock’n’roll e pela estética low-fi. Mais ou menos percetíveis tais influências são a sua segunda pele ao longo de todo este tempo.
Fez parte do movimento FlorCaveira, editora discográfica independente portuguesa fundada em 1999. Antes da carreira a solo, iniciada em 2008, o artista tondelense aventurou-se noutros projetos como foram os casos de Velhas Glórias e os Ninivitas.
Foi em nome próprio que conseguiu captar a atenção do grande público, primeiro com edição de ‘Em Bruto’ (2008) e posteriormente com ‘Nem Lhe Tocava’ (2009). Em ambos os registos a qualidade das suas composições musicais e da sua escrita veio à tona com imensa personalidade.
Em junho de 2009, o músico escreveu e gravou num só dia o álbum ‘A Descondecoração de Samuel Úria’. A composição do álbum foi filmada e transmitida em direto via internet, a partir de sua casa, enquanto os seus fãs forneciam sugestões por correio eletrónico.
Em 2013 lançou o seu terceiro LP, ‘Grande Medo do Pequeno Mundo’, uma verdadeira caixa de joias, em que o talento do “trovador de patilhas” (como é apelidado) convive com um conjunto de participações de nomes aparentemente tão distantes como Manel Cruz, Márcia ou Miguel Araújo. No decurso de 2014 a SPA (Sociedade Portuguesa de Autores) considerou o tema “Lenço Enxuto” como a melhor canção do ano.
Após a edição de ‘Carga de Ombro’ (considerado um absoluto primor de escrita e revelando-se como umas das melhores obras desse ano), lançado em 2016, trouxe-nos temas épicos como “É preciso que eu diminua”, ou “Carga de Ombro”.
Esse indelével traço musical de Samuel Úria ficava desde então devidamente consignado, como marca registada, bem como a sua enorme relevância na história da música portuguesa.
A azáfama na carreira de Samuel Úria é uma constante e participa, finalmente, no Festival da Canção em 2017 com um tema inédito escrito por si. A interpretação ficou a cargo das irmãs Catarina e Margarida Falcão conhecidas pelo seu projeto Golden Slumbers.
‘Marcha Atroz’ é um mini-álbum de retrospetiva com 4 faixas editado em 31 de outubro de 2018. Trata-se basicamente de disco comemorativo da reedição em vinil dos seus três últimos álbuns.
Em 2020 editou ‘Canções do Pós-Guerra’, cuja edição teve de ser, obrigatoriamente, adiada devido à famigerada pandemia do Covid19. Inicialmente previsto para abril, o álbum só viu a “luz do dia” em setembro. Mais uma vez, outra obra altamente marcante com vários temas já evidenciados como emblemáticos: “Fica Aquém”, “A Contenção” ou “O Muro”.
A reta final de 2024 viu Samuel Úria regressar com ‘2000 A. D.’, um álbum com nove temas novos. A faixa que dá o título a este registo discográfico foi o primeiro single lançado em setembro e resultou desde logo muito bem no ouvido e merecedor de algum tempo de airplay em várias rádios nacionais.
Outros singles foram entretanto editados, casos de “Canção de águas mil”, “Quem me acende a voz” e “Kuchisabishii”.
Desde então a promoção das novas canções já teve dois concertos: um dos quais no Porto e no qual tivemos presentes: Samuel Úria no Sá da Bandeira: entre o rock e a reflexão sobre o novo milénio | Reportagem Completa

Samuel Úria @ Teatro Sá da Bandeira no Porto em 2024 | mais fotos clicar aqui
Agora é novamente altura para o mestre-de-cerimónias com Pés de Roque Enrole regressar à estrada para seguir rumo a vários destinos no nosso belo país para apresentar ao vivo estes incríveis e fresquíssimos temas.
Da sua discografia “oficial” em nome próprio, constam vários LPs e também EPs:
‘2000 A. D.’ (2024)
‘Canções do Pós-Guerra’ – edição especial com versões a solo (2021)
‘Canções do Pós-Guerra’ (2020)
‘Marca Atroz’ (2018)
‘Carga de Ombro’ (2016)
‘O Grande Medo do Pequeno Mudo’ (2013)’
‘Nem Lhe Tocava’ (2009)’
De forma oficiosa e associada à editora FlorCaveira, dois CD-R e um EP-R:
‘O Caminho Ferroviário Estreito’ (2003)
‘Em Bruto’ (2008)
‘Descondecoração de Samuel Úria’ (2009)
~ Entrevista a Samuel Úria
headLiner (Edgar): És um cantor de créditos firmados e um compositor possuidor de uma autenticidade impar. São letras escritas em português com um inigualável refine. A música nem sempre foi o teu natural destino… Como é que te vês? Quem é este gigante que não fica barrado no beco e que só sabe crescer musicalmente de forma pujante de disco para disco, de concerto para concerto?
Samuel Úria: A verdade é que não faço muito esse balanço focado no estatuto próprio. Sem querer parecer desapaixonado pela minha profissão, confesso que se apoderou de mim a noção de normalidade (a falta de noção, nesse sentido). Já há todo um quotidiano e uma rotina em torno desta forma de vida. Mas não me entendam mal: fazer canções continua a ser especial, cantá-las em palco ainda mais especial. Só que essa sensação de fruição, excitação ou felicidade não forçam os pontos de situação sobre os meus momentos ou a minha relevância.

Samuel Úria @ Parque da Devesa em Famalicão em 2020 | mais fotos clicar aqui
headLiner (Edgar): A FlorCaveira tem 25 anos de existência e da sua atividade destacam-se os lançamentos de quase todos os teus álbuns. Foste um dos pioneiros desta editora. Conta-nos um pouco desta interligação entre a FlorCaveira e a tua carreira a solo.
Samuel Úria: A FlorCaveira aparece precisamente quando deixo a invariabilidade das bandas e começo a assinar algumas coisas a solo. Nesse sentido, a minha identidade enquanto escritor e intérprete de canções é indissociável da FlorCaveira – nascemos, crescemos e mantemo-nos juntos. E por muito que eu esteja mais desligado da parte decisória ou institucional da FC (talvez pelo facto de ter sido, a contar do início, o artista mais constante e que se profissionalizou) continuo a lançar todos os meus trabalhos com o selo da editora. Há algumas coisas na minha discografia que parecem distantes do universo inicial da FlorCaveira, e que têm sobretudo que ver com algum investimento ou industrialização inerentes ao meu trabalho, mas o espírito das canções não se alterou. A minha independência segue igual, e os laços de amizade com os camaradas da FC são invioláveis.

Samuel Úria @ Parque da Devesa em Famalicão em 2020 | mais fotos clicar aqui
headLiner (Edgar): Nasceste em Tondela e no decurso da tua vida viveste em diversas cidades como Leiria ou Évora. A passagem por esses distintos locais deu-te certamente novas perspetivas da condição de ser português e da portugalidade. De que forma isso tem vem influenciando o teu repertório?
Samuel Úria: Creio que trago bastante reforçada a ideia de que há mais país para além de Lisboa. Concedo completamente a conveniência de viver na capital, coisa que pratico há mais de década e meia. Mas, ao contrário de alguns lisboetas, faço questão de levar a sério a ideia de multiculturalidade (e este país minúsculo tem diversas culturas) que a urbe tantas vezes promove da boca para fora – mantenho-me beirão, aculturado e aculturador, em inúmeras coisas. A começar na pronúncia, e até na linguagem. Sou crítico, às vezes mesmo bully, do autoconvencimento lisboeta quanto à sua normatividade no Português. Com exclusão da influência africana, diria até que Lisboa está muito longe de ser um polo de criação e riqueza idiomáticas.

Samuel Úria @ Teatro Sá da Bandeira no Porto em 2024 | mais fotos clicar aqui
headLiner (Edgar): A edição de ‘A Descondecoração de Samuel Úria’ surgiu depois de uma sui generis aventura internética em que tiveste a ajuda do público. Hoje em dia tal peripécia far-te-ia sentido? O teu processo criativo têm-se tornado menos difícil com o passar dos anos?
Samuel Úria: Não faria sentido repetir, até porque os muitos factores que me conduziram a essa peripécia são irrepetíveis. De qualquer forma, a “ajuda do público” na ocasião não era propriamente um auxílio às canções, apenas um auxílio à proeza exibicionista. Receber sugestões temáticas, ou mesmo letras completas, era só para provar que a coisa estava a decorrer naquele momento e que eu não tinha nada preparado de antemão. Ora, nada disso fazia parte do meu método de escrita prévio, tal como não passou a fazer parte do método subsequente.
Quanto à dificuldade do processo criativo, tenho algumas dúvidas na minha resposta. Se por um lado há frescura e entusiasmo que, com naturalidade, se desgastam com o passar dos anos, por outro há ferramentas e truques que se acumulam. E mesmo que o critério se vá apertando no que toca a ficar satisfeito com uma canção, também trago saber acumulado na matéria, e terei mais identificado o que me satisfaz.

Samuel Úria @ Teatro Sá da Bandeira no Porto em 2024 | mais fotos clicar aqui
headLiner (Edgar): A tua relação é intensa com Paredes de Coura e o seu famigerado festival. Ao longo dos últimos anos tenho-me cruzado contigo seja à janela na Casa Grande de Romarigães ou pelas ruas circundantes ao recinto. Não vi a tua atuação de 2022 no palco principal em dia de triunfo lusitano, no entanto, o parceiro fotográfico do headLiner captou-te e tirou-te umas belas chapas. Dessa vez não te vi porém já tive a felicidade de ver-te noutros palcos.
Uma das histórias engraçadas que tenho com o meu parceiro de viagem ao festival é mesmo por tua causa. Num dos dias (em 2022) que estávamos a chegar, ouvíamos a Antena 3 e íamos a curtir imenso a “A Contenção” enquanto fazíamos os últimos 2/3 quilómetros. Depois de termos o veiculo estacionado demos alguns passos e cruzamo-nos contigo. Para nós foi bastante engraçada tal situação e será lembrada durante muitos anos.
Tudo isto para perguntar o quê? Hummm… Ahhh OK, já estou situado. Numa intervenção tua na TVI afirmaste que foste ”inundado pelo espírito courense”.
Consegues traduzir por palavras o que significa essa ligação ao festival enquanto músico e enquanto espetador do festival?
Samuel Úria: A minha relação de amor com Paredes de Coura é uma história que ainda está a ser escrita. Nesse sentido, é a mais ideal das paixões; não é recente, mas a chama mantém-se viva e fulgurante. E quando digo “Paredes de Coura” falo da designação vulgar do festival, mas também da terra em si, com a sua tranquilidade verdejante minhota. Até “fora de época” fiz retiros na vila para conseguir escrever e gravar maquetes.
No festival já ocupei quase todas as funções que me são permitidas: vi concertos, dei concertos, li poesia na relva, fui repórter para uma televisão, fiz crónicas para um jornal, estou em permanente networking com público e parceiros. Em todas as funções fui feliz. Em todas tive ar puro nos pulmões e extenso verde nos olhos. Como não amar?

Samuel Úria @ Vodafone Paredes de Coura em 2022 | mais fotos clicar aqui
headLiner (Edgar): Em novembro interpretaste ‘Uma Canção para a Europa’ de Carlos do Carmo num concerto em Ílhavo em conjunto com alguns músicos locais. Este tipo de iniciativas é sempre desafiante obrigando um artista a um preparo bem exigente e minucioso. O que aporta para ti, a nível pessoal e profissional, este tipo de iniciativa?
A vontade de explorar outros territórios musicais surge pela oportunidade de aprendizagem. O processo de escrita e de gravação das minhas canções, por muito que tenha inputs do produtor ou dos músicos, acaba sempre por ser feito às cavalitas de propriedades e gostos meus. Os próprios desafios que coloco nos meus discos vão sempre ao encontro de vontades predeterminadas; no fundo são explorações feitas no espaço da minha cabeça. Pode ser muito amplo, esse espaço, mas não é ilimitado.
Portanto, o desafio de ir para outros repertórios, sobretudo este citado na pergunta (em que uma parte das canções me era desconhecida) é saudável e enriquecedor, contraria o meu autismo da criação, e força-me a novas identidades de interpretação. Encontrar a minha voz nas palavras de outros, fazer com que funcione comigo e para o público, é um repto difícil, mas difícil de rejeitar.
Para além disso, honra-me a responsabilidade de reinterpretar o património de figuras do nosso olimpo musical. Por exemplo: nunca serei tão bom cantor quanto o Carlos do Carmo (ninguém será), mas torno-me melhor cantor se me entregar de alma e coração a tal homenagem.

Samuel Úria @ Vodafone Paredes de Coura em 2022 | mais fotos clicar aqui
headLiner (Edgar): Fala-nos um pouco deste novo ‘2000 A.D.’. Li o teu prefácio sobre o álbum e algumas coisas que partilhaste ultimamente em meios de comunicação. Este novo trabalho discográfico é o teu desabafo (desen)cantado sobre o estado da civilização, direi eu, que encontra-se numa encruzilhada desenfreada? É o teu manifesto estilizado de “bug do ano 2000” relativo à humanidade?
Samuel Úria: Nestas alturas em que dou muitas entrevistas, e sou forçado a sistematizar algumas das ideias íntimas, ou abstractas, que medeiam o processo criativo, apercebo-me que os meus discos são mais ou menos manifestos sempre das mesmas ideias. Não é que me sinta limitado tematicamente, acontece é que as grandes questões que me moíam há 10 anos ainda não foram resolvidas – nem por acção generalizada, nem por acção própria. Mas este reciclar das preocupações não significa bater na mesma tecla, e é por isso que os meus discos têm intenções comuns mas através de objectos e perspectivas diferentes .
Depois de escrever a canção 2000 AD, percebi que poderia recuperar as minhas lutas de sempre a partir de memórias e imagens que ainda não explorei (precisamente essa viragem de milénio, esse número redondo do 2000, esse ¼ de século cujo rescaldo se faz agora). Depois, na confidência das canções, a minha reflexão também não será repetitiva, tendo em conta que, à medida que escrevo, reflito e aprendo mais do que debito pré-concepções.

Samuel Úria @ Vodafone Paredes de Coura em 2022 | mais fotos clicar aqui
headLiner (Edgar): Em outubro tiveste dois concertos de apresentação, no Porto (do qual o headLiner fez reportagem) e em Lisboa. Já há mais datas acertadas? Como será a promoção do álbum em 2025?
Samuel Úria: Embora a ênfase promocional tenha estado a recair sobre os Coliseus que vou fazer em Outubro, estou igualmente motivado para todas as datas que, aos poucos, vão preenchendo o meu calendário de 2025. À habitual vontade de estar em palco, junta-se o desejo suplementar de testar canções novas. E são testes que trazem uma incerteza saudável logo na preparação, já que vou estar com a banda habitual a tocar canções que, neste 2000 AD, foram gravadas sem essa formação.
Pode parecer que fujo à pergunta ao não concretizar muito daquilo que vai acontecer. Mas prometo que, no que toca à promoção, (auto-promoção neste caso) não há nada mais pungente que eu possa prometer do que esta verdade dum artista muitíssimo motivado.
~ Samuel Úria ao vivo
24 janeiro 2025 » Cine-teatro S. João – Palmela
08 março 2025 » Cine-Teatro Garrett – Póvoa de Varzim
29 março 2025 » Cineteatro S. João – Entroncamento
11 outubro 2025 » Coliseu dos Recreios – Lisboa
17 outubro 2025 » Coliseu – Porto
~ Presença WWW de Samuel Úria
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