Simbiose de devoção e dedicação entre Idles e fãs: o generoso tsunami britânico arrasou em cheio – Dia 3 do Vodafone Paredes de Coura 2024

O irreverente Joe Talbot dos Idles | mais fotos clicar aqui

Ao contrário do que esperava, no arranque para o terceiro dia do Vodafone Paredes de Coura ocorrida nesta última quinta-feira dia 16 de julho, o cansaço era bem menor. Isto de ficar até altas horas da madrugada no recinto tem que se lhe diga… Já depois de ter abandonado Sprints tive ainda de fazer uma viagem de 1 hora. Pela primeira vez tenho ficado até mais tarde, uma exigência provocada pelo novo escalonamento dos horários e que se esticam madrugada adentro.

A saída a partir da Cidade Berço ocorreu bem mais de 30 minutos depois da hora inicialmente pensada. Dado este atraso já não foi possível chegar a tempo dos Conferência Inferno, deu ainda para espreitar Branko na abertura do Palco Vodafone. Chegar cerca de 1 hora mais tarde do que o habitual permitiu-me ter uma nova perspetiva sobre os fluxos de pessoas e do trânsito. Realmente tudo é bem mais movimentado a partir das 18h.

O português João Barbosa, cujo nome artístico é Branko, apresentou-se em formato trio com outros dois músicos. Estreou este novo formato no palco principal do Vodafone Paredes de Coura.

Branko e a satisfação de estar neste enorme palco | mais fotos clicar aqui

A adesão ao recinto revelou massiva logo nas primeiras horas desde a abertura de portas portanto o artista lusitano teve uma bela moldura humana no anfiteatro natural da Praia Fluvial do Taboão.

“Found My Way”, “Hear From You” e “Tudo Certo” foram alguns dos temas tocados em forma bem desportiva. Em “Reserva Pra Dois” tivemos a presença virtual de Mayra Andrade. Assim também o foi em outras ocasiões, com outros artistas, durante a atuação.

A eletrónica de Branko foi bastante versátil. Com os seus sons bastante sensuais e dançáveis fez um apropriado concerto de receção aos festivaleiros em jeito de ritmo sunset.

O cantor e produtor Marcus Brown estreou-se em Portugal e trouxe o seu álbum de debute ‘Erotic Probiotic 2’. Este Norte-americano oriundo de Baltimore, cujo nome artístico é Nourished by Time, atuou a solo recorrendo ao seu portátil que fez de “caixinha mágica de sons”, ao teclado e à sua voz. Vislumbramos auditivamente uma mistura de new wave, R&B e dance.

Nourished by Time em ritmo dançante | mais fotos clicar aqui

Um palco, duas máquinas, uns passos de ballet e outros de discoteca. A simplista descrição da pose do artista e instrumentos em palco. Disse que não foi fácil chegar ao nosso país por causa de greves em companhias aéreas porém mostrou-se solidário com as lutas laborais. Revelou-se satisfeito por conseguir marcar presença e poder tocar o seu repertório

“Hand On Me”, “Rain Water Promise”,  “Shed That Fear” e “Hell of a Ride” foram alguns dos temas apresentados numa performance serena, descontraída e compenetrada.

Miles Michaud é o vocalista, o baixista é Spencer Dunham, o guitarrista principal é Pedrum Siadatian e o baterista é Matthew Correia. Eles são os Allah-Las. Nesta atuação contaram com apoio de um teclista.

Regressaram ao Vodafone Paredes de Coura quase 10 anos volvidos da primeira aparição ocorrida em 2015.

Visão dos Allah-Las em palco | mais fotos clicar aqui

Aquele “Correia” de Matthew vem das suas origens cabo-verdianas onde nasceu o seu pai, não é de origens nacionais.

Alguns dos seus membros conhecem-se desde os tempos de liceu, mas foi numa loja de discos – mais concretamente, na Amoeba Music, em Los Angeles – onde trabalharam e decidiram começar eles próprios a fazer música.

“Jelly”, “Right On Time” e “The Stuff” foram tocadas e são algumas das mais recentes e que fazem parte do álbum ‘Zuma 85’ editado no decurso de 2023.

Matthew Correia na bateria dos Allah-Las | mais fotos clicar aqui

As vibes positivas que emanaram do seu som altamente condizente com a fase veraneante, atualmente vivida em doses exageradas, foram relaxantes e permitiu um bonito encontro com o repertório destes norte-americanos oriundos de Los Angeles.

O seu surf rock encaixou perfeitamente neste lindíssimo final de tarde de verão perante uma maré de gente no palco secundário à procura das sensações frescas provocadas pelas ondas sonoras de canções como “Sacred Sands”, “Polar Onion” ou “Sandy”.

Allah-Las no seu regresso a Paredes de Coura | mais fotos clicar aqui

Charlyn Marie “Chan” Marshall, cantora de 52 anos, artisticamente é conhecida como Cat Power. Não permitiu qualquer registo multimédia pelo que a nossa repórter fotográfica não pôde fazer qualquer registo da sua performance.

A sua atuação dividiu-se em duas partes totalmente opostas, na primeira foi bastante calmíssima onde esteve só acompanhada por guitarra clássica. Mais tarde entrou o resto da banda e o repertório alterou-se consideravelmente passando a um ritmo musicalmente mais mexido transfigurando a sua performance. Até o próprio público em número de muitos milhares, que esteve bastante sereno e até silencioso durante grande parte do tempo, terá arrebitado consideravelmente.

Público em Allah-Las | mais fotos clicar aqui

Cat Power, tal como tantos outros músicos, politizou a sua presença com uma clara e visível mensagem na parte traseira das suas vestimentas: “Fuck War”. Foi por essa razão que ficou de costas para o público diversas vezes. Já a sua performance, sem surpresas, focou-se em versões de Bob Dylan.

Em 2023 editou um álbum intitulado ‘Cat Power Sings Dylan: The 1966 Royal Albert Hall Concert’, uma atuação gravada ao vivo, no qual a artista norte-americana quis recriar, com o seu óbvio toque, aquele concerto de Bob Dylan no longínquo ano de 1966. Terá deixado muita gente com “mixed feelings”, sobretudo para fãs de longa data de Cat Power.

Luís Nunes apresentou-se com o seu projeto a solo Benjamim, ele tocou piano, também tocou com guitarra clássica, e fez uso do seu timbre vocal facilmente reconhecível.

Esteve muito bem acompanhado. Trouxe consigo cinco músicos tendo assim formado banda completa dos quais destaco Raquel Pimpão (Femme Falafel) e João Correia. Realce para o apoio de dois teclistas extra.

Benjamim a desfrutar desta oportunidade única | mais fotos clicar aqui

Contou ainda com o amigo Samuel Úria como convidado especial numa fase mais adiantada da performance em “Os Raros”.

Revelou-se diferenciada do seu mais habitual a solo, esta a atuação que realizou no palco secundário do Vodafone Paredes de Coura. O público apareceu em força e apoiou o artista lisboeta e todos em conjunto criaram um momento bem bonito e que ficará na memória do músico português. “Momento mais feliz do meu ano” assim o referiu Benjamim sobre esta presença.

Dos clássicos interpretou “Volkswagen” e “Vias de Extinção” só para citar duas escolhidas para este concerto.

Raquel Pimpão no teclado | mais fotos clicar aqui

22:30/23h foi uma fase na noite bastante intensa pelo recinto, com imensa gente, as normais dificuldades de movimentação começaram a fazerem-se sentir. Comparativamente aos outros dois dias, provavelmente este foi o que teve o maior número de pessoas dentro do recinto.

Aos 25 anos de idade, Marie Ulven Ringheim, tem já uma carreira sólida de alguns anos como girl in red. Regressou a solo lusitano depois do estrondoso concerto no ano passado em Lisboa no NOS Alive.    Nesta segunda vez em Portugal, assim que chegou a Paredes de Coura sentiu uma boa vibe, lá revelou durante a sua atuação.

Iniciou com “Doing It Again baby” e à segunda canção, “Bad Idea” já despia a camisola. O fogo-de-artifício deu um impulso extra e completou o cenário de si já bastante colorido logo durante as primeiras canções.

girl in red rodeada por foto-de-artificio | mais fotos clicar aqui

“Sou lésbica e esta música é sobre isso” assim foi apresentado por girl in red no arranque para “girls”, ela que optou por uma atitude bastante comunicativa o que facilitou à interação com os seus muitos fãs cuja óbvia presença foi visualizada mesmo naquele espaço entre a cabine de som e o palco.

Em “dead girl in the pool” os fãs saltaram efusivamente fazendo a vontade à irrequieta jovem cantora, depois em “I’m Back” dedilhou o seu piano enfaixado num belo móvel encarnado. Marie foi coadjuvada por uma banda bastante competente, algo que devo sempre referir pois nenhum artista é só por si uma ilha, é todo um trabalho de equipa do qual a personagem principal sai com a melhor imagem possível.

Visão do palco em girl in red | mais fotos clicar aqui

Um dos momentos mais significativos aconteceu na passagem por “we fell in love in october” em que sentiu-se a energia certa entre fãs e a artista norueguesa. Uma atuação construída a pulso e recebida efusivamente por milhares de fãs que marcaram presença.

A atuação finalizou com “i wanna be your girlfriend” e estou certo que os fãs da artista terão ficado satisfeitos com a atuação. O pop-rock florido afinal também assenta bem no Vodafone Paredes de Coura fazendo as delícias de um público mais jovem, muitos até aproveitam para efetivarem presencialmente a descoberta deste festival.

girl in red na sua estreia no Alto Minho | mais fotos clicar aqui

Os Idles repetem a passagem pelo norte do país depois do concerto na Super Bock Arena no Porto no último mês de fevereiro. Dois anos depois regressam ao Alto Minho, algo desejado por todas as partes: organização e banda. Provavelmente se o João Carvalho tivesse uma conversinha com eles não duvido que aceitassem fazer parte do festival todos os anos. Outra convicção que tenho é que o dia deles seria sempre de casa repleta.

A entrada fofinha dos Idles à 1:55h no palco principal do Vodafone Paredes de Coura com “IDEA 01” parecia a acalmia antes da tempestade. Os milhares que lotaram a anfiteatro natural da Praia Fluvial do Taboão estavam em modo de corredor de atletismo à espera do disparo para serem os primeiros a cortar a meta 100 metros depois. Efetivamente houve muita correria e loucura logo a partir de “Colossus”, o segundo tema interpretado. Instalado o caos daí até final.

Mark Bowen dos Idles | mais fotos clicar aqui

Mark Bowen (guitarrista); Adam Devonshire (baixista); Jon Beavis (baterista); Lee Kiernan (guitarrista) e para o fim cito finalmente o irreverente vocalista Joe Talbot. Ele que é o primeiro agitador das marés, sendo extremamente acompanhado por Mark e Lee. Tanto o baixista como o guitarrista fizeram um incrível crowdsurf ao mesmo tempo para deleite de todos os fãs. Bowen começou logo em “Gift Horse” num tema em que a encosta esteve parcialmente dividida a meio antes do pessoal fazer imensas rodas vivas.

“Olá” e “obrigado” eram palavras usadas amiúde por Talbot, em bom português, como meio de ligação e agradecimento aos fãs. Notou-se em Joe satisfação e alegria pelo retorno a Paredes de Coura, algo extensível aos outros membros da banda.

Jon Beavis dos Idles | mais fotos clicar aqui

No arranque para “Mother”, o vocalista Joe Talbot dedicou-a à sua amiga Cat Power, ela que tinha pisado o mesmo palco horas antes. Já em “I’m Scum” revelou ter sido escrita há longo tempo numa altura em que andava perdido e diziam que ele era escumalha. Longe vão esses tempos pois claro. Foi aos fãs e à Palestina. “Free Free Palestine” foi, por diversas vezes, entoado pelo público. Uma causa à qual Joe é também solidário.

‘TANKK’ editado a 16 de fevereiro de 2024 foi devidamente mostrado, a par com temas dos álbuns anteriores, sendo que das mais recentes cito a interpretação de “Gratitute” e “Dancer”. Pelo meio a épica “Danny Nedelko” surgiu e dedicada aos emigrantes.

Lee Kiernan dos Idles | mais fotos clicar aqui

“Não vamos tocar essa hoje, manda uma mensagem pelo Instagram e vou a tua casa toda” disse Joe em resposta a alguém que pedia um determinado tema, qual não me apercebi. Terá dito em jeito de brincadeira porém será melhor o fã tentar a sua sorte…

“Este trabalho é um privilégio, por vossa causa é uma dádiva” afirmou Talbot algo sentimental e com profundo sentimento de gratidão. A enorme prestação dos Idles, a entrega e aquele vigor punk rock misturadas com letras expressivas e significativas fazem com que a sua base de fãs continue em crescimento em Portugal. São realmente um fenómeno.

O regresso dos Idles ao palco principal dois anos depois | mais fotos clicar aqui

O cansaço e a viagem de regresso seguiu-se a este brutal concerto dos Idles pelo que, com muita pena minha, tive de passar as atuações dos Mdou Moctar de Mahamadou Souleymane (ainda não foi desta…) e dos neerlandeses Tramhaus (felizmente vi-os ao vivo no Basqueiral deste ano). Esta é a parte negativa da programação, que se estende por longas horas quase até o sol raiar obriga a fazer esta opção pois um homem não é de ferro e necessita o seu devido descanso.

Reportagem fotográfica: Clicar Aqui

Reportagem fotográfica ambiente: Clicar Aqui

Frontline em Branko | mais fotos clicar aqui

Texto: Edgar Silva
Fotografia: Ana Lourenço @ blackphant (Instagram)

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.