Militarie Gun na estreia a solo em Portugal: um disparo de artilharia semi-pesada

Ian Shelton dos Militarie Gun em comunhão com o público | mais fotos clicar aqui

Foi no passado dia 21 de Janeiro que a Invicta se transformou numa pistola de partida e deu o tiro de arrancada da tournée europeia dos norte-americanos Militarie Gun, banda que aliás registou uma passagem interessante no Primavera Sound Porto em 2024. Desta feita carregada com o seu segundo álbum de originais, a arma continuou a senda de sonoridades punk na Casa da Música.

Porém, houve fogo amigável a anteceder o mesmo: circunscritos do Canadá como aliados do esquadrão principal, os Spite House deram o ar de sua graça durante cerca de 40 minutos. Não sendo propriamente a banda mais entusiasmante que temos assistido, o cruzamento de várias sonoridades de rock alternativo dos anos 90 serviram para bater o pé e preencher bem o tempo, onde aqui e ali o trio canadiano de post-hardcore fez o que lhe competia, inclusive apresentando novas canções como “Stale Change” e “Ten Days” de ‘Desertion’, registo do ano passado e que fecharam a sua atuação.

Trio Spite House em palco | mais fotos clicar aqui

Apenas passado cerca de 25 minutos, pouco depois das 10 da noite, subiram ao palco a tropa “from the stupid United States of America”, para a primeira de várias batalhas na europa. E não se pode dizer que guardaram as principais armas para depois, já que abriram as hostes com “B A D I D E A”, segundo single retirado do seu segundo e último registo ‘God Save The Gun’. Energética e com um refrão feito de enunciação de iniciais bem tradicionais de bandas punk de outrora, dificilmente o início poderia ser melhor, face um ou outro problema técnico, nomeadamente com o microfone.

Numa toada mais indie/college rock, entregaram a “Fill Me With Paint”, também do mesmo álbum, e o sol de Los Angeles surgiu um pouco com “Pressure Cooker”, tema que aliás partilha créditos com Dayz, pseudónimo do produtor Nick Minutaglio. É, de facto, no meio das influências punk e post-hardcore duns Fugazi ou At the Drive In e de vertentes mais indie do rock como Weezer ou Guided By Voices onde Militarie Gun serpenteiam, combinando numa banda que nunca explode na sua agressividade, antes porém mais exploratória de melodias e sem receio de, ocasionalmente, abrandar e deixar a raiva um pouco de parte. É um pouco o caso de “Very High”, desta feita retirada do primeiro registo ‘Life Under the Gun’, onde a subtileza escorrega para o porta-luvas com versos como “I’ve been feeling pretty down / So I get very high”, tema bem orelhudo e pop e que espelha a sua polivalência sónica.

Ian Shelton, o enérgico vocalista dos Militarie Gun | mais fotos clicar aqui

Numa das várias vezes que Ian Shelton, vocalista e sargento do regimento, se dirigiu ao público, aproveitou para dizer que ainda estavam a lidar com o jet lag e também de fazer questão de referir que o seu som era muito alternativo e que já tinham sofrido um pouco com isso no Primavera Sound Porto, já que antecederam a artista de R&B SZA,  mas meio que discordo: apesar de alguma roupagem alternativa e pesada, na verdade o som praticado por Militarie Gun é bastante acessível a ouvidos menos habituados às lides do punk ou de géneros mais fora do mainstream, o que nem sequer é uma crítica. Mas, talvez motivado por uma afluência talvez aquém do esperado (a olho nu parecia estar apenas um quarto da sala ocupado), o vocalista sentiu a necessidade de o referir. O que ainda ganha contornos mais irónicos já que ‘God Owes Me Money’ carece um pouco dessa intensidade face a outros temas, vestindo uma roupagem bem mais pop e menos presa na crueza rock, que aliás me parece a faceta menos interessante da banda.

Porém, “Ain’t No Flowers” e “Big Disappointment” voltam à intensidade habitual, num regresso aos EPs de 2021, tema do EP ‘All Roads Lead To The Gun’ e sua respetiva parte 2. “Will Logic”, “My Friends are Having a Hard Time” e “Think Less” (curiosamente a mesma sequência no disco) fazem-nos regressar à sua estreia de longa duração, interrompido pelo recentemente gravado “Throw Me Away”, tema pulsante (muito por culpa da linha de baixo Waylon Trim e a bateria-metrónomo de David Stalsworth) com cheiros de verões adolescentes perdidos noutra década.

Militarie Gun na Sala 2 da Casa da Música | mais fotos clicar aqui

Continuando na exploração do mesmo registo, “Kick” traz-nos uma desculpa revestida de provocação (“If I kicked you in the face / I’m sorry, but I would do it again”) enquanto “Daydream” obriga Ian Shelton a “armar-se” com a guitarra acústica numa baladinha bem melancólica e, em boa honestidade, bastante eficiente e fofa. Continuando um pouco na toada menos abrasiva, com um pouco de sintetizador à mistura, “Wake Up and Smile” chega e sai de forma amena, mas o mesmo não se pode dizer de “Thought You Were Waving”, o primeiro single retirado de ‘God Save the Gun’, que talvez seja a perfeita mistura em laboratório das várias influências musicais e líricas do conjunto, tornando-se provavelmente no seu melhor cartão-de-visita (eu pessoalmente ainda não a consegui tirar da cabeça).

O público respondeu da melhor forma, acenando para a banda, que ao contrário do descrito na letra, estava longe de se afogar: se por um lado é verdade que não estamos perante nenhum fenómeno transcendente do rock, é inegável a qualidade e entrega do quinteto americano, considerando alguma falta de audiência na sala, como anteriormente mencionado. “Never Fucked Up Once” e “Do It Faster” desenterram de novo o seu álbum de estreia, e se o primeiro tema passa pelos pingos da chuva como relativamente brando, “Do It Faster” serve de mote para Ian pedir mais agitação aos presentes, o que é prontamente respondido, com alguma moche e crowdsurf, particularmente no final do tema.

Ian Shelton no meio do público | mais fotos clicar aqui

Aproveitando a vitalidade da onda e entusiasmo criado, a atuação termina tal e qual como começa: “B A D I D E A” volta aos holofotes, desta feita para uma celebração bem mais intensa e com, finalmente, o suor a ser destilado de forma mais eficaz. E assim foi, cerca de uma hora de viagens e paragens carregadas de distorção e gritos de ordem, sem perigo mas, confessamos, nem tudo tem que ser um campo de batalha. Por entre sorrisos da banda e dos presentes, fica no ar uma sensação de dever cumprido, porém, um pouco longe da explosão que certamente outros concertos de Militarie Gun já proporcionaram. Talvez uma sala mais pequena que pudesse aproximar mais o público fosse a arma secreta que faltou, quem sabe: ficaremos então à espera da próxima invasão em território nacional.

Reportagem fotográfica Completa:  clicar aqui

@blackphant-headLiner-MilitarieGun-041

Texto:
– Tiago Magalhães – “Megas” @ tiagomegas (Instagram)

Fotografia:
– Ana Lourenço @ blackphant.stage (Instagram)

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