A ‘Noite de Reis da Bazuuca’ é a irreversível bazuucada de energia vital para o resto do ano

A inevitável inesgotável energia de Ferna dos Bed Legs e dos fãs| Foto: Pedro Neves

A ‘Noite de Reis da Bazuuca’ é um acontecimento que acompanho presencialmente desde 2019 por isso tal tem-me permitido vivenciar, em primeira mão, as noites intensas e calorosas que ele proporciona. Tem sido para mim um privilégio acompanhar a evolução bastante positiva deste evento bem como o seu crescimento de notoriedade.

Tal como em 2023 e 2024, voltou a acontecer em duas noites consecutivas neste presente ano de 2025. Desta vez surgiu no calendário um pouco mais tarde, o Dia de Reis foi a 6 de janeiro sendo que o evento teve lugar a 10 e 11 deste mês. Celebrou-se a 5ª edição de uma ‘Noite de Reis da Bazuuca’ já com uma certa maturidade e com algum público fiel.

A reportagem realizada pelo headLiner sobre a edição do ano passado pode ser lida e/ou recordada aqui: dia 1 e dia 2

O ambiente festivo repetiu-se, quiçá, não com toda aquela intensidade que já vivenciei em edições anteriores. Não deixou de ser menos incrível nem ter menos pompa e circunstância por isso.

Ambiente durante a atuação de Fernando Nunca | Foto: Pedro Neves

As salas da discoteca Lustre, um dos espaços culturais de referência situado mesmo no coração da cidade ao lado dos Paços do Concelho de Braga, tem sido o local privilegiado para este festão. Nestas noites foi novamente o local escolhido. Este ano tivemos uma novidade no que diz respeito às instalações físicas, a sala dos espelhos, a que albergou o palco principal foi remodelada. O palco foi recolocado numa posição bem diferente, tal permitiu gerar uma nova dinâmica para a sala. Mais espaço, mais conforto e melhor circulação. A nova configuração existe desde outubro do ano passado.

A ‘Noite de Reis’ já não destaca somente as bandas e artistas agenciadas pela Bazuuca, tornou-se mais abrangente e alargada à colaboração com outras agências, proporcionando uma reunião de músicos bracarenses ou com uma forte ligação à Cidade dos Arcebispos. Ao todo foram novamente 16 projetos, aqueles que tiveram a oportunidade de dar o brilho a esta, já tradicional, noite de música sem fronteiras, em termos de géneros musicais.

Jornada 1 – 10 de janeiro (sexta-feira)

Ao circular pelo espaço logo nos primeiros minutos deu para visualizar muitas caras conhecidas e músicos de Braga e arredores. Este é o sinal que a comunidade musical não falta à “festa de família”, algo recorrente em todas as edições a que presenciei.

Fernando Nunca é o mais recente projeto de Ferna dos Bed Legs. Em formato trio, com o auxílio de Rui Rodrigues na bateria e de Tiago José na guitarra, entramos num universo paralelo do músico no qual explora um registo pop, bem menos elétrico, no qual Fernando Fernandes terá de afinar um pouco melhor o timbre vocal. Uma mudança enorme no qual veremos Ferna a cantar em português e sem a pujança musculada de Bed Legs.

A estreia do projeto Fernando Nunca no evento | Foto: Pedro Neves

Mais adiante, no decurso de 2025, teremos oportunidade de escutar ‘Na Boca do Povo’, o álbum de debute deste projeto seu projeto a solo. Este arranque de ‘Noite de Reis da Bazuuca’ foi realmente tranquilo e um bocadinho fofinho no Palco Mozart, situado na sequência da zona de entrada no Lustre.

Logo durante a primeira meia hora o espaço ficou rapidamente bem composto, algo que contrastou com outras edições. O Palco Bazuuca instalado na renovada sala dos espelhos teve honras de ser estreado pelos TheVaults (não é erro, o nome é mesmo todo junto) pelas 23:46h. A boa onda da banda formada pelo quarteto composto por Gil Silva na voz e guitarra, Renato Costa no baixo, Eduardo Silva na guitarrae João Araújo na bateria proporcionaram a primeira performance rockeira com muita boa onda.

Atuação bem positiva dos TheVaults | Foto: Pedro Neves

O tema “On and on” foi logo apresentado na abertura e o mais recente single “Supernova” teve interpretação à maneira deixando-me com “água na boca” pelo que aí virá. “Speak It Out” teve direito a uma introdução em jeito de aviso tendo Gil dito que é bom desabafar pelo que todos o devem fazer. Apesar de algum “feedback” a atuação foi sólida e presenciada com a sala já a contabilizar uma lotação em número generoso.

A dupla Semivitae é constituída por José Rios, na guitarra e voz, e Diogo Costa nos teclados. A faixa com que começaram a performance, no caso “Animal Racional”, é a demonstração fiel do som sui-generis deste projeto. Por entre batidas e sintetizadores conjugados ainda com alguns flutuantes acordes de guitarra produzem um som que se pode enquadrar num universo mesclado de synthwave com post-punk em que as estonteantes letras em português são peculiares. “Vultos Dançantes” é o único álbum, lançado em 2023,é a chave da vida até ao momento deste projeto e que foi escutada nesta primeira noite.

A dupla Semivitae | Foto: Pedro Neves

Concentrados em fazer bem e dar a melhor imagem sonora do seu repertório conseguiram o seu objetivo numa noite de vivas: à Bazuuca, às bandas de Braga e à Palestina.

Para mim a maior surpresa da noite surgiu com a atuação das aMijas, um coletivo feminino nascido em 2022 pelas catacumbas do centro comercial Galécia. Desde o rock ao pimba e do pop ao punk, vivem livres e libertas nesta indefinição estas 7 mulheres que fazem parte deste projeto.

O disco de estreia do conjunto bracarense é composto por melodias que juntam guitarras, baixo, bateria, instrumentos de sopro e texturas eletrónicas, unidas por uma cantoria a duas vozes.

As incriveis aMijas | Foto: Pedro Neves

O álbum de estreia das aMijas ainda não está disponível e há muito pouco conteúdo online por isso este concerto foi uma ocasião de privilégio para a introdução ao seu universo. Na primeira fila algumas miúdas vibravam com o passar dos temas e a vibração espalhou-se pela plateia do Palco Bazuuca. Um dos que vibrou intensamente foi Ferna (Bed Legs/Fernando Nunca), ele que já tinha atuado.

Foi com a informação da existência do vídeo de “Mirone Digital” na internet que iniciaram a interpretação deste belíssimo tema.

Pode-se dizer que as aMijas são uma banda do estilo Riot grrrl à moda bracarense com tudo de positivo que isso incorpora. O público ficou a pedir mais só que infelizmente não foi possível, os minutos estavam todos devidamente contados….

A colaboração de Tricla no concerto das aMijas | Foto: Pedro Neves

A atuação dos No!On do duo formado por Marco Pereira e Márcio Alfama foi suada e bem esforçada. Tiveram de lidar com algumas dificuldades técnicas que acabaram por complicar um bocadinho a sua performance.

A noite já ia longa e passei do Palco Mozart para o Palco Bazuuca para o derradeiro concerto da noite. Eram 2:15h quando os Travo iniciaram os seus acordes psicadélicos, foram do agrado geral com muita gente a curtir “milhões”. O crowdsurf e a rebelde agitação do público coroaram a noite e uma atuação cheia de garra proporcionada pelos Travo.

Travo a darem tudo como é seu apanágio | Foto: Pedro Neves

Esta sexta-feira teve uma adesão em número bem impressionante e sabendo os dados fornecidos pela organização posso revelar ter sido uma das sextas-feiras mais fortes desde que o evento passou a ter dois dias.

Jornada 2 – 11 de janeiro (sábado)

Sabia de antemão que esta segunda jornada iria ter uma fortíssima adesão. Bastava ver o cartaz e ter a lembrança dos sábados anteriores da ‘Noite de Reis da Bazuuca’. Efetivamente o Lustre foi banhado com uma onda de público praticamente em numero a duplicar a adesão da noite transata.

A primeira atuação coube a Tricla, uma jovem com bastante energia e cuja identidade está mascarada por entre imensa irreverência juvenil. Ela teve a companhia de Ana Gonçalves das aMijas como musa das batidas.Curiosamente Tricla tinha participado na noite anterior num tema das aMijas.

Uma das boas surpresas: Tricla | Foto: Pedro Neves

“Upa Upa”, “Como ser”, “Casa Amarela” ou “Medusa Caseira” foram temas que ela apresentou numa mistura de rap com hip hop em que as letras foram devidamente debitadas na língua de Camões. Tricla até teve de dar uma olhada ao seu smartphone para não se perder linguisticamente…

Pelo meio um tema de homenagem à Bracalândia, local icónico da cidade de Braga desaparecido há bastantes anos e que me fez lembrar a minha ida a esse espaço de diversões. Tricla tem piada, tem carisma e tem ainda swag suficiente para fazer musicalmente umas coisas giras.

Na abertura do Palco Bazuuca tivemos Palas num concerto dedicado à sua “fadinha Xana” a aniversariante do dia e a pessoa mais especial da sua vida. A última tocada foi “Prazer”, um dos temas já conhecidos. Durante a atuação já deu para ter um ligeiro gostinho do que ai vem, o artista vai lançar com a sua banda um álbum novo no decorrer do ano.

Palas, um dos repetentes no evento | Foto: Pedro Neves

Durante a atuação de Putlex o Lustre fervilhava e pouco passava da meia-noite. Deu para notar num público diferenciado relativamente à jornada inaugural, com muitas caras que não tinham comparecido na noite anterior. A atuação do músico oriundo de Palmeira ficou marcado pela presença de vários convidados. O seu estilo hip-hop/trap ficou bem demonstrado e demarcado.

Com Miguel do Mundo na voz os ritmos dançáveis dos Quadra ganham nova dimensão. Sérgio Alves (baixo), Gonçalo Carneiro (guitarra), Hugo Couto (bateria), Sílvio Ren (guitarra) e Lucas Palmeira (sintetizadores) demonstraram toda a sua vivacidade e com isso provocaram a reciprocidade por parte do público que preencheu o Palco Bazuuca.

A euforia final no concerto dos Quadra | Foto: Pedro Neves

Além de “Perto”, houve lugar para outros novos temas e para a versão de “Paixão” cantada efusivamente. Sem dúvida uma boa vibe criada simultaneamente pela banda e pelo pessoal.

Já depois da 1h da manhã foi a vez de José Pedro Caldas como Mira Quebec unir forças a Afonso Dorido, músico conhecido pelo seu projeto Homem em Catarse e por fazer parte dos Indignu. Atuam poucas vezes em conjunto pelo que foi uma oportunidade generosa e que aproveitei. A parte das batidas ficou a cargo de Mira Quebec, por outro lado Afonso Dorido proporcionou uns generosos acordes com a sua guitarra dando uma pincelada elétrica ao som. A conjugação das duas vertentes soou bastante bem.

Mira Quebec e Afonso Dorido num mix de batida com guitarra | Foto: Pedro Neves

1:59h e estavam todos necessitados do derradeiro concerto da noite. A reunião dos Bed Legs nos últimos anos tem acontecido somente neste evento por isso a expetativa estava alta. Uma coisa é certa: aquela energia contagiante que Ferna costuma imprimir é inequívoca e intemporal. A entrega do público também não faltou aonde o habitual crowdsurf é um elemento essencial.

Eles tocaram música nova, um novo trabalho discográfico está no forno. Já está gravado. Deverá ser editado no decorrer deste 2025. “Back on Track”, um momento mais sereno de balada, contrastou com toda a energia rockeira já libertada e que regressou após o tema. A atuação de Bed Legs foi, facilmente, o ponto áureo das duas noites.

Uma atuação dos Bed Legs é também uma libertação infinita de energia | Foto: Pedro Neves

Foi um gosto enorme pela parte do headLiner termos sido, em mais uma edição, Media Partners da ‘Noite dos Reis da Bazuuca’ e gostamos bastante termos feito parte desta festa. Oxalá seja parte integrante da oferta cultural bracarense por muitos e bons anos, algo que não irei cansar-me de afirmar.

Texto: Edgar Silva

Fotografia: Pedro Neves @ pedronevesphoto (Instagram) | Fotos Oficiais @ Bazuuca

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.