
Afonso, o porta-voz e timoneiro dos Yakuza | mais fotos clicar aqui
“Sexta-feira gorda” é a expressão que posso aplicar para descrever a jornada vivida pelo coletivo Yakuza no passado dia 25 de outubro. Neste mesmo dia esta formação lançou ‘2’ e tal título não deixa margem para equívocos, trata-se mesmo do 2º álbum editado por estes lisboetas. Na fase diurna este trabalho discográfico foi destacado por diversos meios de comunicação, um dos quais a rádio pública Antena 3. Este é o seguimento natural de ‘Aileron’, disco de estreia surgido em 2020.
Já durante a noite, o dia de apresentação teve outro capítulo, ocorrido na Cidade Invicta com o primeiro concerto no qual alguns dos novos temas foram exteriorizados publicamente. A noite portuense estava recheada de eventos culturais por toda a cidade, mesmo ali ao lado do Maus Hábitos (o local escolhido para este concerto dos Yakuza) aconteceu no Coliseu a 6ª Gala Solidária IPO Porto e mais abaixo o Teatro Sá da Bandeira acolhia um evento de Stand Up Comedy e ainda era a noite inaugural do Rock à Moda do Porto na Super Bock Arena.

Pedro com uma postura bem compenetrada | mais fotos clicar aqui
Com concorrência forte podia-se achar uma data difícil para os Yakuza, no entanto, convém ressalvar que a proposta deste concerto não tinha equivalência no estilo. Por isso conseguiu captar o seu específico público e a sala preencheu-se rapidamente e com bastante frenesim. Uma adesão fortíssima de jovens adultos na casa dos 20 anos, devo referir.
Será sempre bom exercício subir os lanços dos quatro andares de escadas para alcançar o Maus Hábitos e a ligeira falta de fôlego no final da escadaria é o sinal próprio da vontade que temos em chegar ao mítico local.
Pese embora estivesse marcado para as 21h em ponto, certo é que o concerto só teve o seu debute mais tarde. As pessoas chegaram em força, já mais perto das 21h, tendo-se registado fila na entrada. O processo fez-se calmamente e a sala registou uma bonita casa cheia. Durante alguns aprazíveis minutos viveu-se um belo ambiente de convívio antes da atuação iniciar. Os próprios elementos dos Yakuza conviveram nos vários espaços do Maus Hábitos bem tranquilamente por entre amenas cavaqueiras.

Ambiente de boa onda no Maus Hábitos | mais fotos clicar aqui
A vibe estava devidamente criada e foi então pelas 21:31h que os quatro elementos dos Yakuza lançaram-se ao palco por entre uma ligeira timidez. O primeiro a surgir no seu posto foi Pedro Ferreiras (guitarra e sintetizador). Ele que convidou os restantes a juntaram-se e ele: Afonso Sêrro (teclados), André Santos também conhecido como Afta3000 (baixo e sintetizador) e Luis Possollo (bateria). Os primeiros três bem experientes e experimentados com carreiras alicerçadas em diversos projetos de relevo. Já o mais jovem Possolo tem feito caminho em projetos jazz.
Sêrro logo nos primeiros instantes disse que “Hoje tenho de falar… Primeira vez que estamos a tocar isto, vai ser um pouco de improviso”, ele que foi o timoneiro durante toda a atuação. Naqueles instantes em que afirmou estas palavras certamente não imaginava o quão freestyle seria esta atuação… Ele que apresentou-se com uma camisola old school do Belenenses (do tal verdadeiro Belenenses) e logo aí demonstrou uma sua faceta mais retro.
Já o baterista tirou o seu hoodie ao terceiro tema, admira ter demorado tanto tempo. Luis esteve endiabrado durante toda a performance, foi somente a sua segunda com os Yakuza.

Possolo, o vibrante baterista dos Yakuza | mais fotos clicar aqui
O palco era para os fresquíssimos temas e logo na abertura tivemos “Inox”, “Manilha” e “Penha” numa sequência fortíssima e que elevou os ânimos do público, maioritariamente jovens entre os 20 e 30 anos. Esse terceiro tema foi dedicado por Afonso à freguesia lisboeta Penha de França, às suas gentes e às dificuldades. Dedicado às pessoas que não têm dinheiro para comprar uma casa, que dividem um apartamento com mais cinco.
Lembram-se de ter referido ao estilo freestyle uns parágrafos atrás? A atuação foi meio de improviso, um dos motivos para tal foi a persistente recusa de contribuição do teclado Korg M1. “Está vivo” afirmava Sêrro a determinada altura quando o dito instrumento correspondeu. Foi apenas intermitência, foi mesmo sol de pouca dura… Socorreu-se maioritariamente dos outros três teclados em palco, é que o Korg M1 nem com pancadinhas algo carinhosas (o local da falha foi identificado) quis juntar-se de plena alma à festa. Efetivamente foi isso mesmo que presenciei nesta noite de Maus Hábitos, público a curtir o som e a comungar o momento com a banda. Felizmente os Yakuza sentiram todo o calor humano emanado dos fãs e proporcionaram o seu melhor.

Afonso com a sua camisola do clube da cruz de Cristo | mais fotos clicar aqui
A estrutura densamente urbana do som produzido pela banda advém das texturas hipnóticas dos teclados, do vigor irado da bateria, das camadas belissimamente arranhadas e eletrónicas dos sintetizadores, sem esquecer os acordes sensuais do baixo. Som claramente inspirado em Lisboa, nos seus bairros e nas suas gentes.
A música instrumental dos Yakuza tem diferenciados elementos de jazz, só que a sua alma vai bem além deste estilo indo buscar inspirações sonoras a muitos recantos do planeta bem como a outros estilos musicais.
Do novo álbum ‘2’ interpretaram igualmente “Batota”, “Truque di Mnete” e “Partido Alto”. Pelo meio tocaram “Tuning”, o seu tema mais reconhecido, recebido com alegria pelo público.

Afta3000, o responsável pelo sintetizador e baixo | mais fotos clicar aqui
Belíssimo e portentoso desempenho do baterista, o elemento +1, completou o trio base com uma vitalidade impressionante. Aqueles momentos em que o teclista e baterista pareciam estar ao despique fizeram demonstrar um jeito de cumplicidade de quem já toca juntos há imenso tempo, o que não era o caso.
Antes do encore de dois temas, Afonso Sêrro exclamou em jeito desabafo“o teclado fodeu-se” ao que alguém do público respondeu “tens mais três”. A resposta soou do tipo “tens muito jeito e garra, com toda a certeza vais conseguir contornar a situação”. Pelo meio de muito improviso e transpiração com alma os Yakuza conseguiram, durante uma hora e meia, satisfazer uma plateia muito ávida por se conectar com a banda.
Um concerto é muito fixe quando uma banda toca “exatamente como soa no disco”. A magia de uma performance eleva-se a outro nível quando, por entre algum improviso, a atuação é “arrancada a ferros” e é vivida intensamente por quem a faz e por quem a assiste. Os quatro elementos dos Yakuza merecem felicitações por este concerto de apresentação do álbum ‘2’, reforçou a sua qualidade enquanto coletivo alicerçado no jazz e que procura fazer algo aprazível e inovador.
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Perspetiva do palco a partir do lado direito | mais fotos clicar aqui
Texto: Edgar Silva
Fotografia: Aitor Amorim @ torstudio (Instagram)
