
Rumei pela segunda vez, a partir de Guimarães até Paredes de Coura, depois de cumpridas duas situações: descanso regenerador e tarefas inerentes às reportagens realizadas. Esta segunda, uma exigência que tomo de bom grado pese as dificuldades em torno de toda a operação. Realmente com a experiência acumulada dos últimos anos, a tarefa fica mais facilitada de executar é certo. Exigência essa que é mantida nas escolhas dos concertos a assistir para posteriormente conseguir dar uma “pincelada” escrita. Como óbvio sempre com um cunho pessoal nas seleções.
Algo que não referi na reportagem anterior, digno de uma nota em particular, é a via rápida de acesso a Paredes de Coura. Efetivamente este novo troço rodoviário é uma maravilha e facilita imenso quer o acesso à vila como seu abandono. Uma obra de valor que vem auxiliar, não só por alturas do Vodafone Paredes de Coura, como no dia-a-dia dos courenses.
Ao invés do dia anterior, esta quinta-feira estava menos calorenta e com céu encoberto. Até havia na previsão a possibilidade de chuva, certo é que caíram uns pingos tímidos durante a noite, minutos antes de The Walkmen, tão tímidos que não se repetiram. A melhor parte foi o tempo agradável no período noturno. Na noite anterior houve uma acentuada queda da temperatura, já nesta quinta-feira isso não aconteceu, o que foi ótimo para poder estar no recinto só com um hoodie sem sentir desconforto.
Foco agora então aos acontecimentos da segunda jornada, nesta passada quinta-feira, dia 17 de agosto…
Cátia Mazari Oliveira é o nome de uma cantora nascida em Setúbal no ano de 1983 e por estes últimos meses com bastante popularidade. A 2 de abril de 2022 lançou ‘2 de abril’ e a excelência desse álbum fez com que o seu projeto A Garota Não tomasse um rumo à omnipresença nacional com suas canções a tocarem nas rádios nacionais e com imensos concertos esgotados.

A Garota Não sempre fiel a si mesma | mais fotos clicar aqui
Acompanhada por Sérgio Mendes (guitarras) e Diogo Sousa (bateria e percussão) chegou ao Palco Yorn para cantar a sua reflexão à portugalidade, mais relevante do que nunca. Já perspetivava imensa gente para este concerto. Assim aconteceu com imensa gente curiosa, outras já conhecedores e fãs. A Garota Não tem percorrido o país real com as suas canções e a paragem no festival foi mais uma bonita página.
A abertura aconteceu com “Canção Sem Final” e o momento mais emocional foi no final de “Mulher Batida”, Cátia pegou no seu caderno com nomes de mulheres vítimas de violência doméstica e passou página a página. O momento foi acompanhado por sentidas palmas. Ela que tem esta preocupação de chamadas de atenção, as suas letras têm uma forte componente com reivindicações e preocupações sociais.

A Garota Não e a concentração que é-lhe habitual | mais fotos clicar aqui
Desabafou de forma simpática “tanto tempo de aplausos, a roubar tempo de atuação”, ela gosta de comunicar e passar as suas visões ao público tentou não o fazer para que pudesse cumprir o seu alinhamento naqueles curtos 45 minutos. Tentou esse desiderato porém não conseguiu e acabou por não interpretar “No Dia do Teu Casamento” para adiantar e fechar com “Que Mulher é Essa” e “Dilúvio”.
Uma atuação emocional, tanto para os músicos como para o público que a recebeu de braços abertos e efusivas saudações nos finais dos temas.
Aos 32 anos Tim Bernandes é um dos atuais músicos brasileiros de maior cartel a nível global. Além da sua carreira a solo, fez um trabalho muito relevante com os O Terno, banda indie rock brasileira, juntamente a Guilherme D’Almeida e Gabriel Basile. Eles que tocaram no Primavera Sound do Porto de 2019 proporcionaram um concerto bastante aprazível.

Tim Bernardes com uma bonita simplicidade | mais fotos clicar aqui
Tim Bernandes esteve em digressão portuguesa em 2022 por Ílhavo, Ourém, Braga, Figueira da Foz, Lisboa e Porto. Antes disso esteve em tournée pelos EUA com os Fleet Foxes tendo conseguido dessa forma alcançar uma maior audiência para as suas canções. O brasileiro já tinha colaborado anteriormente com Robin Pecknold. Agora retorna a Portugal e traz, mais uma vez consigo, ‘Mil Coisas Invisíveis’ trabalho discográfico lançado no ano transato.
Tim viu-se com uma tarefa grandiosa, a de “encher” o palco principal a solo somente com o seu piano e guitarra. O brasileiro teve uma receção calorosa por parte do público luso e ainda antes das 19 horas o anfiteatro estava muito bem preenchido. Debaixo de um céu nublado e de uma temperatura muito amena.

Público em Tim Bernardes | mais fotos clicar aqui
Tim mostrou-se feliz pela oportunidade tendo soltado um “realmente lindo” referindo-se à paisagem à sua frente. Não há artista que pise aquele palco e não sinta tal admiração.
“BB (garupa de moto amarela)” e “Falta” foram das canções mais recentes de ‘Mil Coisas Invisíveis’ que tocou, numa setlist onde a incrível “Só nós dois” fez parte e foi interpretada de modo bastante tocante. A discografia de O Terno não foi esquecida e “Eu Vou” revelou-se um belo cartão-de-visita para esse seu projeto.
Tim Bernandes vai regressar a Portugal em janeiro de 2024 aos Coliseus de Porto e Lisboa. Serão nessas alturas, oportunidades mais apropriadas para usufruto em condições ideais da sua discografia.
Vindos da Califórnia nos EUA a banda The Brian Jonestown Massacre deu a conhecer alguns dos seus temas. Peça inalterável desde a fundação Anton Newcombe é o vocalista e mentor deste projeto, ele que ocupou um espaço do lado direito do palco num cenário bem preenchido que acolheu mais 7 músicos.

Anton Newcombe dos The Brian Jonestown Massacre | mais fotos clicar aqui
Perante um público imensamente na expetativa e mais concentrado em usufruir do ambiente do que dos seus temas os The Brian Jonestown Massacre tocaram o seu rock psicadélico à moda antiga dos anos 60. Uma atuação sólida porém que não conseguiu elevar os ânimos do público que já preenchia a encosta em bom número.
Um dos grandes nomes desta edição são os The Walkmen. Esta banda é composta pelo quinteto Hamilton Leithauser, Paul Maroon, Walter Martin, Peter Bauer e Matt Barrick.
Esta formação norte-americana retomou recentemente a sua atividade depois de 10 anos sem qualquer atividade. O último concerto em Portugal foi em novembro de 2012 e agora regressam a solo português para um concerto inserido na ‘2023 REVENGE tour’. Uma única data na Europa continental antes de rumarem às ilhas britânicas.

The Walkmen em estreia em Paredes de Coura | mais fotos clicar aqui
No entretanto Hamilton Leithauser dedicou-se à sua carreira a solo, com algum sucesso, ele que tocou os seus temas no Vodafone Paredes de Coura em 2014 num concerto simplesmente espetacular com o palco secundário a abarrotar pelas costuras. “É bom estar de volta” dizia o músico mal pisou o palco.
Logo na entrada Hamilton apresentou os The Walkmen com orgulho como sendo de Nova Iorque. Notou-se durante o concerto, pelas suas palavras que ele guarda com carinho vários momentos do caminho da banda passados naquela cidade. Atualmente os membros estão sediados em diferentes locais.
Deu para perceber que a voz do vocalista mantém-se com todas as suas propriedades em forma impecável, logo na fase inicial da performance deu para percecionar tal em temas como “In the New Year” ou “The Rat”.
Os fãs, eram muitos lá pela parte do fundo mais encostada ao palco, pois entoavam as canções com uma vontade indómita.

Paul Maroon guitarrista dos The Walkmen | mais fotos clicar aqui
Na introdução para “Juveniles”, a primeira música de ‘Lisbon’, Hamilton revelou o porquê do álbum ter o nome da capital portuguesa. Eles vieram a Portugal pela primeira vez em 2008 a Lisboa numa altura difícil, o concerto foi fantástico e foram bem acolhidos tendo feito muitos amigos. Nessa altura até tiveram a oportunidade de passar algum tempo na cidade e que os fascinou. Tocaram duas noites no Teatro Tivoli naquela altura.
“Não os via desde o concerto em Copenhaga em junho. Isto é como andar de bicicleta” dizia Hamilton Leithauser. Os The Walkmen não estão propriamente em tournée e a data anterior tinha sido a 10 de junho na Dinamarca. Até por essa envolvência a atuação do Vodafone Paredes de Coura teve outro impacto. O quinteto chegou “fresco” ao festival e rubricaram uma performance impactante.
As músicas iam-se sucedendo como “Blue As Your Blood” ; “Angela Surf City” ; “Canadian Girl” ou “Wake Up”, esta última a segunda canção que compuseram juntos lá no longínquo ano de 2000. Com este alinhamento o público foi ficando cada vez mais animado. Em “Heaven”, e já na parte final, o público mostrou-se rendido. Houve mesmo uma excelente vibe na parte final da performance.

Walter Martin dos The Walkmen | mais fotos clicar aqui
Depois de “We’ve Been Had”, a última que tocaram ao fim de 1:15h, Hamilton Leithauser desceu ao fosso e cumprimentou os fãs. Foi de uma ponta à outra e saiu pela parte lateral rumo aos camarins.
Loyle Carner é um artista de hip hop oriundo do Reino Unido e foi para mim a maior surpresa da jornada, confesso que é um músico que não fazia parte do meu radar musical. Para minha admiração devo confessar que gostei muito da sua atuação e do seu modo genuíno. Modo esse que acabou por conquistar a audiência com uma simplicidade desarmante.
Logo após as duas primeiras: “Hate” e “Plastic” passei a estar mais “ligado” aos eventos em palco. Além da voz de Loyle chamou-me à atenção o som omnipresente do baixo. Ele e a sua banda desenrolaram um show bastante animado.

Loyle Carner a proporcionar uma noite de luxo | mais fotos clicar aqui
“Angel” foi dedicada a Tom Misch para gáudio da audiência, Loyle que até teve a honra de um amigo do Porto ter ido de propósito para a sua atuação.
Ao filho dedicou “Homerton”, de quem confessou sentir muitas saudades. “Still”, música que compôs e a sua preferida, não faltou na setlist bem como “Ain’t Nothing Changed”. Para término recitou um poema ao bom jeito das rimas em estilo hip hop e desceu ao fosso para oferecer o chapéu e a toalha a uma fã.
O público estava imbuído da mesma onda do artista britânico e por isso a sintonia foi recíproca numa atuação de sucesso e deveras memorável. As pessoas saíram empolgadas.

Loyle Carner com alto-astral | mais fotos clicar aqui
Karin Dreijer é uma artista sueca nascida em 1975. Deu primeiramente nas vistas com The Knife, um projeto que teve em dueto com o seu irmão Olof Dreijer no qual era vocalista. Com o fim desse projeto familiar não terminou com a sua veia artística, até pelo contrário. Prosseguiu somente a solo como Fever Ray, percurso já iniciado durante o período de existência do duo. Nesta sua existência a solo tem uma sonoridade eletrónica muito característica em que a experimentação e o eletropop se conjugam. Ela que no seu último trabalho discográfico teve colaborações dos gigantes Trent Reznor e Atticus Ross. Num dos seus últimos temas tem também a colaboração da lusitana Nídia.
Fever Ray apresenta-se em palco com uma pose teatral em conjugação com as suas acompanhantes em danças coreografadas e pensadas para o espetáculo no qual há um candeeiro ligado no meio do cenário. Esse aspeto proporcionou um toque urbano e subtil à performance.

Karin Dreijer como Fever Ray numa atuação forte | mais fotos clicar aqui
“What They Call Us” e “New Utensils”, as duas primeiras interpretadas, perante uma forte expetativa do público que esperou 40 minutos pelo arranque à 1:40h deste último concerto do dia no Palco Vodafone. Durante esse período não houve concertos no Palco Yorn.
A sueca apresentou-se em formato banda, só com artistas femininas em palco, e que ocuparam as suas funções na bateria eletrónica, nos teclados e coros/dança. As vozes estavam num nível profundo de reverb e que encaixaram num som eletrónico altamente denso.

Fever Ray e a sua trupe feminina | mais fotos clicar aqui
“To the Moon and Back”, “Shiver” e “Kandy” (as duas ultimas do mais recente LP ‘Radical Romantics’) “agarraram” bastante gente à performance contudo houve gente em número significativo que abandonou o recinto durante a atuação de Fever Ray.
Esta quinta-feira, dia 17 de agosto, foi mais uma bonita página na história da celebração dos 30 anos do Vodafone Paredes de Coura neste ano de 2023. Os concertos dos norte-americanos The Walkmen e do britânico Loyle Carner foram os pontos de maior ênfase e que, definitivamente, valeram o preço do bilhete e a comparência.
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Público em Tim Bernardes | mais fotos clicar aqui
Texto: Edgar Silva
Fotografia: Tiago Paiva
