Sonus Art Fest 2024: Maré de descoberta do indie Sound emergente

Joe e Harry dos Maruka | Foto Mariana Silva @ Sonus Art Fest

Em 2022 emergiu o Sonus Art Fest numa empreitada ousada por Pedro Carvalho, Filipe Carvalho e João Lemos. Estes três jovens empreendedores são os responsáveis pela Revista Sound e igualmente os fundadores deste festival artístico. Um evento que vai além da música, embora este seja o seu foco principal. Proporciona também espaço físico a jovens criadores. Estes ganham assim, deste modo, uma plataforma para exporem a sua criatividade em áreas diversas que vão da fotografia, ao design ou pintura, só para citar alguns exemplos.

Depois do sucesso das duas primeiras edições, a do ano passado ficou marcada pela estreia nacional dos britânicos Deadletter, banda em claro crescimento de notoriedade, a terceira edição realizada no passado sábado (feriado do 5 de outubro no qual se comemora a Implantação da República) tinha sob si um véu de curiosidade diferenciado de forma positiva, colocando assim o nível de interesse noutro patamar mais elevado relativamente às duas edições precedentes.

Tal como em anos anteriores, o evento teve o seu arranque pela tarde com programação gratuita: exposições artísticas disponíveis para visita bem como showcases de projetos emergentes.

Perspetiva da zona das exposições | Foto Mariana Silva @ Sonus Art Fest

Em fim-de-semana de temporal no norte de Portugal, Guimarães foi igualmente brindada pela avalanche de uma chuva bastante intensa e persistente. A organização viu-se na contingência de programar os showcases num local abrigado. Passou dos Jardins da Fraterna para um espaço coberto contíguo, um edifício coberto que tem ao lado os Tanques da Fraterna. Foi a solução possível e que permitiu a realização desta parte do evento, um espaço com um feeling visual a fazer lembrar um estábulo.

Luís Contrário foi o primeiro a atuar, tendo iniciado já com um atraso de praticamente 30 minutos. Luis Rocha, artista do Porto por detrás deste projeto trouxe a Guimarães o seu álbum ‘Mú​sicas de dan​ç​a para pessoas tristes’ e perante um espaço bem preenchido teve uma performance positiva e um bom cartaz-de-visita ao seu experimentalismo eletrónico dançável.

Teve a dificuldade de grande parte das pessoas terem estado em regime de sala de estar, em amena cavaqueira e convívio. Ainda assim notou-se que deu o seu melhor.

Luís Rocha com o seu projeto a solo Luís Contrário | Foto Mariana Silva @ Sonus Art Fest

O duo feminino June Carousel foi o seguinte no “palco” improvisado. Estas duas meninas são a alemã Meret Ester e a irlandesa Tricia Collins e trouxeram a sua vibe de boa onda de inspiração folk diretamente de Berlim.

Ambas são cantautoras, sendo que trocam de letras uma com a outra, ou seja, uma escreve e a outra canta. Neste seu regresso a Portugal, em estreia total em Guimarães, trouxeram-nos canções novas e ainda a amiga cantora Antoní que deu o seu apoio vocal no tema “The Magician”, um tema lançado oficialmente na sexta-feira prévia. “Sirens” e “Record Store” foram outros temas tocados

Duas singelas vozes, um banjo e uma guitarra clássica são elementos combinativos de June Carousel e esta apresentação teve um travo bem fofo e aprazível.

O duo feminino June Carousel | Foto Mariana Silva @ Sonus Art Fest

O momento mais destacado do trio de showcases teve início às 19:09h, foi o último, e coube aos Safari Zone. Eles que trouxeram o poder elétrico total com formação completa por entre guitarras, bateria e teclados. Este quinteto lisboeta existe desde 2019 e o seu indie rock é alicerçado na voz feminina da sua vocalista, ela que demonstrou-se bastante feliz e de sorriso largo. Deu para ter noção do seu poderio vocal.

Lua (voz e guitarra), Joe (guitarra), Lamego (baixo), Panda (teclados e guitarra) e Vasco (bateria) com visuais distintos, no entanto, têm todos a pinta certa para uma banda de indie pop/rock. No próximo ano vão lançar álbum e alguns dos novos temas foram tocados, para referência futura ficam as citações de “Shoe Box” e “Is It Indie Already?” o mais recente single lançado em junho deste ano.

Os Safari Zone, a grande descoberta dos showcases | Foto Mariana Silva @ Sonus Art Fest

Terminada a secção vespertina do Sonus Art, já num horário bastante adiantado, foi o momento para o jantar cujo local teve escolha bastante limitada devido à decisão de não afastar-me muito do Teatro Jordão. Após uma fantástica refeição liguei o meu modo “radar musical”, preparado para a descoberta de três bandas nunca dantes ouvidas e a repetição da única banda nacional do cartaz noturno.

A banda britânica Children of The Pope devia estar ansiosa pela atuação, ao ponto de terem entrado em palco 2 minutos antes das 21:30h, hora marcada para o início. Este quinteto apresentou-se como sendo do “sul de Londres” embora os primórdios do projeto tenham surgido no Brasil.

Children of The Pope em palco | Foto Mariana Silva @ Sonus Art Fest

O início do projeto aconteceu pela junção de esforços de João Oliveira (compositor e guitarrista) cujo nome artístico é Juno Valentine e Guilherme Fells (baterista que também toca com os Fat White Family). A eles juntaram-se Tilda (teclados), Glenn Wild (guitarra) e James Robert (baixo).

A sala foi-se compondo com o decorrer desta primeira atuação. Eles que fizeram a estreia mundial de um novo tema além de terem tocado outras canções do seu repertório já editado como, por exemplo, “Thalidomide Boy” e “Street of Chance” numa fase inicial da performance. Mais adiante também tocaram “The Seventh Seal” e terminaram com “Dying Cold” e “Sailing the Canals”. Teve diversas ocasiões em que cantavam a quatro iradas vozes.

Demonstraram o seu rock ‘n’ rol num modo bem cru por entre diversos riffs sujos e intensos, pelo meio surgiram laivos de blues acrescentando uma nova camada sonora como se fosse uma especiaria extra. Estes Children of The Pope deixavam-me com muitas boas sensações e irei acompanhar a sua carreira.

Tilda e Juno Valentine dos Children of The Pope | Foto Mariana Silva @ Sonus Art Fest

Seguiu-se outra estreia em Portugal, foram os Blue Bendy, eles que trouxeram o seu álbum ‘So Medieval’ editado no passado mês de abril. Um trabalho discográfico que obteve reviews com pontuações bem elevadas por meios bem conhecidos do universo jornalístico musical britânico e atenção generalizada.

Este sexteto, igualmente de Londres, composto pelo vocalista e letrista Arthur Nolan conta igualmente com Oscar Tebbutt na bateria, Harrison Charles na guitarra acústica, Joseph Nash na guitarra elétrica, Olivia Morgan e nos teclados/sintetizadores e Oliver Nolan no baixo. Notas desde já bem particulares: Arthur Nolan, o vocalista, apresentou-se de vestes pretas e azuis escuras e de chapéu sendo que a tempo inteiro revelou-se sempre bastante expressivo. Já Harrison Charles atuou sentado.

Estreia vimaranense dos Blue Bendy | Foto Mariana Silva @ Sonus Art Fest

Ligeiros problemas técnicos fizeram alteração no ritmo crescente com que iam tocando os seus temas. Felizmente a cadência foi recuperada um bocado mais tarde no decurso da sua atuação. Foi possível escutar alguns dos temas de ‘So Medieval’ tais como “Darp” ou “Come On Baby, dig!”. Para encerramento de performance ficaram dois dos temas mais ouvidos online “Mr. Bubblegum” e “Cloudy”. Pese embora as dificuldades menores o seu post-punk ficou bem comprovado com notas sonoras bem evidenciadas.

Para o grande momento, já esperado que assim fosse, os Maruja foram claramente os favoritos da noite com o evidente pico de audiência da jornada noturna. Entraram em palco por entre uma densa nuvem de fumo e logo aí notou-se ao que vinham. Desta vez com a presença do saxofonista Joseph ao contrário da presença anterior em Portugal no SonicBlast deste último verão.

Maruja em palco | Foto Mariana Silva @ Sonus Art Fest

A banda vive muito pela presença do vocalista Harry e do saxofonista Joe: que dois plenos e irreverentes figurões! Harry apresentou-se de calções vermelhos e muito rapidamente ficou em tronco nu, aparentemente é algo recorrente de sua parte. Joe sempre com o seu saxofone por perto contudo nunca esteve parado mais do que um segundo, literalmente um segundo. Ambos deram espetáculo ao mesmo tempo que um cantando e o outro tocando. Tanto um como o outro subiram por diversas vezes às colunas que estavam mesmo em frente do palco e incitaram o público à participação. Algo que contribuiu, decisivamente, para o excelente ambiente através de uma atitude pujante do público a coadjuvar o quarteto britânico.

Joseph fez crowdsurf tal como Harry (no penúltimo tema) e permitiram-se a externalizar os seus íntimos rebeldes. Já o baixista Matt e o baterista Jacob contribuíram mais à sua maneira, intensos porém mais resguardados.

Harry dos Maruja | Foto Mariana Silva @ Sonus Art Fest

“Break The Tension”, o single mais recente da banda, foi apresentado. Outros temas relevantes como “Invisible Man”, Zeitgeist” e “Thunder” fizeram também parte da setlist.

Maruja foi concerto, foi também todo um completo show punk rock. A estreia em Guimarães foi memorável e ficou marcada, de forma indelével, na história do Sonus Art.

0:53h foi o pontapé de saída para a derradeira atuação do Sonus Art 2024 com o trio MДQUIИД.. Vi-os pela sétima vez, só contando as performances deste ano, e mais uma vez demonstraram a sua imagem de marca e rigor. Um regresso aos concertos com o palco cheio de fumo, pese embora tenha sido por pouco tempo. O trio demonstrou-se bem mais solto, nomeadamente Tomás no baixo e João na guitarra, do que na noite anterior em Braga. Lá, na capital do Minho, atuaram no RUM by Mavy cujo palco é de dimensões bastante reduzidas.

Tomás dos MДQUIИД. | Foto Mariana Silva @ Sonus Art Fest

A repetição krautrock, a força do techno industrial, o recurso a efeitos de voz ecoantes fazem deste projeto uma força viva nacional com ecos além-fronteiras. Provavelmente terá sido a última vez em 2024 que os vi ao vivo, foram 7 vezes, entre diversos espaços e eventos, curiosamente sempre em festivais.

A efervescência no público teve réplica de grau acentuada. Os “emes” da noite foram bastante poderosos. O público aderiu quase instintivamente e o crowdsurf regressou naturalmente para encerramento de forma festiva e bem alegre.

Tomás dos MДQUIИД. | Foto Mariana Silva @ Sonus Art Fest

O momento anedótico de toda a jornada aconteceu com uma invasão de palco neste concerto dos MДQUIИД.. Sem que se contasse com tal, quase de forma natural, um elemento do público esteve a filmar com toda à vontade do mundo durante alguns momentos. A situação acabou por ser resolvida pela organização com prontidão e segurança.

“Who’s gonna drive you to night” (tema “Drive” dos The Cars) soava na instalação sonora mesmo logo após o final do concerto dos MДQUIИД. em forma de convite para irmos embora em segurança após longas horas com clima bem adverso.

Efervescência do público durante os MДQUIИД. | Foto Mariana Silva @ Sonus Art Fest

O Sonus Art tem demonstrado bastante potencial dentro do circuito independente de festivais nacionais revelando-se igualmente uma mais-valia a Cidade-Berço. Por isso, o meu desejo é que o evento predomine no tempo e que consiga manter, quiçá elevar, este seu nível e esta programação de dar voz e um espaço aos diversos tipos de talentos existentes por todo este país e até outros vindos do estrangeiro.

Agradecimento final para a organização do Sonus Art Fest pela sua simpatia e por me ter acolhido tão bem no evento. Igualmente pela disponibilização das fotos utilizadas nesta reportagem.

Texto: Edgar Silva
Fotografia: Mariana Silva @ marianasilvax (Instagram) // Fotos Oficiais Sonus Art Fest

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.