
Tal como os Evols também Miguel Gomes como Chinaskee não pôde tocar no Sobe à Vila de 2022 devido ao cancelamento por causa da chuva. Nesta passada sexta-feira, dia 18 de agosto, Chinaskee em formato banda com Inês Matos, Ricardo Oliveira, Bernardo Ramos e David Falcão fizeram o arranque da jornada diária no Palco Yorn.
Muito menos gente em relação ao dia anterior à mesma hora (18h), ainda assim, os que estiveram lá não se fizeram rogados e curtiram o concerto. Miguel Gomes, o vocalista e guitarrista conhecido como Chinaskee no meio artístico, passou de festivaleiro a atração em cima do palco. Ele que nos dias anteriores cirandava pelo recinto.

Chinaskee finalmente a tocar em Paredes de Coura | mais fotos clicar aqui
Vários músicos portugueses já circulavam pelo recinto logo bem cedo, como foram os casos de Miguel Ângelo, Samuel Úria ou David Santos (Noiserv) que deram uma olhadela bem atenta a este concerto de abertura. Com a malta jovem no mosh, o ambiente efervesceu. Inclusive Chinaskee contribuiu juntando-se e fazendo crowdsurf. O rock de Chinaskee serviu para isso mesmo, aquecer um pouco as hostes.
A fusão de afrobeat com jazz chegou-nos pelas mãos de talentosos músicos unidos em Londres e que dão pelo nome de Kokoroko. Eles que se estrearam em Portugal no Festival Músicas do Mundo em 2019 e viram a pandemia cancelar-lhes a vinda ao EDP Cool Jazz em 2020. Assim sendo, esta foi a sua segunda visita ao nosso país.

Kokoroko com estreia bem positiva no Alto Minho | mais fotos clicar aqui
Soou muito bem a fusão de sons no qual o jazz sai prevalente por entre uma forte componente de percussão. Trouxeram-nos o disco de debute ‘Could We Be More’ e uma das interpretadas foi “Something’s Going On”, por essa altura, já depois de alguns temas tocados, o público já tinha passado do modo de apreciar para ir acompanhando com palmas efusivas. As pessoas apreciaram bastante esta performance e eu não fui exceção.
Três rapazes da capital portuguesa criaram o projeto Expresso Transatlântico e nele cruzam as sonoridades da música popular portuguesa, africana e brasileira. Têm vindo a mostrar o seu trabalho musical desde 2021 e em tão pouco tempo esta formação que juntou os irmãos Varela com Gaspar (guitarra portuguesa) e Sebastião (guitarra elétrica) a Rafael Matos (bateria) já teceram tanto buzz à sua volta que o meu radar os fisgou já há algum tempo. A oportunidade de os ver e ouvir ao vivo finalmente chegara.
Neste concerto o trio teve o apoio de 2 músicos no baixo e trompete/teclas. Música instrumental bastante sensual (o trompete contribuiu de forma decisiva) e ao mesmo tempo com aquele músculo na proporção certa na qual a guitarra portuguesa dá o toque indelével de fado. Uma harmonia de sons vindos de vários quadrantes.

Expresso Transatlântico num dos pontos altos do dia | mais fotos clicar aqui
Os irmãos Varela fizeram questão de revelar que estavam a tocar no festival favorito deles e que era um orgulho muito grande aquela belíssima oportunidade que receberam. Fizeram de tudo para que o momento fosse verdadeiramente especial, para eles e para o público. Efetivamente a ligação ao público foi inegável, a banda cativou e conquistou rapidamente a imensa audiência que lotou por completo o espaço do cenário secundário.
Em “Azul celeste”, o 3º tema tocado, aconteceu a primeira ocasião mais enfática. O Expresso ia a toda a velocidade por entre “Bombália”, o single mais recente, ou “Quando Neptuno deu à Costa”. Na apelidada “Malha do Gaspar” o músico, munido da guitarra portuguesa, ficou sozinho em palco e executou um incrível solo. Em alguns momentos o som que produzem fizeram-me lembrar os Beirut, banda norte-americana de Zach Condon. Eles que também já pisaram aquele palco.

Gaspar Varela, o mais interventivo dos Expresso Transatlântico | mais fotos clicar aqui
“Só mais uma” gritaram algumas dezenas de pessoas depois dos 5 músicos já terem saído. Esse foi o indicador, como que escrito a tinta permanente, certificando a satisfação total.
A chuva já ia fazendo mossa, surgiu bastante cedo, e nunca mais deixou de cair durante o resto da noite. Com mais ou menos intensidade, a espaços foi mesmo um ligeiro dilúvio, complicou (e mesmo muito) vida a todos os festivaleiros que iam circulando na famigerada encosta.
Talentos emergentes nunca são demais e eis que surgem mais uns talentos emergentes. A empolgação agora é com os Thus Love. São oriundos de Brattleboro, uma pequena cidade nos EUA cuja população situa-se na casa das 10 mil pessoas. Echo Mars é o vocalista e toca guitarrista ; Lu Racine é o baterista e Nathaniel van Osdol é o baixista. Eles que se intitulam como “queer post”, tal até foi perfeitamente visível quando Echo e Lu se beijaram numa fase já mais avançada do set.

Echo Mars, o incansável vocalista e guitarrista dos Thus Love | mais fotos clicar aqui
A estreia dos Thus Love em Portugal foi bastante batalhada e suada. Logo à terceira música surgiram problemas técnicos nos pedais e os cabos da guitarra de Echo Mars. Numa primeira fase o músico deixou a guitarra e improvisou juntando-se a Lu Racine na bateria. Os esforços dos roadies não surtiram grande efeito e Echo acabou por contornar o problema. Tocou guitarra como pôde sem recurso aos pedais, e aguentou-se sempre de forma irreverente e persistente. A atuação esteve mesmo em risco, esteve até parada durante cerca de 2 minutos.
“Obrigado pela paciência por continuarem connosco” agradeceu Echo, há que realçar: foram poucos os que desistiram. O trio levou a empreitada até ao final, com maior ou menor dificuldade. Foi bom ter um gostinho do post-punk dos Thus Love, eles que se identificam com queer de forma aberta e libertina. A frustração de Echo Mars foi libertada mal terminaram o derradeiro tema, ele destruiu a sua guitarra logo ali em palco.
As meninas dos The Last Dinner Party foram forçadas ao cancelamento da sua atuação, em seu lugar, surgiram os MДQUIИД. Uma substituição de luxo e que foi de agrado dos festivaleiros. Foram a única banda a tocar entre as 23:15h e as 0h15h pelo que tiveram uma adesão massiva. Nessa altura as pessoas procuraram juntar o útil ao agradável: ficarem abrigadas de chuva enquanto viam um concerto de alta jarda. Por isso a tenda do Palco Yorn ficou lotada ao máximo.

Halison, o baterista dos MДQUIИД | mais fotos clicar aqui
O trio, sempre envolto em muito fumo, dificultando até os fotógrafos, não desacelerou em momento algum. Pode-se dizer que providenciaram uma sessão hipnótica.
Eles que são ainda novos no panorama nacional, só surgiram no final de 2021, são um formato power trio com João na guitarra, Tomás no baixo e Halison na bateria/voz.
Meia-noite e 15 minutos. A chuva não desarmava e milhares de resistentes estavam focados no que vinha a seguir: Black Midi. Apesar da chuva torrencial, a juventude estava lá na frente está imune a tudo. Pelo menos, pelo seu jeito descomprometido, assim parecia.

Geordie Greep, o frontman dos Black Midi | mais fotos clicar aqui
Logo na abertura “Welcome to Hell” e durante 1 hora de espetáculo tocaram temas como “Dethroned” ou “Slow”. O seu indie-rock é uma amálgama potente de sons, fazem lembrar umas voltas numa montanha russa tal é a mixórdia de géneros.
Estes britânicos saíram ao som de “Wonderful Life”, música dos Black. A juventude, alguns já nem tanto, saíram desta performance certamente com sentimentos contraditórios sobre esta “vida maravilhosa”: um concerto muito bom debaixo de condições atmosféricas miseráveis.

Cameron Picton, o baixista dos Black Midi | mais fotos clicar aqui
Uma espera “abençoada”, já de madrugada, nuns longos 35 minutos não é realmente para todos. Eram praticamente 1:50h e os resistentes eram premiados com a entrada de Little Simz, artista britânica na sua estreia no Alto Minho. Logo de assentada “Silhouette”, “No Merci” e “Two Worlds Apart” são “disparadas” de rajada para deleite de uma assistência desenfreada.
O público adotou o lema de outras andanças: “A chuva para nós é sol” : pularam, dançaram e cantaram como se não houvesse amanhã… Nem chuva torrencial.
Em “Heart on Fire”, a 5ª canção interpretada, desceu ao fosso e cantou com os fãs. As chamas que passavam no ecrã do palco não davam sequer para “wishful thinking”. Logo de seguida Little Simz pergunta se querem elevar a energia e a resposta é positiva no arranque para “101 FM”.

A rapper Little Simz em grande estilo | mais fotos clicar aqui
Little Simz dominou o palco como poucos artistas o conseguem fazer. O público delirou por completo e desfrutou ao máximo do espetáculo.
Por entre temas marcantes como “Venom” e “Introvert” surgiu uma composição nova recebida calorosamente. Até ao final houve ainda tempo para “Gorilla” ou “Woman”.
A atuação notável de Little Simz tornou o concerto inesquecível, pelas circunstâncias atmosféricas agrestes, a ocasião foi amplificada. Nestas alturas vive-se o momento com mais emoção e dedicação.
Com o agravamento das condições a assistência ia, naturalmente, diminuindo. A chuva intensa complicou a vida a toda a gente, isso acabou por afetar na afluência do público. Parece que Vodafone Paredes de Coura sem chuva, é festival sem bênção. Causa bastantes constrangimentos, tanto no recinto como na zona do acampamento. As alterações climatéricas têm mudado o nosso ritmo de vida obrigando-nos a uma adaptação contínua. Assim terá de o ser em todos os aspetos. Mesmo até quando concerne aos festivais e a outros eventos ao ar livre. Ora seja calor extremo ou chuvas inóspitas. Para mim, neste 2023, a chuva acompanha-me como fiel companheira. Depois do Primavera Sound no Porto agora no Vodafone Paredes de Coura, quem corre por gosto acaba por se sujar na lama (risos).
Foto-reportagem completa deste dia: Clicar Aqui

Público não regateou esforços mesmo debaixo de chuva intensa | mais fotos clicar aqui
Texto: Edgar Silva
Fotografia: Tiago Paiva
