A refrescante vivacidade sonora dos Deadletter é diferenciadora, queremos mais e mais! | Reportagem Completa

Zac Lawrence dos Deadletter no meio dos fãs | mais fotos clicar aqui
Entre junho e agosto passei pelo Primavera Sound Porto, pelo Basqueiral em Santa Maria de Lamas, pelo Souto Rock em Barcelos, pelo Festival Ponte D’Lima e terminei a época festivaleira de verão no Vodafone Paredes de Coura. Durante várias semanas a maioria das atuações a que assisti foram em festivais pelo que ver um concerto em sala fechada num evento de uma só banda é como entrar numa nova fase. Efetivamente os primeiros dias de setembro pareceram-me assim mesmo, como o principiar duma nova temporada em que as férias terminam com sentimento nostálgico e se regressa à rotina tradicional.
Foi esse sentimento que me transportou ao Outsite Mouco, neste que foi um regresso àquele local e à sua sala de espetáculos, longos meses depois da última oportunidade. Desta vez a razão foi o regresso dos britânicos Deadletter a Portugal depois da estreia no nosso país em Guimarães em setembro de 2023. Neste passado fim-de-semana realizaram dois concertos: um no Porto no Outsite Mouco e outro no Luna Fest em Coimbra. Estivemos presentes no espetáculo da Cidade Invicta ocorrido no passado sábado dia 7 de setembro.

Lourenço Valdez dos Sadhäna | mais fotos clicar aqui
Antes de mais palavras sobre o “prato principal” da noite vale a pena escrever algumas palavras sobre os bravos quatro jovens que tocaram na primeira parte, apelidam o seu projeto de Sadhäna. Eles são Lourenço Valdez (voz e guitarra), Tiago Vaz (bateria), João Valente (baixo e voz) e Vasco (guitarra).
O nome da banda vem do termo sânscrito “Sadhana”, que se refere a um processo de esforço contínuo para alcançar objetivos, algo que reflete a filosofia do grupo na sua abordagem musical e artística.
Eles são oriundos do Porto e fizeram a abertura desta noite após convite realizado pela organização, a promotora Os Suspeitos. Entraram em palco às 21:09h e durante 20 minutos de atuação proporcionaram uma performance perseverante na qual pouco transpareceu a ainda pouca rodagem da banda.

João Valente dos Sadhäna | mais fotos clicar aqui
Lourenço é o vocalista e apresentou-se com bastante à vontade. Teve o apoio vocal do baixista João. Ambos mostraram-se bastante animados, o seu rock’n roll foi o fusível catalisador para uma impetuosa atuação (no bom sentido) que realizaram. Foram bem coadjuvados por Tiago (ele que envergou uma t-shirt dos The Doors) um baterista com pinta artística e por Vasco, guitarrista com uma pose mais comedida.
A mais recente faixa “Tired”, como óbvio, foi tocada. Interpretaram também a canção “Need Home”, uma versão feita de forma propositada para uma dedicatória especial feita ao “velho do rock".

Tiago Vaz dos Sadhäna | mais fotos clicar aqui
Para a parte final ficaram guardadas “NCR”, uma incursão pelo jazz, como referiu o vocalista e também “Die Alive”, single lançado em janeiro deste ano e que foi destacado pela banda por um incrível vídeo. Esta última com honras de integrar a banda sonora dos “Morangos com Açúcar”.
Curiosidade final sobre os Sadhäna: os próprios membros da banda guardaram para si, religiosamente, as setlists que utilizaram.
Zac Lawrence é o enérgico vocalista, um dos três amigos de infância que idealizaram o projeto Deadletter, os outros dois são o baterista Alfie Husband e o baixista George Ullyott. Atualmente são um sexteto contando ainda com um novo saxofonista, o segundo colaborador neste posto em poucas semanas. Poppy Richler, a saxofonista original abandonou o projeto, situação comunicada publicamente há cerca de 2 meses. A banda completa-se com dois guitarristas: Will King e Sam Jones.

Zac Lawrence , o vocalista dos Deadletter | mais fotos clicar aqui
Na noite anterior, na sexta-feira passada, tocaram no Rock In The Barn em Vernon na região francesa Normandia. Bem cedo, neste último sábado, a banda acordou em Paris e na altura para rumarem ao aeroporto de Orly não tinham sinais de Will King. O guitarrista estava desaparecido pese embora tudo o que fosse de sua pertença estivesse no seu quarto. Os restantes elementos seguiram o seu rumo e mesmo antes de embarcarem tiveram uma chamada de King, tinha acordado na arrecadação do hotel à conta do seu sonambulismo… Ao bom modo desportivo e em registo de “photo finish” Will chegou ao Porto a tempo de atuar com os seus companheiros. Falhou o soundcheck porém apresentou-se às 21:51h altura em que o sexteto subiu ao palco.
Os ânimos subiram logo de tom à passagem de “The Snitching Hour”, o segundo tema que os Deadletter interpretaram. Lawrence ficou em tronco nu em “Madge’s Declaration”, a canção que se seguiu. Os dados foram lançados, de lado a lado, de forma convincente: banda e público sintonizaram-se.

Zac Lawrence em pose mais concentrada | mais fotos clicar aqui
“I got shoes, but no soul” cantarolava-se afincadamente em “Madge’s Declaration”: felizmente a banda não ficou “descalçada” e demonstrou que tem “alma para dar e vender”. Algo muito alicerçado na presença espirituosa e atitude algo desgarrada de Zac.
Os eventos dos Mr. November têm um determinado público, o “gangue dos suspeitos” não costuma falhar à chamada. Tal permite ter boas afluências, o que garante casas preenchidas. Este público melómano caracteriza-se por ser de faixas etárias mais elevadas, essencialmente acima dos 30 anos. Neste passado sábado foi bonito ver filhos jovens a acompanhar os seus pais.

Will King, um dos guitarristas dos Deadletter | mais fotos clicar aqui
Além dos já referidos, há outros temas marcantes do concerto: em “Fit for Work” os fãs, a pedido de Zac, fizeram coro com o refrão e “Mere Mortal” soou bastante bem e deixou o público a “salivar” pois é o tema de apresentação do LP de estreia cuja edição está quase aí.
Lawrence soube comunicar nos timings certos, tendo inclusive exclamado para “dançarmos juntos” em tom de pedido amigável. Igualmente fez diversas incursões nas quais desceu de palco juntando-se aos fãs. Na derradeira investida, ocorrida durante o último tema interpretado: “Zeitgeist” ficou aninhado durante algum tempo, foi acompanhado por uma grande porção das pessoas, e ao fim desse momento saltaram todos em ritmo acelerado de festa.
Não foi só Zac a fazer as despesas vocais, às vezes, tal era feito simultaneamente a 4 vozes. Outro aspeto impactante é o som do saxofone e do toque irreverente e sensual que aporta ao som da banda, é claramente imprescindível. Oxalá consigam colmatar a ausência de Poppy com um elemento fixo na banda.

O saxofonista dos Deadletter | mais fotos clicar aqui
De seguida a banda despediu-se e pairou no ar o desejo de encore, tal não veio a suceder e desse modo o concerto terminou por volta das 23h. Performance muito bem conseguida e acompanhada com vigor pelo público, desfrutou cantando e saltando. Os fãs compareceram em bom número pese embora a sala não tenha alcançado o epíteto de lotação esgotada.
Li algumas crónicas de concertos dos Deadletter realizados nas últimas semanas e numa delas questionava-se a necessidade de mais outra banda pós-punk no mercado, sobretudo também por já termos projetos de sucesso como Idles, Yard Act ou Fontaines D.C.. Pode-se facilmente considerar que o mercado está saturado porém quando há bandas que trazem algo novo aos nossos ouvidos como fazem os Deadletter temos de considera-los de forma positiva. Há sempre espaço para esses projetos diferenciadores.

Deadletter em palco | mais fotos clicar aqui
Eles são um dos projetos mais excitantes dos últimos 12 meses e têm crescido de forma sustentada e diferenciada. A prova disto será editada na próxima sexta-feira dia 13 de setembro de 2024. ‘Hysterical Strength’ é o álbum de estreia dos Deadletter e certamente vai comprovar a sua mais-valia. Marquem já na vossa agenda a sua audição e quando tiverem oportunidade não percam estes britânicos ao vivo.
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Deadletter em palco | mais fotos clicar aqui
Texto: Edgar Silva
Fotografia: Nuno Coelho @ iam_noizze (Instagram)
