Summer of Hate, xauxau dodô e Smag På Dig Selv: Simplesmente Sensacionais – destaques de quinta e sexta

Dois dos elementos do trio Smag På Dig Selv | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

Entre os recentes dias 8 e 11 de abril, quarta-feira a sábado, aconteceu o Westway LAB, LIVE, MEETING em Guimarães, a nomenclatura iniciada no passado para realçar a vertente tríplex do evento foi reforçada em 2026. LAB pelo significado da criação original artística, LIVE por causa das performances ao vivo e MEETING devido às conferências e encontros de stakeholders do universo da música/cinema. Este ano o grande destaque da vertente profissional do certame foi uma masterclass conduzida pelo realizador de cinema português Rodrigo Areias com o seu homólogo norte-americano Jim Jarmusch.

A minha tradição com este evento, desde 2018, costuma iniciar-se com a presença no Café Concerto do Centro Cultural Vila Flor (CCVF) para as atuações dos showcases dos artistas que estiveram residência artística nos dias anteriores, cerca de uma semana. Infelizmente esta tradição foi quebrada, por motivos profissionais. Não pude ver os showcases que são sempre muito engraçados nem pude, no mesmo dia, dar um salto à Igreja de São Francisco para a atuação de Carlos Maria Trindade.

– Quinta-feira, dia 9 de abril

Temos de nos adaptar às circunstâncias… Assim sendo, o meu dia inicial no Westway LIVE foi na quinta-feira, dia 9 de abril. Desta vez não houve showcases, como era o normal no histórico das quintas-feiras do festival. Houve sim a estreia do ‘The Portuguese Discovery’, uma noite cuja entrada no Café Concerto do Centro Cultural Vila Flor foi gratuita e permitiu dar destaque a três projetos lusitanos: a Ana De Llor, aos Summer Of Hate e aos Sunflowers.

Ana De Llor a apresentar-se em formato duo | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

O motivo para esta rubrica do Westway estar em língua inglesa deve-se ao facto do evento, na sua vertente profissional, receber muita gente importante do universo musical vinda de outros países. Basicamente serve para, de um modo local, dar visibilidade internacional a projetos portugueses. Sinceramente acho que não fez sentido os Sunflowers fazerem parte deste “casting”. Eles já tocam em eventos internacionais com alguma relevância e são atualmente “apadrinhados” pela Fuzz Club Records, editora que lançou o último álbum destes portuenses no ano passado.

Em jeito de crítica construtiva devo dizer que não havia necessidade do uso somente do inglês para comunicar com a audiência presente no Café Concerto. Em especial pelo cicerone da noite, Rui Torrinha, podia ter dado o tom com uma introdução bilingue: uma parte em português e outra em inglês. No Berço da Nação é preciso dar o exemplo. Um “puxão de orelhas” para Ana de Llor e Summer Of Hate. Os Sunflowers escapam carago.

Ana de Llor é uma artista nascida em Lisboa contudo atualmente está radicada em Londres. Apresentou-se em versão duo, teve o apoio de Agon Branza, um DJ que também fez uso de sintetizador. Ana mostrou-se em palco com uma indumentária bem bonita, encaixava mesmo à sua medida, reforçava veementemente os seus traços femininos. Ela interagiu muito com o público, por exemplo, na introdução de “Bullshhh” explicou, de forma expressiva, ser um tema escrito por causa da sua vida romântica. “Nado Assim”, canção cantada em português, faz parte da playlist do headLiner de músicas editadas em 2026, foi muito bem recebida pelo público. Já “Woman, Woman, Woman“ foi uma interpretação colaborativa, a seu pedido, e contou com coros bem afinados por parte do público presente em número bem razoável. Uma atuação de cerca de 50 minutos bem segura e com boas dicas, a voz de Ana de Llor é para ter em atenção.

Ana De Llor a apresentar-se em formato duo | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

Às 22:35 horas entraram em palco os Summer of Hate, projeto surgido entre Espinho e o Porto. Para mim proporcionaram o melhor momento da noite. Até lhes desculpo terem comunicado somente em inglês. A banda é constituída por seis membros: Laura Calado (voz), João Martins (guitarra e teclados), Xavier Valente e Ricardo Fonseca (guitarras), Fábio Pereira (baixo) e Pedro Lopes (bateria). A direção musical e o líder do projeto é João Martins.

Não tiveram uma noite atribulada com diversos problemas técnicos como no concerto anterior deles em que estive presente realizado no Mavy em Braga.

O foco total da atuação foi o segundo disco da banda ‘Blood & Honey’ editado a 30 de janeiro deste ano. Fica como curiosidade, este é um trabalho discográfico dividido em duas partes: o lado ‘Blood’ foi gravado no Haus e misturado por Thomas Attar (AlQasar) e o lado ‘Honey’ foi gravado e misturado por Rafael Silva (Fugly, Miami Flu) nos Estúdios Cisma com masterização por Steve Kitch.

Sexteto Summer Of Hate em palco | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

A setlist desta performance contou somente com faixas desse registo discográfico: tocaram 6 faixas sendo que a única que ficou de fora foi “The Gospel”. Das que tocaram faço os destaques aos temas “El Saif” e “Joy”.

Nota para Laura e para o seu visual bem chamativo, com uma indumentária totalmente branca, uma espécie de vestido de noiva ao qual acrescentou um véu. A sua voz doce e angelical foi o contraste perfeito no meio da descarga elétrica das guitarras.

Já o palco estava adornado com flores, entre as quais rosas brancas, e luzinhas em formato de velas, daquelas baratinhas que se compram no chinês. Tudo para proporcionarem um tom expressivo e visual de complemento às músicas com um travo melancólico criando assim um ambiente mais intimista.

Uma atuação bem polida e muito focada devido à plateia de intervenientes no evento. O som dos Summer of Hate é o shoegaze que a gente respeita.

Laura Calado dos Summer Of Hate em palco | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

Já não há muito mais que possa escrever sobre os Sunflowers que já não o tenha feito ao longo dos anos. Fiéis a si mesmos proporcionaram uma atuação bastante enérgica como é-lhes sempre reconhecido. Carlos de Jesus (voz e guitarra), Carolina Brandão (bateria) e Frederico Ferreira (baixo) apareceram às 23:43 horas equipados a rigor para “limparem’ sonoramente a cidade vimaranense com o seu punk cru e visceral.

O reverb na voz de Carlos é hipnotizante e os seus riffs deixam-nos perdidos da floresta. Já as batidas de Carolina são pedradas no charco, na mesma floresta, com os seus cabelos esvoaçantes a dar-lhe a pinta necessária. Fred no baixo é como um relógio suíço, infalível. ‘You Have Fallen… Congratulations!’ editado no ano passado é um álbum ainda mais eletrizante ao vivo. Aventurem-se!

Sunflowers em palco | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

– Sexta-feira, dia 10 de abril

A primeira paragem, de três em toda a noite, foi no auditório do Teatro Jordão. Gaia Banfi veio a Guimarães mostrar canções do seu mais recente álbum ‘La Maccaia’, o terceiro da sua discografia e acabadinho de editar, mais especificamente no passado dia 4 de abril.

Deste novo trabalho, um dos temas que sobressaiu foi “7”. Além de ter estado em versão duo, houve uns momentos em que a italiana esteve a solo em palco. No regresso do seu parceiro a palco, interpretaram “Congelati”, outro dos seus mais significativos temas.

Gaia trouxe consigo um ajudante, este músico esteve sobretudo focado na percussão. Ambos lidaram com uma panóplia de instrumentos em palco: sintetizador, bateria eletrónica, guitarra e teclados. Banfi fez também uso da sua bonita voz e seu belíssimo timbre italiano. Pese embora toda a parafernália o que sobressaiu foi o imenso minimalismo das suas canções.

Gaia Banfi em palco | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

Às 22 horas, altura em que os xauxau dodô entraram em palco, já me encontrava com alguma expetativa na Nave do Teatro Jordão, a designação chique dada ao espaço inferior fechado que é conhecido como as garagens aonde existem salas de ensaio.

Efetivamente o septeto oriundo de Barcelos não defraudou as minhas expetativas bem positivas. Um belíssimo duelo de sete elementos em palco num claro confronto das percussões com os instrumentos de sopro. A guitarra, o baixo e o teclado são a pitada extra de sal de toda a mescla.

xauxau dodô são André “Blast” (percussão), Gonçalo Cravinho Lopes (baixo), Jorge “Cientista” Carvalho (bateria e voz), José Luís Carvalho (sintetizadores e voz), Maria João Vieira Leite (saxofone e voz), Ricardo Rodrigues (saxofone) e Tiago José (guitarra e voz).

xauxau dodô em palco | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

Na apresentação do álbum ‘bandos e cardumes’ deixaram belíssimos apontamentos num concerto que teve uma boa adesão de público neste que foi o primeiro momento do espaço no festival. “Diz-me com quem vais” foi o momento mais significativo de toda a performance em que a vibe esteve em maré altíssima, tema interpretado de forma animada. Destaque igualmente para “Plantai-as”, o primeiro single que a banda editou, um tema sobre a liberdade e que foi celebrado com empolgamento.

Destaque particular para Maria Leite, a única mulher do septeto. Desdobrou-se entre o saxofone e o uso da sua voz sempre com muito foco, intensidade e com uma visível atitude de desfruto dos temas.

A banda oriunda de Barcelos proporcionou um dos melhores momento de todo o Westway LIVE: os xauxau dodô são Club Jazz à lá moda minhota.

Maria dos xauxau dodô em destaque | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

Scúru Fitchádu é o projeto a solo de Marcus Veiga. Foi o seguinte no alinhamento numa performance que também teve lugar na Nave do Teatro Jordão. Não sou propriamente fã do som deste artista lusitano, já o tinha visto ao vivo no festival L’Agosto em 2019. Ainda assim, antes de percorrer a Avenida D. Afonso Henriques rumo ao CCVF, assisti a uns minutos da sua atuação.

Em versão trio, com o apoio de um DJ e doutro elemento no baixo/teclado eletrónico, Scúru Fitchádu apresentou alguns temas do mais recente álbum ‘Griots i Riots’, editado no ano passado. “Kel karta di alfuria…” ou “Idukasan i saud” foram duas das faixas interpretadas perante um jogo de luzes digno da maior rave party do mundo. O público entrou na onda do artista com vibração e palmas com Marcus Veiga a mostrar aquele jeito gingão e com uma dinâmica inexcedível.

Scúru Fitchádu de regresso a Guimarães | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

A maior surpresa da noite estava mesmo a alguns passos de distância na Box do Centro Cultural Vila Flor, o palco em cima do palco. Com a entrada em cena dos Smag På Dig Selv às 0:18 horas entramos numa dinâmica totalmente diferente. Sem ter informação prévia decidi “provar por mim próprio”. Este trio dinamarquês foi a banda mais refrescante de todo o Westway LIVE.

Thorbjørn Øllgaard (baixo/sax barítono), Oliver Lauridsen (sax tenor) e Albert Holberg (bateria) regressaram a Portugal depois de terem participado no festival Nascentes realizado na Aldeia das Fontes, Leiria em 2025. Um regresso em boa hora para uma performance explosiva e que, claramente, mereceu novos fãs para os Smag På Dig Selv ou SPDS se quisermos abreviar para não passamos “amargos de língua”.

Uma explosão sonora baseada numa mescla de techno com punk e jazz. Thorbjørn e Oliver demonstraram-se imensamente irreverentes tendo até tocado do meio do público com bastante irreverência. A sua atitude e ímpeto desenfreado, deram tudo durante 40 minutos, ajudaram a embalar toda a gente numa performance musculada, vibrante e participativa. Faixas como “Like a Word I Never Knew” e “Hits 4 Kids Vol. 3000” são destaques de uma passagem vimaranense com muito sucesso. Toda a gente que os tinha visto na noite de sexta falava deles no sábado.

Smag På Dig Selv na estreia em Guimarães | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

A partir da 1:23 horas o duo formado por Luís Clara Gomes (Moullinex) e Guilherme Tomé Ribeiro (GPU Panic) apelidado de mxgpu trouxe o seu conceito 360º: palco no meio do público e um jogo de luzes altamente apelativo. A pista de dança aberta rapidamente e melhorou com o pedido de Luís para o pessoal se juntar mais perto do palco intimidade que faltara nos primeiros momentos surgiu de seguida. O conceito funciona tão bem, realmente é visualmente fantástico, não muda há uns anos a esta parte e pela forma entusiástica como o público aderiu nem precisa. O que vai mudando é a essência: novos temas para complementarem os que já existem como “Smalltown Boy” ou “take me home”, dois os interpretados neste fecho de noite.

Três diferentes localizações, três palcos e cinco concertos de propostas bem diversas. Foi a matriz da noite do Westway LIVE numa noite com duas notas relevantes a registar, nomeadamente, os xauxau dodô e Smag På Dig Selv.

mxgpu de regresso a Guimarães | Foto oficial © Paulo Pacheco – AOficina

Texto:
– Edgar Silva

Fotografia:
– Paulo Pacheco – AOficina // fotos oficiais Westway LIVE

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

Ainda sem comentários

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.