Há uma luz que acende a genialidade de Mark Williams Lewis

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Mark William Lewis com o seu projeto a solo no Porto | mais fotos clicar aqui

RCA – radio clube agromonte – é um espaço no Porto que abriu em 2024 e que aos poucos tem ganho o seu espaço e relevância na cena cultural da cidade. Entre um bar que serve cervejas artesanais, uma piscina vazia que se transforma em venue de concertos, passando pela loja de discos Music & Riots até à pequena sala de concertos, o RCA tem de facto trazido uma nova dinâmica à zona da Boavista com uma seleção musical muito interessante.

No passado dia 21 de outubro entramos pela 2ª vez na pequena mas acolhedora sala de espetáculos, a 1ª vez num contexto headLiner. O motivo foi Mark William Lewis, o artista londrino como uma voz singular no panorama musical contemporâneo. Oriundo de Stamford Hill, Londres, editou o seu álbum de estreia de longa-duração, ’Living’, em 2023. Em Setembro de 2025, edita pela A24 Music (ramificação da conhecida produtora A24) o álbum ’Mark William Lewis’ (autointitulado), marcando-se como o primeiro artista desta casa não ligado a bandas-sonoras.

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Mark William Lewis, artista já confirmado no Primavera Sound de Barcelona em 2026 | mais fotos clicar aqui

Com ele trouxe Ashley Plomer, cantor-compositor, produtor e intérprete oriundo do Reino Unido. Depois de emergir da cena experimental e DIY de Sheffield, mudou-se para o sudeste de Londres, onde lançou digitalmente seus singles de estreia “Tankfull” e “Shame 2” em 2024.

Pouco passou das 21h daquela terça-feira fria, quando o artista subiu sozinho ao palco apenas a fazer-se acompanhar da sua guitarra. Em seu redor estava um conjunto de microfones, um triângulo a flutuar por cima da bateria, quase como se Ashley estivesse a ser consumido pelo material. Muito desta ilusão óptima deve-se às pequenas dimensões do palco, compactando tudo em poucos metros quadrados.

Pouco falou durante a sua performance de pouco mais de 30 min, e reduzido apenas à sua voz, despido de qualquer reverb ou autotune, tocou os dois singles apresentados já ao mundo digital, assim como “Billiard God” ou “Stolen Valour”. Ouvindo os temas lançados digitalmente “Shame 2” e “Tankful” temas cantados de seguida, “inspiram-se no emo, no metal progressivo, na paisagem sonora e nas longas óperas televisivas de Robert Ashley.”, contudo a experiencia ao vivo reduz-se a bonitas canções de “apenas” a uma voz imperfeitamente bonita e à sua subtil guitarra, não trazendo toda a sua complexidade e texturas músicas para a cena ao vivo.

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Ashley Plomer com o seu projeto a solo no Porto | mais fotos clicar aqui

A verdade é que à hora marcada a sala coberta de painéis acústicos de madeira e cortiça, já se encontrava praticamente lotada, vendo poucos vazios entre as poucas centenas de pessoas que esgotaram a bela sala do RCA.

Já consumo há alguns anos concertos de mais pequenas dimensões, em dias de semana, na cidade do Porto, e é de salientar a excelente moldura humana que se deslocou para ver Mark Williams, perspectivando um futuro de muito sucesso ao cantor britânico. Mas já lá vamos.

A pausa entre Ashley Plomer e o concerto de Mark Williams Lewis serviu para passar novamente no bonito bar do RCA, pegar numa das muitas cervejas artesanais, enquanto de fundo rodava o vinil de Mount Kimbie, ‘Love What Survive’.

O bar começou a esvaziar levando-nos também para a sala que, agora sim, encontrava-se completamente esgotada. Entramos na sala já com o calor humano a sobrepor-se a noite fria de Outubro, enquanto ao de leve soava Laaraji no sistema de som.

Aguardávamos pacientes, quando vemos a banda a sair bem por detrás do publico, percorrendo as centenas de pessoas ate atingiram o palco. Poderia fazer parte da performance, mas não, era mesmo por ali que os artistas faziam a sua entrada, trazendo uma camada imprevisível (pelo menos de quem assiste pela 1a vez um concerto naquela sala).

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Mark William Lewis trouxe banda para este concerto portuense | mais fotos clicar aqui

A acompanhar Mark Williams Lewis estava uma guitarra bem junto ao seu peito e a cair nos seu ombros uma harmónica, mesmo como uma estrela de rock à antiga fazendo lembrar os primórdios de Neil Young ou de Bob Dylan. Perante sim estavam dois microfones, que mais tarde ao longo do seu concerto, acabamos por nos aperceber que um deles era para a sua voz e outro para a sua fiel harmonica.

A acompanhá-lo no baixo estava já uma cara conhecida do público, Ashley Plomer. Antes de começar o concerto, Mark Williams disse que aquele seria um concerto especial não só pelo facto de ali entre nos, se encontrar a avó de Ashley, como também era o aniversário de James, guitarrista e trompetista que acompanhava-o em palco.

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Um dos elementos da banda de Mark William Lewis | mais fotos clicar aqui

Em apresentação estava o bem aclamado disco homónimo editado este ano. E foi com “Socialising” desse mesmo disco que iniciou o concerto e mais de 1h, na aquela sala que apresentava uma acústica e qualidade de som como pouco visto. A voz grave e imponente, contrastava com a beleza leve da sua harmónica tocada em uníssono com a sua guitarra, e ver aquela figura de cabeça rapada lá ao fundo, fez-nos adorar cada momento.

O som atmosférico e introspectivo, indie e ambiental marcado com texturas sonoras complexas e de uma melancolia profunda era audível em cada cabeça que deambulavam ao som de musicas como “Cold Paris Vogue” musica do seu EP de 2022, “Painkillers” ou “Ugly”.

Foi interessante perceber, que apesar de um dos grandes motivos desta estreia em Portugal de Mak Williams é a apresentação do seu mais recente disco, o artista percorreu a sua discografia sem nenhuma ordem aparente. Mesmo para os fãs mas acérrimos tornou-se dificil de prever a próxima música da setlist.

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Perspetiva do público | mais fotos clicar aqui

“Seventeen” para “Pleasure Is Everything” até transitarem para um momento bem bonito em que começaram a jamar entre si mostrando uma cumplicidade bem bonita… até começarem a serem audíveis os acordes tão característicos de “Petals”, um dos singles e músicas mais esperadas pelas centenas de pessoas.

Não havia letras na ponta da língua como um concerto pop cheio de pulseiras fluorescentes, mas havia uma que sala que transpirava de corpos levemente dançáveis e de coração cheio.

Um concerto bem longo (não de uma maneira depreciativa) mas de facto não esperávamos que um artista de apenas dois LPs e outros dois EPs, tenha apresentado um concerto de perto de 1h20, com poucas pausas, pouco improviso e debitando aquilo que faz melhor.

O concerto aproximou-se do fim, já bem para lá das 23h00, terminando com “Anyone” faixa do seu mais recente mixtape editado este ano ‘Sparkles 22-24’, e diria que foi uma escolha peculiar pois trata-se de um trabalho discográfico bem mais escondido e não tao popular do artista britânico, mas que requer desde já uma audição bem atenta – apenas disponível no Bandcamp.

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Mark William Lewis  em estreia na radioclube agramonte | mais fotos clicar aqui

Marquem este nome, Mark Williams Lewis, não só por ter esgotado por completo na sua estreia em Portugal numa fria terça-feira à noite, mas também porque há uma certa luz que recai no ambiente escuro, introspetivo e experimental que tornam o seu som em algo único.

Socialising
Cold Paris Vogue
Painkillers
Ugly
Seventeen
Pleasure Is Everything
Petals
Still Above
Recente Future
Skeletons Coupling
Spit
Little Wonder
Silver Moon
Ecstatic Heads
Tomorrow Is Perfect
Anyone

Reportagem fotográfica completa: Clicar Aqui

Texto:
Luís Silva

Fotografia:
Ana Lourenço @ blackphant.stage (Instagram)

Luís Aires Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Num quarto de uma residência universitária em Guimarães, criei em 2012 os primeiros acordes do headLiner. Nasceu da vontade de dar espaço a uma cena musical mais underground. Aqui, o BPM e os decibéis são secundários. Interessa-me a música em todo o seu espectro. Eu fico por aqui a ouvir e a escrever algumas palavras — umas com mais sentido do que outras.