Homem em Catarse tem mais a dizer nesta sua ‘catarse natural’ de intervenção social

Homem em Catarse tem mais a dizer nesta sua ‘catarse natural’ de intervenção social | Reportagem Completa

Afonso Dorido com o seu alter-ego Homem em Catarse | mais fotos clicar aqui

A minha introdução a Afonso Dorido teve lugar por ele ser um dos músicos da banda de post-rock Indignu. Sou confesso fã deste projeto musical oriundo de Barcelos já há bastantes anos. Desde que o artista iniciou o seu caminho a solo, com o seu alter-ego apelidado de Homem Em Catarse, foi com naturalidade o surgimento do meu interesse pelo seu repertório, do qual sou também bastante apreciador.

Ao longo dos últimos seis anos fui acompanhando diversas atuações ao vivo de Homem Em Catarse e em todas essas atuações nunca saí desiludido. Afonso, dotado multi-instrumentista, dá tudo o que têm nas suas performances e no passado dia 8 de novembro (uma sexta-feira) foi mais uma ocasião em que isso aconteceu num concerto que teve lugar no Maus Hábitos no Porto.

Homem em Catarse na sala principal do Maus Hábitos | mais fotos clicar aqui

Três anos depois de ‘Sete Fontes’, disco inspirado em Braga, cidade aonde vive, é agora altura para mais um belíssimo álbum. No mês passado editou ‘catarse natural’, um trabalho discográfico que demonstra uma evolução bem positiva no seu trajeto a solo. Desta vez demarca esse progresso num álbum em que a sua voz tem uma relevância superior, está mais presente, sendo que também teve o expressivo apoio vocal de vários cantores.

Como esperado, este concerto no Maus Hábitos, teve o seu foco neste disco ‘catarse natural’ e logo na abertura, tal como no alinhamento do disco, surgiu “Paredes em Flor”. Um tema de intervenção e cujo título inicialmente fora pensado para chamar-se “Paredes em Flor, o mundo a arder e 25 de abril por cumprir”. Facilmente percebe-se as imensas inquietações de Homem Em Catarse como pessoa e artista neste mundo atualmente bastante volátil.

Homem em Catarse com novos temas e mais uso da sua voz | mais fotos clicar aqui

Os temas que apresentou têm essa componente de pensamento crítico da sociedade atual bem como dos valores humanos. Outro dos temas que versa sobre isso é “Gueto da Paz”, o terceiro apresentado nesta bonita noite, e o primeiro em que saiu da sua cadeira, com a sua guitarra veio para junto das pessoas. Um primeiro gesto mais caloroso e de interação com o público. A plateia não esteve repleta, pessoalmente esperava uma maior afluência, porém é de frisar que quem esteve presente fê-lo com alma, concentração e de coração. Tal como Dorido o fez.

“Aqui no Gueto da Paz

Feijões são mais que tostões”

Esta parte da letra foi reforçada pelo artista dizendo ainda são necessários mais corações e menos tostões…

No final da interpretação deste tema, a performance teve interrompida durante alguns longos segundos, uma das pessoas teve de abandonar a sala devido a uma forte indisposição.

Homem em Catarse de pé e em pose mais rockeira | mais fotos clicar aqui

A densidade das várias camadas, que Afonso foi gravando e deixando em modo automático ao mesmo tempo que ele próprio tocava mais uns acordes, fez-nos entrar um num plano intergaláctico à boa moda de uma série de ficção científica. “Hotel Saturnyo” teve esse poder de nos deixar levitar. Foi o quarto tema interpretado, pertencente a ‘Sem Palavras, Cem Palavras’, disco editado em 2020.

A seguir Homem Em Catarse deslocou-se para o seu piano e foi aí que confessou que não tinha formação em piano tendo contado que tinha este teclado em casa e que resolveu aprender a tocar. Algo que aconteceu do decurso da pandemia. Deste modo foi autodidata e dessa aprendizagem surgiu o álbum ‘Sete Fontes’, que o obrigou a sair da sua zona de conforto, o piano foi o instrumento de eleição nesse trabalho discográfico.

Homem em Catarse ao piano, o seu novo melhor “amigo” | mais fotos clicar aqui

Afonso na passagem pelo novo tema “O Nosso Ultramar" fez questão de referir que versa sobre separação de pessoas que se querem e que se amam. Reforçou a sua mensagem dizendo “A porcaria da guerra há-de ser sempre uma barreira”. A belíssima interpretação foi saudada por fortes salvas de palmas. O público teve o condão de seguir o concerto de maneira bastante personalizada, com silêncios e expressões sonoras de agradecimento nas fases certas.

Homem Em Catarse agradeceu a quem colaborou no álbum, foram cinco os convidados: Nuno Rancho, Miguel Ramos, Luca Argel, Sara Yasmine e Nuno Prata. A gratidão estendeu-se a quem comprou CDs, vinis (que tiveram apoio à edição da Fundação GDA) e a quem esteve presente nesta noite no Maus Hábitos.

Outro dos temas simbólicos, editado como single, “Hipoteca” também foi incluído na setlist e mais um daqueles sob a égide de intervenção social. As palavras que o artista afirmou foram claras sobre a moral da canção: Estamos num país espetacular porém com pessoas que vivem com dificuldades.

A habitual agitação de Homem em Catarse | mais fotos clicar aqui

“Amélia” e “Guarda” foram outras canções interpretadas, sendo esta segunda citada uma das suais mais imprescindíveis ao vivo.

“Não nos calaremos, não passarão” foi a sua frase de revolta quando contou o feedback que teve devido a uma entrevista que deu ao Expresso/Blitz. A personalidade na opinião transborda também em palco.

A pedido do público houve encore, um momento fabuloso, no qual Homem Em Catarse juntou-se ao público com o seu cavaquinho e praticamente todos em uníssono partilharam as letras de “O Vampiro”, reconhecida canção de Zeca Afonso. Aquelas palavras “Eles comem tudo e não deixam nada” são tão atuais, mesmo após 61 anos da edição do tema.

Make Amour Great Again são as palavras que se podiam ler no chapéu encarnado utilizado por Dorido. Ao contrário de outras, a ideia que Afonso passa, por via dos seus temas, mesmo cada vez mais com esse peso extra de cariz de intervenção social, é uma mensagem de perseverança e esperança.

Homem em Catarse sempre expressivo | mais fotos clicar aqui

A proposta de Homem Em Catarse ao vivo tem sido constante e de bastante valor, cada vez mais de valor acrescentado. Vale bem a pena acompanhar este projeto de Afonso Dorido tal como vê-lo ao vivo com a sua irrequieta e arrebitada dinâmica sobretudo com a guitarra, tal como quando toca com os Indignu. Ao piano temos uma versão menos acelerada e mais concentrada. Duas dimensões e a mesmíssima altíssima intensidade.

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A voz de Homem em Catarse tem agora outro relevo | mais fotos clicar aqui

Texto: Edgar Silva
Fotografia: Jorge Resende @ arroba75 (Instagram)

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.