O regresso do autocarro 800 Gondomar à estrada teve uma 1ª paragem cheia de punk e rebeldia

Alô dos 800 Gondomar | mais fotos clicar aqui

Já tinha saudades de assistir a um concerto no 4º piso do Edifício Garagem, o Maus Hábitos. Perto das 21:30 horas subi aquele lanço de escadas infindável em direção ao ritual obscuro de Ruca Bourbon (também conhecido pelo seu projeto DJ Urânio), figura incontornável da noite mais underground do Porto, que apresentou-se com a sua Rádio Sonoplasmática.

Entramos na sala bem escura, e no meio dela, diferente do que normalmente acontece, estava Ruca Bourbon. Perante si estava o altar no qual tinha montado com diversos objetos, do mais absurdo ao mais bizarro. Coberto com uma balaclava o artista fazia performance rituais invocando diversas criaturas e mostrando-as às dezenas de pessoas que começavam a encher a sala. Nenucos com foguetes na nuca, Action Mens desfigurados, instrumentos, se poderemos chamar assim a objetos que soltavam sons do mais ridículo ao mais sóbrio, sempre acompanhados ora por batidas bem ritmadas (por vezes nem tanto) e aceleradas ora por sons mais ambient. Rádio Sonoplasmática não é um espetáculo de música mas sim um espetáculo de performance liderado pela sua figura mais sagrada – DJ Urânio. Impossível de prever o próximo passo, o artista trazia constantemente camadas divergentes com tanto de misterioso como de excêntrico.

800 Gondomar ao vivo no Maus Hábitos | mais fotos clicar aqui

Apesar de disruptivo, o concerto… a performance de Rádio Sonoplasmática, foi um aquecimento tanto visual como auditivo perfeito para a real razão de estar naquela hora naquele local, o regresso dos 800 Gondomar.

Começaram logo a abrir, sem pedir licença com “Sou Cidadão”, uma das malhas mais conhecidas do trio de Rio Tinto. Em palco apresentaram-se Fred no baixo, Rui aka Querido Líder na bateria e Alô Farooq na guitarra. O trio dividia entre si o papel vocal sendo impossível de definir um só vocalista, trazendo para cima do palco uma dinâmica incomum.

A sala praticamente encheu para ver o regresso de uma das bandas mais queridas da cena underground do Porto, após um hiato (poderemos chamar assim) de praticamente 6 anos. A razão para tal foi ‘São Gunão’, o segundo longa duração do trio.

Rui dos 800 Gondomar | mais fotos clicar aqui

A segunda música da noite foi mesmo a primeira de uma setlist claramente virada para o novo disco. Começaram a soar as guitarras a rosnar e a bateria descontrolada a ritmar “Rio Tinto”, malha de 1 minuto e 56 segundos, com alusão bem vincada relativamente à especulação imobiliária, que pelos vistos já atingiu aquela zona periférica do Porto – “eu não sei mas ouvi dizer, que aqui já não dá para viver”.

Na linha da frente encontravam-se umas poucas de dezenas de fãs mais acessos, que soltavam o headbanging e debitavam as letras como ninguém, contagiando um pouco também o resto da sala.

À terceira música os três elementos já estavam mais horizontais do que verticais (parafraseando o baterista) mostrando toda a sua atitude punk e rebelde que na verdade é o que queremos num concerto dos 800 Gondomar.

Fred dos 800 Gondomar | mais fotos clicar aqui

“Ax Gti”, “Mataram o Fábio” e “Faca No Bolso” faixas mais recentes ainda pouco tocadas ao vivo, ouvidas por um público que teve honras de ouvir ‘São Gunão’ praticamente de lés a lés naquela 1 hora e pouco de concerto. Mas um dos momentos mais bonitos veio com a música de 2017, “Preguiça”, do disco ‘Linhas De Baixo’.

A banda despiu-se de praticamente todos os instrumentos, apenas se fazendo ao ouvir muito ao de leve o baixo de Fred. Alô e Rui num momento intimista, até familiar diria, deitaram-se no meio do público e em uníssono cantaram – “és a minha, gotinha de água…” vezes sem conta trazendo para aquele loop infindável as dezenas de pessoas, num momento de comunhão perfeito.

Alô no meio do público | mais fotos clicar aqui

Depois daquele momento de acalmia, voltaram os acelerados BPMs com “Nem É Bom” e após terem quebrado aquela barreira com o público, toda a sala já estava em agitação não se vendo uma vivalma parada no seu metro quadrado, sendo uma constante até ao final do concerto.

O concerto parecia já ter atingido a meta final, até quando um dos elementos dos 800 Gondomar diz – “Sabem aquela música que sai nos discos mas não se toca ao vivo? É esta, apenas tocaremos esta música aqui”. Alô Farooq pega no seu microfone e na sua guitarra ao tiracolo, penetra por entre as pessoas e coloca-se entre nós começando a dedilhar a sua guitarra, acompanhando lá atrás na bateria, pela pandeireta de Rui. Solta-se então a “Sexta-À-Noite Com o Monstro”, música que se destaque do resto do cardápio pelo seu folk rock, a lembrar Black Lips. Em mais um momento bonito, as dezenas de pessoas rodearam Alô e cantaram em uníssono, transformando aquela sala dos Maus Hábitos numa autêntica festa saída do um filme western.

Alô e Fred em comunhão com os fãs | mais fotos clicar aqui

Foi numa sexta-feira à noite, 5 de Abril de 2024 que os 800 Gondomar terminaram com “Sexta-À-Noite Com o Monstro”, última faixa de ‘São Gunão’ e também a ultima música daquela bonita noite.

O autocarro 800 Gondomar volta agora à estrada dia 24 em Braga, no RUM by Mavy, e partir dai irá rasgar curvas um pouco por todo Portugal.

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Alô e Fred em comunhão com os fãs | mais fotos clicar aqui

Texto:
Luís Silva

Fotografia:
Jorge Resende

Luís Aires Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Num quarto de uma residência universitária em Guimarães, criei em 2012 os primeiros acordes do headLiner. Nasceu da vontade de dar espaço a uma cena musical mais underground. Aqui, o BPM e os decibéis são secundários. Interessa-me a música em todo o seu espectro. Eu fico por aqui a ouvir e a escrever algumas palavras — umas com mais sentido do que outras.