De Alvvays à chuva até ao masterclass rockeiro dos Bad Religion  – Dia 2 do Primavera Sound Porto 2023

Elizabeth Stokes, a vocalista dos The Beths // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept

Nesta passada quinta-feira, dia 8 de junho (feriado religioso pelo Corpo de Deus), realizou-se o segundo dia do Primavera Sound Porto, o primeiro já com todos os palcos ativos. A instabilidade do clima foi novamente extremamente sentida e aguentar a longa jornada do festival tornou-se num ato de resistência. Uma resistência dura só suportável pela vontade de querer vivenciar o evento da melhor forma possível procurando fazer as melhores escolhas nos concertos a ver. Felizmente creio ter tomado boas opções. Há sempre 2 palcos com atividade a determinado momento pelo que é necessário fazer escolhas, por vezes difíceis.

Cheguei à zona do Parque da Cidade por volta das 16h e o clima estava agressivo tendo nessa altura caído uma forte bátega de água. Era o sinal, previsível porém nada desejado, do que viria por aí…
Mais uma vez os portões do Primavera Sound Porto não abriram à hora anunciada para o efeito, uma hora mais cedo relativamente ao dia inaugural, às 16h. A abertura ocorreu por volta das 16:30h, altura em que era suposto ter começado a atuação dos Fumo Ninja. Este projeto português acabou por ver a sua entrada retardada. O início praticamente coincidiu com o dos Quadra.

Clima sereno, conforto de sentar na relva // Foto oficial Primavera Sound Porto @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography

A minha primeira seleção recaiu em assistir aos Quadra, uma das bandas que o headLiner sugeriu no artigo de “Concertos a Não Perder No Primavera Sound Porto 2023”. A banda bracarense formada por Sérgio Alves (baixo), Gonçalo Carneiro (guitarra), Hugo Couto (bateria), Sílvio Ren (guitarra) e Lucas Palmeira (sintetizadores) deu muito boa conta de si no Palco Vodafone. Apesar da contrariedade de ter chuviscado um bom bocado durante grande parte da atuação as pessoas foram chegando aos poucos desafiando as condições.

Quadra, banda oriunda de Braga // Foto oficial Primavera Sound Porto @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography

Com o disco ‘Selva’ editado há pouco mais de meia dúzia de dias o foco da setlist foram, com a devida naturalidade, as músicas novas. A imagem que deu origem à capa deste álbum estava bem visível no ecrã vídeo situado no palco. “Puro Ouro” foi o tema inaugural tocado. A seguir veio “Tropicália”, um dos temas mais conhecidos das mais novas, no qual o convidado especial Miguel Santos entrou para dar o seu contributo vocal. Ele que colaborou igualmente noutros temas interpretados como em “Tigre de Papel” ou em “Solar Explosion”. Certo é que não esteve assim muita gente, agora quem presenciou não resistiu e balanceou o corpo ao som das músicas bem dançáveis dos Quadra. Atuação segura, proporcionaram um bom cartão-de-visita do seu projeto.

A primeira grande surpresa, para mim, foram os The Beths. Este quarteto natural da Nova Zelândia fez uma apresentação mesmo muito boa. O público foi bafejado pelo céu com uma boa abertura não tendo chovido durante toda a performance. Foi mesmo super agradável sentir o sol na face. Muitas das pessoas aproveitaram para ver o concerto na encosta sentadas. A adesão ao Palco Super Bock na sua estreia no festival foi bem considerável e até algo surpreendente.

Elizabeth Stokes, a vocalista dos The Beths // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept

Este quarteto de indie rock abriu o seu bonito concerto logo com um dos seus temas mais ouvidos, refiro-me a “Future Me Hates Me”. Lançado em 2022 o álbum ‘Expert In A Dying Field’ teve algumas incursões nomeadamente com a interpretação de “Knees Deep”, “Silence is Golden” e do tema que dá nome ao LP. Elizabeth Stokes, Jonathan Pearce, Benjamin Sinclair e Tristan Deck deixaram uma bela vibe pelas suas canções com feelings de verão, praia e descontração. Um peixe insuflável ao lado da bateria provocou uma cenografia peculiar, não será alheio ao facto de serem oriundos de uma ilha. Alguns outros temas foram “Happy Unhappy”, “Jump Rope Gazers” e no final “Uptown Girl” num total de 11 temas tocados. Atuação perfeita no momento certo do dia.

Com nuvens ligeiras, pouco carregadas, e o sol a brilhar com intensidade o tempo estava incrível às 18:40h. Quase já nem recordava de como estava duas horas antes, quem diria… Nessa altura os The Murder Capital começaram a tocar “For Everything” no debute do Palco Plenitude, também apelidado de palco verde por causa do seu sponsor. O vocalista James McGovern ainda ironizou dizendo ter trazido o sol para cá… A questão é que foi mesmo “sol de pouca dura”…

James McGovern, sempre enérgico // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept

Tal como no Vodafone Paredes de Coura (apesar do contraste no horário) a performance dos The Murder Capital foi bastante intensa e igualmente bem construída pelo quinteto irlandês. As hostes bem animadas a corresponderem a James McGovern e o mosh lá surgiu de forma alegremente agitada. A animação estava garantida com temas como “Return my head”, “The Stars Will Leave Their Stage”, “Open up One more time” ou “Green & Blue”. O punk nunca estará enterrado e esquecido enquanto bandas como os The Murder Capital fizerem questão de estarem ativos e produzirem malhas brutais.

Aproveitei a fase final do concerto destes irlandeses para ir ao meu jantar pois a situação climatérica era intermitente e a chuva já dava sinal de querer regressar em bom estilo. No decurso dos canadianos Alvvays a chuva regressou em força, isto por volta das 20h. O clima estava altamente esquizofrénico. Apesar disso este quinteto formado por Molly Rankin (voz e guitarra), Kerri MacLellan (teclados), Alec O’Hanley (guitarra), Brian Murphy (baixo) e Sheridan Riley (bateria) fez uma apresentação para uma audiência em belíssimo número, pese embora as contingências já referidas e de ser uma hora adequada para jantar.

Alvvays no seu regresso a Portugal // Foto oficial Primavera Sound Porto @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography

A maioria resistiu para escutar canções como “In Undertow” ou a já infalível “Archie, Marry Me”. Com uma atuação bem positiva houve também a oportunidade para novos temas de ‘Blue Rev’ como “Many Mirrors”, “Tom Verlaine” ou “Very Online Guy”. Esta última teve dedicatória especial: da vez anterior que cá esteve em Portugal alguém disse-lhe que precisava de passar a ferro a roupa dela, “se estás cá, esta música é para ti”. Para mim Alvvays foi um dos pontos altos do festival.

Muita gente acarinhou Maggie Rogers numa fase de início da noite sem chuva porém com uma ameaça forte, que veio a concretizar-se. Maggie esteve enérgica, sorridente e dançante tendo passado a sua energia para as pessoas que corresponderam na mesma moeda. Um dos pontos altos aconteceu durante a sua interpretação de “Retrogade”, executou um medley citando o tema “I Wanna Dance With Somebody (Who Loves Me)” numa singela mas tocante homenagem a Tina Turner. O seu mais recente álbum ‘Surrender’ teve diversas referências com temas como “Want Want”, “Be Cool”, “Shatter” ou “That’s Where I Am”, tema final da performance.

Maggie Rogers com uma atuação entusiasmante // Foto oficial Primavera Sound Porto @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography

A artista norte-americana sentiu-se feliz e revelou ter sido muito importante para ela que as pessoas tenham aguentado a sua presença perante as condições desfavoráveis pela passagem de “Anywhere With You”. Canção que sempre quis cantar à chuva, como disse na introdução ao tema. Claro está que “Alaska” e “Light On” não falharam na setlist. O pop rock de Maggie Rogers é refrescante e caiu de forma bem simpática no enquadramento do crepúsculo.

A única vez que estive no Palco Porto foi para escutar um pouco de The Mars Volta. A conjuntura no recinto deste palco não é fácil, a relva esbate-se e há mais zonas lamacentas do que outra coisa qualquer… Ainda assim consegui usufruir uns longos minutos da performance do projeto de Omar Rodríguez-López e Cedric Bixler-Zavala. O som experimental e imersivo, do rock progressivo, desta formação é alicerçado na pujança da guitarra tocada por Omar e da bateria tocada por Linda-Philomène Tsoungui. Tonalidades sonoras hispânicas e exóticas são igualmente percetíveis.

Cedric Bixler-Zavala , uma figura fácil de identificar // Foto oficial Primavera Sound Porto @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography

A voz de Cedric dá um certo toque de mistério e misticismo. A bandeira de Porto Rico fez parte da cenografia fazendo lembrar as origens de Omar, revelando o porquê de algumas influências no som dos The Mars Volta.

O fecho da noite aconteceu com o punk rock dos Bad Religion. Em boa hora direi eu. A veterana banda atuou à mesma hora de Rosalía. Um contraste total para públicos diferenciados. A formação norte-americana contou com a presença de aficionados bem empenhados e que desfrutaram totalmente da experiência. Uma “imensa minoria” que esteve em plena sintonia desde o primeiro segundo. Bad Religion é punk rock devidamente alicerçado no som providenciado pelos seus guitarristas.

Um concerto que teve luzes intensas com predileção pelo encarnado a combinarem com as letras dessa cor bem gigantes no ecrã vídeo. Como se quem lá estivesse não soubesse ao que ia…

Bad Religion para uma imensa minoria // Foto oficial Primavera Sound Porto @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography

Assisti a um masterclass do que é ser do rock tendo os elementos da banda uma atitude um bocadinho desgarrada fazendo jus à fama punk. O quinteto tocou músicas mais recentes e outras antigas. Tal como disse Greg Graffin a determinada altura “Vejo que são fãs do material antigo”. Eles que não se fizeram rogados e lançaram logo inicialmente “American Jesus”, um dos temas mais conhecidos. “Do What You Want”, “Streets of America” e Generator” foram outras interpretadas para gáudio dos fãs. Uma assistência com uma maior média de idade, com toda a naturalidade.

As pessoas fizeram um esforço enorme para retirarem o máximo do dia e para escutarem os seus artistas preferidos mesmo com imensa adversidade. Dia ainda imensamente exigente por causa do clima demasiado esquizofrénico. Vai ser totalmente incontornável associar a edição do Primavera Sound Porto em 2023 à tempestade Óscar.

Agradecimento:

Agradecemos a gentiliza e partilha de fotos utilizadas neste artigo cedidas pelo Nuno Coelho da Noizze. Poderão seguir este projeto em: @noizzept

Texto:
Edgar Silva


Fotografia:

– Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
– Hugo Lima @ Primavera Sound Porto [fotos oficiais] www.fb.me/hugolimaphotography

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

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