
Alex Kapranos dos Franz Ferdinand em modo voador | mais fotos clicar aqui
Inevitavelmente à entrada para esta última jornada, de quatro longos e excitantes dias de Vodafone Paredes de Coura vem desde logo associada um misto de nostalgia e alegria. Nostalgia devido ao sentir o fim de uma aventura espetacular em Coura por entre concertos incríveis e memórias que vão perdurar no tempo. A alegria decorre da interiorização de ter vivido dias fantásticos e tudo ter corrido bem. São já 4 anos consecutivos a ir ao festival e já não concebo o meu querido mês de agosto sem o festival na agenda.
Mais uma vez o festival serviu para rever ao vivo bandas que aprecio imenso como foi o caso dos Linda Martini, Cass McCombs, Perfume Genius, DIIV e King Krule. Deu também para fazer a minha estreia com Vampire Weekend, Portugal. The Man, Lambrini Girls, Black Country, New Road e Franz Ferdinand.

Alvoroço do crowdsurf durante em Franz Ferdinand | mais fotos clicar aqui
Fim de festa de coração cheio pelos imensos momentos incríveis que vi de todas essas bandas e por mais uma incrível vivência. Igualmente pela exigência que é ir em trabalho e pautar em texto todas essas ocasiões, registos escritos e publicados logo imediatamente no dia seguinte. Esta é uma exigência que tenho agarrado com imenso gosto sendo totalmente diferente daquilo que realizo no dia a dia. Acontece apenas duas vezes anualmente, outra é durante o Primavera Sound Porto.
Dia 4 – sábado, 16 de agosto
Um palco repleto de talentos nacionais no debute deste último dia de Vodafone Paredes de Coura com os Cassete Pirata, uma formação com António Quintino (artista que colabora em diversos projetos)no baixo, Joana Espadinha nos teclados e voz, João Pinheiro (faz também parte dos SAL) na bateria, Margarida Campelo nos teclados e voz e João Firmino na voz e guitarra.
O excelente álbum de 2024, ‘A Família’, teve uma apresentação calorosa, a coincidir em pleno com o clima sentido durante todo o festival.
Letras brancas em fundo vermelho “Stop the genocide” estavam inicialmente no ecrã. Durante a performance foram mudando de cor, tanto a mensagem como a cor de fundo.

Cassete Pirata em palco | Foto oficial Vodafone Paredes de Coura @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
Um projeto já com créditos firmados na cena indie portuguesa “bebe” inspiração no rock e no pop e tem vindo a construir um percurso sólido desde 2016.
“Ferro e Brasa” marcou o primeiro momento ultra animado com alguma poeira a esvoaçar pelo ar. A onda de alto astral viajou até “A Próxima Viagem” com coros bem afinados.
Já “Outro Final Qualquer” foi dedicada a alguns amigos na plateia dos Cassete Pirata com a referência, e o devido agradecimento pelo apoio e por terem estado no primeiro concerto da banda.
“Tanta Vida Pra Viver” ou “Só Mais Uma Hora”: dois títulos tocados e que podiam servir de referência à últimajornada do Vodafone Paredes de Coura.
Uma bonita recordação para os Cassete Pirata está performance vista por imensa gente ocorrida no Palco BacanaPlay.

Visão do recinto do palco secundário durante Cassete Pirata | Foto oficial Vodafone Paredes de Coura @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
Ana Faria Fainguelernt, artisticamente conhecida por Ana Frango Elétrico, o nome engraçadinho de palco é um trocadilho gozador com o sobrenome da família, Fainguelernt.
A compositora, poeta, artista visual e produtora musical brasileira tem já uma carreira sólida no seu país de origem. Tem vindo a Portugal diversas vezes nos últimos anos onde as suas músicas são também apreciadas.
Longa intro musical proporcionada pela banda antes da entrada em cena da artista brasileira. A primeira foi “Coisa Maluca”, outras escolhidas foram “Dela”, “Camelo Azul”, “Insista em Mim” ou “Mulher Homem Bicho” por exemplo.

Ana Frango Elétrico e “A Sua Diversão” | mais fotos clicar aqui
Ana além dos seus recursos vocais também tocou um pouco de teclado e esteve demonstrou-se sempre bastante mexida e descontraída.
Música vinda dos trópicos e que teve uma receção acolhedora de um público que se foi mostrando bastante empolgado pela performance da artista brasileira.
A música de Ana Frango Elétrico é refrescante e soa muito bem por entre um pop rock moderno com influências de jazz e MPB.

Ana Frango Elétrico com a sua banda na sua “Nuvem Vermelha” | mais fotos clicar aqui
Julia Shapiro (guitarra/voz), Lydia Lund (guitarra), Annie Truscott (baixo) e Gretchen Grimm (bateria) são o quarteto Chastity Belt. Originário de Walla Walla, localidade pertencente a Washington nos Estados Unidos da América.
Começaram com “Belt Hollow”. Mais adiante tocaram “Fear” e “Different Now”, por exemplo.
Indie rock de ritmo melancólico e meloso Para desfrutar destas canções é necessário um estado de espírito mais introspetivo. Veio em contraponto à vibe sentida pelo recinto.
Este concerto no Vodafone Paredes de Coura foi o primeiro em Portugal, também o arranque da tournée europeia deste verão.
A banda norte-americana rubricou uma performance competente porém não exuberante perante um público bastante expectante.

Lydia Lund das Chastity Belt | mais fotos clicar aqui
Os DIIV não tocavam em Portugal desde o excelente concerto no Primavera Sound Porto em 2022. Repetiram a presença no Vodafone Paredes de Coura, tinham estado na edição de 2018.
A banda do vocalista Zachary Cole Smith percorreu, numa setlist sem surpresas, os quatro álbuns da banda.
Andrew Bailey (guitarra), Colin Caulfield (voz/baixo) e Ben Newman (bateria) são os restantes músicos. Bailey e Caulfield sempre bastante expansivos.
Incrível interpretação de “Taker”, foi deliciosa. Já em “Blankenship” o crowdsurf foi natural numa ocasião em que a atuação estava em “ponto de rebuçado”.

Zachary Cole Smith dos DIIV | mais fotos clicar aqui
Luzes mais vezes fixas do que em movimento deixando toda a componente visual para os vídeos que iam passando no ecrã de palco por detrás da banda. Foram exibidos vários vídeos nos interlúdios das canções. Fortes mensagens sobre a sociedade e o seu estado atual, por exemplo. Também sobre saúde metal, um dos temas versa fortemente sobre essa situação, refiro-me particularmente a “Soul-Net”.
Fica agora aqui uma palavra de admiração para o guerreiro Zachary Cole Smith cuja vida pessoal tem sido uma verdadeira montanha-russa emocional. Em 2017 recuperou-se de problemas com drogas. Já no início deste 2025, numa fase em que aguardava o nascimento do seu segundo filho, perdeu tudo nos fogos de Altadena na Califórnia que destruíram a sua casa de família.

Colin Caulfield dos DIIV | mais fotos clicar aqui
Este e outros temas do mais recente álbum, ‘Frog In Boiling Water’, foram igualmente interpretadas: “In Amber”, “Brown Paper Bag” e “Reflected”. A faixa que dá o título ao disco também.
Tocaram “Doused”, uma das canções mais marcantes do repertório dos DIIV, no final. Um tema emblemático, que em Portugal foi utilizado em 2013 num spot publicitário para televisão pela então ZON (agora NOS).
Um concerto recebido e acompanhado com bastante entusiamo ou não houvesse bastantes fãs em Portugal e igualmente um pouco por toda a Europa. Excelente atuação do quarteto norte-americano.

Visão da encosta do Couraíso durante DIIV | mais fotos clicar aqui
Atualmente as Hinds são Carlotta Cosials (vocalista e guitarrista) e Ana García Perrote (vocalista, guitarrista e teclista). Elas são as mentoras desta formação. Ao vivo contam com a colaboração da baixista Paula Ruiz e da baterista Maria Lazaro.
Curiosidade: este projeto só passou a chamar-se Hinds a partir de 2015. Até então o nome era Deers só que uma disputa judicial com uma banda canadiana apelidada de The Deers obrigou à mudança e à terminologia atual.
Perrote recordou os bons tempos que passou pelo Vodafone Paredes de Coura 10 anos atrás e veio de Madrid com o feeling em alta e desejosa de chegar ao Alto Minho.

Ana García Perrote das Hinds | mais fotos clicar aqui
‘Viva Hinds’ é o disco mais recente, editado em 2024, estava em pleno destaque no ecrã principal com uma animação bem gira.
Garage rock, garage pop e lo-fi são os estilos musicais que inspiram estas artistas espanholas oriundas de Madrid.
“Boom Boom Back” marcou o arranque desta atuação bem colorida e descontraída que teve pelo meio “Stranger” e “Good Bad Times”. Nota muito positiva para as Hinds que abandonaram o palco ao som de “Hello” de Martin Solveig.

Carlotta Cosials das Hinds | mais fotos clicar aqui
Ao sétimo álbum de estúdio, a cantora e compositora Sharon Van Etten reúne uma banda à qual foi apelidada de The Attachment Theory. A banda é constituída pelos colaboradores de longa data: Jorge Balbi na bateria, Devra Hoff no baixo e Teeny Lieberson nos sintetizadores. Tiveram o auxílio de um elemento extra no teclado.
“Live Forever” servida à hora de jantar para início de refeição porém a encosta estava preenchidíssima.
“Idiot Box” deste último álbum foi executada bem como “I Can’t Imagine (Why You Feel This Way)” ou “Southern Life (What It Must Be Like)” só para citar mais três das amostras.

Sharon Van Etten de regresso a Portugal | mais fotos clicar aqui
Van Etten soube puxar pelo público e este foi correspondendo de forma assertiva. Houve muita gente a marcar presença neste sábado de festival precisamente por causa da sua exibição.
Não falharam também na setlist alguns dos temas da restante discografia como “Anything”, “Everytime The sun Comes Up” ou “Seventeen”, por exemplo.
Esta aparição no Vodafone Paredes de Coura marcou o debute da tournée de agosto de Sharon Van Etten & The Attachment Theory pelo velho continente.

Sharon Van Etten e Devra Hoff | mais fotos clicar aqui
Um concerto a rever, sem margem para dúvidas, num espaço fechado numa sala de espetáculos com a devida excelência para outro nível de impacto.
Uma performance com a marca de qualidade de Sharon Van Etten, artista multifacetada e de uma experiência insuspeita. A norte-americana cantou, tocou teclado e guitarra. Os calejados músicos da The Attachment Theory conferem uma excelsa ao “pacote musical” de Sharon.

Devra Hoff | mais fotos clicar aqui
‘Too Cold To Hold’ é o álbum de 2024 dos Warmduscher e aquele que os puxou para um patamar mais elevado de reconhecimento. Eles que surgem de um cruzamento de elementos dos Fat White Family e Paranoïd London.
Um regresso ao Minho depois da participação no festival Milhões de Festa na cidade de Barcelos em 2018, essa foi a última edição desse saudoso evento.
São apelidados da banda “mais excêntrica do Reino Unido” liderados pelo vocalista e frontman Clams Baker Jr, ele que lidera esta formação. Esteve bastante ativo durante toda a atuação.
Atuação dos Warmduscher no Palco BacanaPlay entre o estado morno e quente. Apesar do seu irreverente post-punk, os ânimos iam estando em lume brando acendendo-se mais vivamente aqui e acolá.

Clams Baker Jr dos Warmduscher | mais fotos clicar aqui
O vocalista Alex Kapranos e o baixista Bob Hardy são os sobreviventes da formação de origem dos Franz Ferdinand. A eles juntaram-se Audrey Tait na bateria, Julian Corrie nos teclados/guitarra e também Dino Bardot na guitarra.
O início do concerto coincidiu com a queda de algumas gotas de chuva bem espessas. “Matinee” a canção escolhida para debute de concerto a que se seguiu “Night Or Day”.
Lançado em janeiro deste ano, ‘The Human Fear’,é o mais recente disco cuja estreia ao vivo teve lugar, no passado mês de fevereiro, na Aula Magna em Lisboa. Eles são já “velhos clientes” do nosso país, já percorreram todos os maiores festivais nacionais.

Alex Kapranos dos Franz Ferdinand | mais fotos clicar aqui
“Sabia que vocês iam ter boa energia esta noite” afirmou Kapranos numa fase do concerto aonde ainda não tinha sentido o seu expoente máximo.
Em “Do You Want To” a energia efervescente materializa-se com um massivo momento de enorme festança na frontline. Já “Walk Away” soou fantástica e foi pontuada por coros e um acompanhamento emocional por toda a plateia, de baixo a cima.
O incontornável hit “Take me out” foi brutal e foi a altura escolhida pela maioria dos fãs para os lives para as redes sociais.

Durante cerca de uma hora e vinte minutos os escoceses Franz Ferdinand tocaram os seus temas mais predominante não tendo esquecido outros como “Jacqueline” ou “Michael” do incrível álbum homónimo de 2004. Dos mais recentes, editados em 2025, destaque para “Hooked” e “Audacious”.
Como era o dia de aniversário de Bob Hardy, a pedido de Alex toda a gente cantou os parabéns ao baixista.
Este quarteto escocês já passou por Coura em duas ocasiões distintas, em 2009 e 2014. Nesta terceira ocasião, ocorrida nesta edição de 2025, a performance foi brutalíssima tendo superado completamente a minha altíssima expetativa.

Visão do palco durante Franz Ferdinand | mais fotos clicar aqui
Não há qualquer dúvida: o ambiente e a vibe de Paredes de Coura é totalmente diferente de todas as outras em eventos do mesmo género. Foram dias e noites com concertos maravilhosos a par dum público que entrega toda a sua alma e coração aos seus artistas prediletos. Ano após ano tal repete-se com a frequência e uma abrangência enternecedora. Por isso é que “regressamos a casa” quando chegamos ao festival e que temos o evento na cabeça durante um ano inteiro.
Segundo a organização o evento registou mais de 120 mil entradas pelo bonito pórtico de passagem para o recinto. Das várias conversas que fui tendo ao longo dos dias percebi que a minha opinião, em diversos aspetos, coincide com a de mais pessoas. Foram pessoas a mais durante todos os dias, mesmo aqueles em que a lotação não registou o nível de esgotada.

Linha da frente durante Franz Ferdinand | mais fotos clicar aqui
A fluência no recinto não estava tão agradável como em anos anteriores, a vivência festivaleira fez-se de forma menos confortável em vários níveis. Um das situações mais aborrecidas é mesmo o desafio de assistir um concerto em condições ideais no palco secundário. A cabine de som ocupa demasiado espaço, os stands de venda de bebidas idem aspas e retiram capacidade ao espaço. Acresce à problemática de ser um espaço com enormes árvores. Ser um palco sem o apoio de ecrãs a transmitirem o concerto também não ajuda.
Com concertos em horários sem sobreposições, por muito que as pessoas queiram ver todos as atuações, tal acaba por ser na prática uma missão impossível.
Com a lotação máxima superior (outrora limitada a 25 mil pessoas por dia), por consequência, aceder às zonas de restauração é uma tarefa largamente mais árdua e demorada Os WC deviam ter manutenção com mais regularidade durante a noite para assegurar condições mínimas de higiene. Por exemplo, vi torneiras a verter água e a inundarem o espaço com o desperdício a que isso acarreta.

Visão do palco durante Franz Ferdinand | mais fotos clicar aqui
Quem pensa e decide as questões do festival tem de refletir bem no que quer para o futuro: boa qualidade de vivência do festival vs maior receita de bilheteira. No passado a organização gabou-se de ter um evento de excelência, em todas as vertentes. Pelo que vi e ouvi este ano não foi esse o caso.
O Vodafone Paredes de Coura voltará entre 12 e 15 de Agosto de 2026 para celebrar novamente a música e a amizade no Couraíso. São estas as datas para a próxima edição e o feriado nacional de cariz religioso de dia 15/08 calhará ao sábado, para alguns dos fãs do festival que não tenham férias certamente dará pouco jeito.
Reportagem fotográfica concertos: Clicar Aqui

A linha da frente em Sharon Van Etten | mais fotos clicar aqui
Texto:
Edgar Silva
Fotografia:
Ana Lourenço @ blackphant.stage (Instagram)
Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography @ fotos oficiais Vodafone Paredes de Coura
