Julia Holter em participação com Tashi Wada
Nas primeiras semanas de 2018 surgiu um “novo” festival no meu “radar” e cuja quinta edição realizou-se nesse mesmo ano entre 11 e 14 de abril. Fiquei logo com uma intensa curiosidade por este evento que cuja realização acontece precisamente na cidade em que nasci. Tratou-se precisamente deste Westway LAB. Alias, procuro sempre ter conhecimento e seguir (até mesmo presencialmente) os eventos musicais que mais me interessam na Cidade-Berço. Daí que acabou por ser de forma natural a minha presença altamente interessada e curiosa em todos os dias dessa edição. Confesso que fiquei deliciado com essa experiência de 2018 e, desde logo, apontei na agenda presenciar a edição de 2019. Ainda hoje estão na memória bandas que descobri: casos dos austríacos Cari Cari e dos Molly. Felizmente a agenda não sofreu mexidas de última hora pelo que pude marcar presença em todos os dias do Westway Lab 2019.
A~edição deste ano realizou-se entre 10 de abril (quarta-feira) até 13 de abril (sábado). Rui Torrinha, diretor artístico do evento, definiu o evento em 3 eixos principais: residências artísticas, conferências e concertos. Essas residências artísticas antecederam os principais dias e decorreram de 1 a 9 de abril no Centro de Criação de Candoso, localizado na zona limítrofe da parte urbana da cidade.
A equipa do HeadLiner, na qual me inclui, esteve em todos os dias de atividade pública, ou seja, nos concertos e showcases. Este evento tem também uma componente profissional com conferências, talks e outras situações de “networking” nas quais participam profissionais (artistas e agentes) e interessados no vasto tema que é a música e o qual é discutido e aprofundado.
Para contar-vos ao que assisti decidi dividir este artigo em 3 partes: showcases das residências artísticas, showcases na cidade e concertos.
RESIDÊNCIAS ARTÍSTICAS
Foram 4 as residências artísticas realizadas. O resultado do trabalho foi mostrado ao
vivo em duas noites seguidas no Café Concerto do Centro Cultural Vila Flor.
Na quarta-feira (dia 10) tivemos duas performances. Dois membros dos canadianos Tribe
Royal uniram forças com Yosune, uma venezuelana radicada em Portugal mais especificamente no Porto. Finalizaram com Yosune citando Fernando Pessoa
numa canção. Todos os elementos tocaram guitarra e demonstraram uma boa vibe numa atuação agradável.
Nessa mesma noite tivemos Pedro Ribeiro, vimaranense mais conhecido pelo seu nome artístico Captain Boy a unir forças com a bela italiana Violetta Zironi. Tocaram canções sobre o encontro de 2 estrangeiros desconhecidos, pois foi isso mesmo que aconteceu com ambos. Para tão pouco tempo de trabalho demonstraram um entrosamento bonito de se ver. Foi uma performance suave e muito bem conseguida tendo terminado com uma canção sobre saudade, significado que o português tratou de explicar à italiana.

Violetta Zironi com Captain Boy: o destaque da primeira noite de showcases
Já na quinta-feira (dia 11) a única dupla lusitana destas residências juntou João
Pascoal (membro dos The Happy Mess) com a vimaranense Sofia Ribeiro
conhecida pelo seu projecto Lince. Por entre sintetizadores e o som do teclado deram-nos a ouvir o seu ritmo virado para a eletrónica. Mais uma atuação bem recebida pelo público que preencheu de vida o Café Concerto.
Para encerrar esta noite a portuguesa Beatriz Nunes uniu-se aos Mickey da Áustria e apresentaram aquele que acho ter sido a melhor apresentação de entre estas quatro. Mais uma performance com fortes retoques eletrónicos (tal como a anterior) por entre sintetizadores e a guitarra dos Mickey. Para mim foi uma total surpresa a bonita voz da lusitana e a animação contagiante de um dos membros austríacos. O público ficou
devidamente rendido.

Beatriz Nunes com os Mickey: o destaque da segunda noite de showcases
SHOWCASES NA CIDADE
“City Showcases” assim foram apresentados oficialmente. Por locais espalhados pela cidade foram realizados 8 pelo que tivemos de dar trabalhos forçados às pernas. Apesar do tempo cinzentão e do orvalho que ia caindo (ora mais intenso, ora menos intenso) a vontade de percorrer as ruas de Guimarães manteve-se inalterável. Certo é que não
visualizei todas as performances na sua totalidade, agora naquelas que não vi por completo, fiquei com uma boa “pincelada” dos seus variados estilos e da sua qualidade.
Iniciamos o percurso no Santa Luzia ArtHotel pouco depois das 15 horas com um
guitarrista: Francisco Sales. Um mestre sem dúvida, confirmei as credenciais que lhe dão reconhecidas. Em seguida rumei até à Associação Convivio. Aí ouvi Elin Namnieks uma loira sueca acompanhada por guitarrista e baterista tendo-nos apresentado o seu pop
rock fácil de ouvir.
Ligeiramente mais acima no centro histórico de Guimarães entramos
no Oub’Lá. No primeiro concerto da tarde naquele espaço ouvi Mickey em versão duo. Bar cheio e a bailar ao som da batida altamente dançável por entre loops, guitarra e percussão.

Mickey ao vivo no Oub’Lá
No roteiro seguiu-se o Bar da Ramada para uma grande surpresa. Os Theodore da Grécia tocaram o seu indie rock de muita boa qualidade. Uma banda de 5 elementos a explorar mais atentamente.
No Tribuna (situado no edifício do São Mamede) a portuguesa Beatriz
Nunes demonstrou a suavidade da sua voz acompanhada apenas por piano. “Resistência” foi uma das canções que cantou cuja história remonta a uns anos atrás quando um governante deste país aconselhou os jovens a emigrar. Aqui foi a altura para respirar um pouco e dar algum descanso ao corpo. Certo é que ainda estávamos a 3 showcases do fim do roteiro. Findo esse repouso do guerreiro, eis que regressamos ao Convívio. Aí assistimos à performance dos Holy Nothing. A sala desta associação cultural encheu-se de curiosos sendo que ficamos com boa impressão auditiva do tecno pop deste trio portuense. Em seguida novamente um salto ao Oub’Lá, por lá estavam os Izzy and the Black Trees, banda polaca a tocar pela primeira vez fora do seu país. Uma típica formação de quatro elementos apresentou o seu indie rock. Por fim faltavam os Smartini. Um grupo vimaranense com raízes nas Caldas das Taipas já com muita experiência. Performance bem sólida.

Theodore ao vivo no Bar da Ramada, um dos grandes destaques da tarde de showcases pela cidade.
CONCERTOS
Este ano o evento iniciou-se com um concerto de abertura, na noite de quarta-feira dia 10 de abril.
Jacco Gardner apresentou o seu mais recente álbum ‘Somnium’. Ficando com a sua companheira no centro do palco rodeado por cadeiras, a lotação ficou longe de esgotada (infelizmente), ouvi muito atentamente a sua electrónica dançante e pulsante. Deu para notar que doma qualitativamente o experimentalismo. Foram sons e ruídos sintetizados que fizeram parte de uma espécie de floresta densa e colorida num ambiente escuro em que as luzes vibraram e quebraram essa mesma escuridão.
A noite de quinta-feira 11 de abril contou com outro concerto. Desta vez no Café
Concerto com Violetta Zironi, a regressar a solo. Canta em inglês, toca piano e guitarra. Ia com a expectativa de a ouvir em italiano… Estreou-nos ao vivo a canção “Hungry to Kill” e deixou-me com água na boca. Uma das primeiras descobertas interessantes, porém não a última.

Violetta Zironi em concerto a solo no Café Concerto do CCVF
Para a noite de sexta-feira dia 12 de abril esteve reservada a primeira grande noite de concertos. Este ano país convidado foi o Canadá e trouxe a Guimarães belíssimos intérpretes. Nessa mesma noite também subiram aos palcos (o recinto teve nesta noite 3 palcos a funcionarem em simultâneo) artistas portugueses. As grandes surpresas foram os Les Deuxluxes com o seu puro rock & roll em formato duo e os Tribe Royal em formato banda também a navegarem no rock porém com outras referências tais como
o folk. Relativamente aos restantes: Os The East Pointers alegraram o público com o seu folk mixado com country no qual a presença constante de instrumentos como o banjo e o violino atribuem ao seu som características particulares da América do Norte. Sarah Macdougal e Megan Nash foram outras artistas que marcaram presença.

Les Deuxluxes: um dos claros destaques da “armada” canadiana
Os Vaarwell formado por 3 elementos mostraram o seu dream pop electrónico. A única guitarrista profissional de Fado Marta Pereira da Costa tocou no Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor com banda completa e proporcionou aos presentes (infelizmente não eram assim muitos…) uma belíssima performance. A última banda da noite foram os Neev, um som bastante denso e pujante.

Marta Pereira da Costa: o fado no Westway LAB
Para a última noite: sábado 13 de abril, de entrada totalmente paga, foi altura para o foco aos artistas de Guimarães. Todos de estilos musicais bem diferentes tendo todos apresentado algumas das suas novas canções. Captain Boy com cantigas melodiosas e apaixonadas. Mister Roland projecto de Rolando Ferreira com um total travo norte-americano entre o folk, o rockabily e o country. O meu destaque recai nos Paraguaii: tocaram o seu álbum ‘Kopernikus’, músicas mais intensas, brutas e densas relativamente ao que já lhes conhecíamos. Tão densas quanto o fumo presente em toda a sua performance. O concerto mais concorrido foi dos The Black Mamba sempre comandados pela energia contagiante de Tatanka. Os leirienses Whales não deixaram os seus créditos por mãos alheias e mostraram-nos os seus temas.
A performance mais particular da noite foi a de Tashi Wada (teclado) com a participação de Julia Holter (teclado) e Corey Fogel (bateria). Assisti a uma sessão de experimentalismo psicadélico naquela que foi uma experiência sensorial a todos os níveis.

Julia Holter e Tashi Wada
A noite terminou com pista de dança e com Pedro Coquenão conhecido pelo seu projecto Batida e “The Almost Perfect DJ”.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Notei uma evolução tremenda e bastante positiva relativamente à edição do ano
passado. Nesta edição de 2019 foi criado um recinto fechado no qual pude circular livremente entre todos os palcos, tal como o restante público. Existiu um cuidado particular com a decoração do espaço em que contentores de líquidos de cor branca foram colocados à entrada com as iniciais do festival e também colocados dentro do Grande Auditório. Foram iluminados e deram um impacto visual bem-sucedido e muito engraçado.

Entrada do recinto no Centro Cultural Vila Flor
Todas as performances foram de alta qualidade, o que eleva o nível do certame. Temos
de ter em atenção a presença de diversos artistas/bandas ainda numa fase inicial de carreira. O contraponto perfeito é igualmente a presença de artistas/bandas já com alguma experiência de estrada. Nessa partilha de experiências certamente todos ficam a ganhar.
Para o público geral (não só), a mais-valia deste evento é a descoberta de artistas nacionais e internacionais que de outra maneira não conseguiríamos desvendar. Especialmente os internacionais. De outra maneira dificilmente iria ter conhecimento de bandas como os Les Deuxluxes ou Tribe Royal ou até da italiana Violetta Zironi. Estes
três as descobertas mais deliciosas de todas.
Toda a organização fez um trabalho meritório e bastante profissional, algo já
recorrente em eventos no Centro Cultural Vila Flor. Aquele local dedicado a eventos culturais assenta perfeitamente na realização do evento e Guimarães sempre acolhedora deixou a todos maravilhados. Basta seguir as redes sociais dos vários artistas estrangeiros
para perceber isso mesmo.
Foi incrível viver e verificar a alegria de quem frequentou o Westway Lab. Desde artistas participantes (e não participantes no evento) que conviviam de forma bastante amigável indo até aos profissionais do mundo da música presentes pelo certame. Vi vimaranenses (e não só) a repetirem a presença relativamente ao ano passado assim como a visita de artistas que estiveram em Guimarães envolvidos no ano anterior, tal é o caso da estoniana Elizabete Balčus.
O menos positivo a registar é mesmo a afluência moderada de público. Creio que ainda falta cativar de uma forma mais firme o restante público vimaranense através de uma comunicação mais incisiva e simples. Talvez outros eventos no centro da cidade nos dias anteriores ao festival possam espevitar a curiosidade.
Todas as fotos do Dia 1: clicar aqui
– Jacco Gardner
– Tribe Royal + Yosune
– Captain Boy + Violetta Zironi
Todas as fotos do Dia 2: clicar aqui
– Violetta Zironi
– João Pascoal + Sofia Ribeiro (Lince)
– Beatriz Nunes + Mickey
Todas as fotos do Dia 3: clicar aqui
– Vaarwell
– Marta Pereira da Costa
– Sarah MacDougall
– Tribe Royal
– Lex Deuxluxes
– The East Pointers
– Neev
Todas as fotos do Dia 4: clicar aqui
– Francisco Sales
– Elin Namnieks
– Mickey
– Theodore
– Beatriz Nunes
– Holy Nothing
– Izzy and the Black Trees
– Smartini
– Captain Boy
– Tashi Wada Group feat. Julia Holter
– Mister Roland
– The Black Mamba
– Paraguaii
– Whales
– Batida apresenta: The Almost Perfect DJ
Texto:
Edgar Silva
Fotografia:
Jorge Nicolau
