
Holly Humberstone , uma das atuações mais refrescantes // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
Aconteceu ontem o dia de arranque do Primavera Sound Porto no local do costume: Parque da Cidade porém com um layout bem remodelado. Pela primeira vez sem o habitual naming sponsor cuja presença foi permanente nas 9 edições anteriores desta vez adotou o nome da cidade que o acolhe.
A organização resolveu acrescentar mais um dia para acomodar a vinda do rapper Kendrick Lamar aproveitando desta maneira para demarcar este evento em 2023 pois o festival celebra um número “redondo”, trata-se da 10ª edição. Deste modo iniciou-se nesta última quarta-feira este dia extra.
A instabilidade do clima era um fator que estava na mente de toda a gente. Efetivamente, após a minha chegada à zona do festival por volta das 16:20h, apanhei alguns chuviscos o que adensou a minha preocupação acerca das horas seguintes. O clima deu tréguas, positivamente e felizmente, já que por volta das 16:45h a fila para entrar no recinto era já muito considerável. Logo aí o primeiro percalço. Abertura das portas foi retardada, estava prevista para as 17h e sofreu um atraso de praticamente 20 minutos. Felizmente, desta vez, a chuva poupou os ansiosos festivaleiros.

Ambiente no recinto, com o palco principal ao fundo // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
Já dentro do espaço foi altura para a prospeção das mudanças, estando significativamente diferente devido às imensas alterações na configuração do recinto. A área aumentou em cerca de cinco novos hectares, a organização do Primavera Sound Porto aproveitou as obras que a autarquia promoveu no Parque da Cidade para dinamizar todo o espaço realizando um update bem significativo.
Um desses imensos updates foi a localização do palco principal, agora denominado de Palco Porto, ficou localizado junto à “rotunda da anémona” numa zona relvada e bastante ampla. O palco do “bosque” deixou de existir, anteriormente designado como “ATP” ou “Binance”. Agora existe o Palco Plenitude numa zona contígua ao novo Palco Porto.
Os palcos que anteriormente eram os dois principais não mudaram de sítio, o Palco Super Bock mantém o sítio tendo agora a companhia do Palco Vodafone. Têm agora uma menor relevância, digamos assim…

A boa disposição foi reinante, sobretudo com tempo seco // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
Efetivamente foram imensas as modificações. A questão do palco principal não deixa ninguém indiferente e gera polémica. Provavelmente vai funcionar bem. Perde-se um bom bocado da mística da encosta, ganha-se um enquadramento diferente. Há quem reclame, não somente nas redes sociais, acerca sobretudo dessa mudança. Pessoalmente estranhei esta opção da organização porém mais tarde percebi o ponto de vista de quem decide estas coisas. Afinal este é um evento promovido por uma entidade privada que trabalha para ter lucro. Ter mais público, mais pessoas a pagar o seu bilhete, para atingir um maior nível de receita, até porque angariar patrocinadores não tem sido fácil, algo que os próprios organizadores não escondem em entrevistas à imprensa.
Com o aumento da área disponível a lotação diária aumentou para as 45 mil pessoas por dia, um aumento de cerca de 10 mil pessoas relativamente a 2022. Tal como no ano passado a percentagem de estrangeiros deve ficar próxima dos 40%.
As condições para o público foram revistas, já deu para ter essa noção. Há mais WC para evitar uma das queixas constantes devido às enormes filas e ao aumento da restauração para evitar esse mesmo problema. Efetivamente estão bem localizados, há sempre um WC perto dos palcos. Estão construídas de forma bem pensada, para permitirem uma rápida e eficaz utilização.
A zona da restauração, pelo que me apercebi, funcionou bem. Pelo menos até à altura da noite em que a chuva veio em força. Fiz questão de jantar relativamente cedo e de aperceber-me das condições e não tive problemas de filas ou de arranjar lugar para fazer o repasto.
Pareceu-me fluído o movimento das pessoas neste primeiro dia. À primeira análise podia ter sido bem menos agradável já que só estiveram de serviço 2 palcos e com concertos intercalados. O público foi-se movendo de forma calma. Por volta das 19:45h já havia muita gente no recinto, circulava-se bem apesar da casa já bem preenchida.
Beatriz Pessoa de 28 anos é uma artista cuja sonoridade mistura bossa nova, MPB e um lado mais indie. Ela teve a honra de abertura do Primavera em 2023, foi a única portuguesa a atuar neste dia inicial. Ela fez-se acompanhar por mais 4 músicos. Aproveitou a oportunidade para a apresentação do seu disco ‘Prazer Prazer’, o segundo da sua carreira. Abriu a sua atuação com “Dona da verdade”, uma das novas canções. Desse mesmo álbum tocou outros temas como foram os casos “Dente D’Ouro”, “Passou Pequeno”, “Valente” e também tocou “Prazer Prazer”, a faixa que dá o nome a este seu trabalho discográfico.

Beatriz Pessoa em palco com a sua banda // Foto oficial Primavera Sound Porto @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
O sol sorriu timidamente durante a atuação da portuguesa, algo que ajudou a alegrar o início da jornada inaugural. Ajudou também a animar um pouco o espírito do público já em excelente número, tendo em conta a hora tão cedo. A atuação decorreu no Palco Porto, palco alto que favorece de forma positiva a quem vê mais de longe.
“A minha música é muito inspirada na música brasileira” afirmou a cantora antes de fazer um medley com “ Vaca Profana” e “Lança Perfume” duas músicas, respetivamente, de Gal Costa e Rita Lee. Foi um momento de homenagem a estas artistas brasileiras falecidas nos últimos meses, são duas das grandes inspirações de Beatriz Pessoa.

Beatriz Pessoa em palco // Foto oficial Primavera Sound Porto @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
Antes do final com os temas “Eu Perdoo” e “Roda Gigante”, esta a última interpretada, a artista anunciou as suas “esperanças” de uma forma animada e bem mais calma do que Beyoncé…
Antigo palco principal, agora é um dos secundários, e com mais espaço em frente, sem zona vip das últimas edições. Falo portanto do Palco Vodafone, antigo Palco NOS, no qual Georgia atuou. A artista britânica animou e bem as hostes com os seus temas eletrónicos. Ela que fez uso maioritariamente de bateria eletrónica, sua imagem de marca.

Georgia finalmente no Porto // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
Não tocava em Portugal há 10 anos, por isso foi para ela especial, já que ela tinha cancelado a vinda ao festival no ano passado. A sua entrada aconteceu à hora marcada, provavelmente o único concerto no qual aconteceu isso. O sol fez uma aparição bem simpática e durante esse período as pessoas foram chegando vindas do palco principal.
Veio dar um “gostinho” sonoro do próximo LP ‘Euphoric’ que será editado no próximo dia 28 de julho. O tema que dá o nome ao álbum é o atual single e foi o 4º tema que tocou. Ela que chegou a jogar futebol nas camadas jovens do Arsenal e do Queens Park Rangers tem agora uma carreira sólida na música com o seu projeto a solo. “Starter Out”, “Feel It”, “All Night” e “Too Much” foram outros dos temas apresentados.

Georgia finalmente no Porto // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
Georgia teve uma atuação muito enérgica. Ela que achou piada ao sapinho que estava nas primeiras filas. Para quem conhece a página @mickeythefrog perceberá logo do que se trata. Engraçou com o peluche e até o utilizou durante a atuação.
Alison Goldfrapp entrou no cartaz do festival depois do cancelamento de FKA Twigs. Veio ao Porto mostrar o seu primeiro álbum a solo apelidado de ‘The Love Invention’. Ela que faz dupla com Will Gregory no duo Goldfrapp e cuja carreira iniciou-se em 1999 e cujo álbum ‘Felt Mountain’ em 2000 teve impacto dentro do estilo eletropop. Depois disso lançaram mais 6 LPs. Tal como a própria já revelou este seu disco é inspirado na “dance music, electronic pop, synth pop e italo disco”.

Allison Goldfrapp // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
Acompanhada por dançarinos e dois músicos a artista londrina de 57 anos apresentou-se vestida num tom de azul, um outfit bem garrido que lhe proporcionou um destaque visual diferenciado. Alison teve com boa energia durante a sua performance, bem acompanhada por músicos e bailarinos, porém o público esteve sempre muito morno. A cantora optou por fazer um mix de temas. Da sua nova discografia com, por exemplo, “Love Invention” e “In Electric Blue” Do período dos Goldfrapp com, por exemplo, “Rocket” e “Ooh La La”.
“Vamos lá gente, vocês conhecem isto… Dancem um pouco” dizia Alison na introdução de “Strict Machine”, uma das mais conhecidas do seu período do duo. Bem tentou só que o público correspondeu a meio termo.
Com uma frescura assinalável para a idade e com o normal reverb na voz foi positiva a sua atuação que terminou com “Fever”, uma das novas.
Mais um concerto a começar alguns minutos depois da hora inicialmente aprazada: 21h, foi o de Holly Humberstone. Primeira vez em Portugal e mostrou-se feliz, ela que se fez acompanhar pela sua habitual banda. Ela que tem uma compleição algo frágil, de baixa estatura e físico à top model, porém não se intimidou minimamente pelos milhares em sua frente. O pop rock da artista britânica ajudou a aquecer os ânimos no início da noite logo com os dois primeiros temas: “The Walls Are Way Too Thin” e “Please Don’t Leave Just Yet”. Confessou ter acordado indisposta porém tal não se notou, apresentou-se com uma boa vibe.

Primeira fila em Holly Humberstone // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
Notou-se bem a presença de público vindo do Reino Unido, eram umas quantas pessoas que cantarolavam as canções e que dava para perceber o sotaque. Na apresentação do tema “Antichrist”, revelou ser uma nova música. Foi tocada ao vivo apenas pela segunda vez, antes teve estreia no Primavera de Barcelona.
A mítica encosta do Parque da Cidade estava, por esta altura, com uma bonita configuração: mistura de pessoas bem tranquilas sentadas na relva e outras lá à frente de pé. Foi mesmo a calmaria antes da tempestade que apareceu no decurso do concerto de Baby Keem. Holly Humberstone teve uma belíssima prestação com recorte bem cuidado.

Holly Humberstone , uma das atuações mais refrescantes // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
Atuação dos The Comet is Coming foi hipnótica e a melhor possível para o momento. Pelo menos para os corajosos perante as desfavoráveis condições atmosféricas. O público mostrou-se interventivo e tentou afastar o desconforto.
Pessoalmente consegui ver alguns minutos da atuação na qual o trio formado por Shabaka Hutchings (saxofone tenor), Dan Leavers (sintetizadores e modulares) cujo pseudónimo é Danalogue e Max Hallet (bateria) também conhecido por Betamax deu muito bem conta de si. Tal como no ano passado no Vodafone Paredes de Coura fiquei novamente com boas sensações.
O senhor mais esperado da noite, o único de todo dia realmente, foi o do rapper Kendrick Lamar. Confesso que não sou fã do artista nem sigo muito atentamente a sua carreira. Não fiquei encantado com a performance, devo confessar, a qual fui seguindo atentamente a partir da bancada. Não assisti à sua totalidade, tal como mais umas quantas centenas de pessoas, a resistência teve o seu limite. As condições estiveram bastante agrestes desde o início da atuação às 00:30h. A chuva ia caindo, a largos espaços, com alguma intensidade. Quem estava na plateia teve ainda o “presente” de pés encharcados. Nesse aspeto a relva, também a lama em alguns locais, não facilitou em nada.
– Nota: Kendrick Lamar não permitiu captação fotográfica –
O músico trouxe a Portugal o seu mais recente álbum ‘Mr. Morale & the Big Steppers’ lançado no decurso do ano passado do qual interpretou alguns temas, tais como “N95” (uma das primeiras) ou “Rich Spirit”
Ele que foi deambulando de um lado ao outro do palco. Esperava um show mais empolgante a nível visual, sim, tivemos alguma pirotecnia, um forte jogo de luzes (em conjugação com efeitos especiais nos ecrãs gigantes laterais) e umas telas gigantes coloridas em pano atrás de si. Esperava mais é certo daquele que foi a razão da existência do dia extra.

Ambiente na plateia do palco Porto // Foto oficial Primavera Sound Porto @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
Devo confessar que fiquei mais impressionado com a devoção e o empenho dos seus fãs. Logo de princípio era impressionante a “maré” de smartphones a filmarem e a proporcionarem um impacto visual muito bonito. Fãs esses que não regatearam participar no concerto, seja com plena sintonia a cantarem as letras de “HUMBLE.” ou a fazerem uma coordenada coreografia com os braços. Foram eles que construíram uma noite bonita apesar de muito difícil perante os elementos climatéricos bem adversos.
Kendrick Lamar apresentou-se com uma espécie de fato de karateca cor de laranja, ou se quisermos ver por outro prisma, com uma espécie pijama muito mal-amanhado. Ele que foi deambulando entre os dois lados do palco tendo sido acompanhado por bailarinos que iam saindo e entrando de palco com o decorrer dos temas. Há que lhe dar o mérito, ser um homem sozinho em palco não é deveras fácil. Estes artistas têm de ter um certo carisma e coragem, algo que Kendrick aparentemente tem. Pode-se dizer que procurou capitalizar ao máximo a sua atuação, para a qual trabalhou de forma imersiva, aproveitando exemplarmente o embalar que o público lhe deu.
Agradecimento:
Agradecemos a gentiliza e partilha de fotos utilizadas neste artigo cedidas pelo Nuno Coelho da Noizze. Poderão seguir este projeto em: @noizzept
Texto:
Edgar Silva
Fotografia:
– Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
– Hugo Lima @ Primavera Sound Porto [fotos oficiais]
www.fb.me/hugolimaphotography
