Viver o campo é viver o Rodellus – A estória | Reportagem

image

Eram perto das 4h da tarde, muitas nuvens cobriam o céu azul
mas fazia-se sentir o calor no ar com o Volvo V40 de 2003 à pinha. Confiávamos
no GPS que nos levava por entre ruinhas e ruelas, por vezes bem estreitas sem
saber se o destino seria realmente a aldeia de Ruilhe. Após percorrermos uns
kms desconhecidos, avistamos uma placa que dizia “Ruílhe”, sim, estávamos de
facto no caminho certo.

Levantamos a pulseira com o slogan “Quem Pode, Poda!” e conduzimos
pela aldeia adentro seguindo a boa sinalização que nos guiou até ao campo de
futebol. Bem ao lado estendiam-se colina abaixo as já algumas das tendas
prontas para viver os 3 dias do festival.

Começámos assim a “Odisseia pelo Campo”.

image
image

Capítulo I

Com o cair da noite, as luzes do campismo acenderam-se
criando um rasto de luz que nos levaria ao caminho do Palco Cunha, palco da 1ª
noite. Percorremos a aldeia até ao belo parque de merendas Cunha. No palco já
se ouviam os Grandfather’s House deixando para trás os lisboetas Madrepaz. A
banda bracarense liderada por Rita na voz e nos teclados veio com a sua dream pop, mesmo que por vezes tenham
soltado o rugido da guitarra de Tiago como aconteceu em “Sorrow”.

O terceiro nome do alinhamento do dia que contou com entrada
gratuita foi o dos The Lazy Faithful que com a casa bem preenchida, carimbaram
aquela noite com selo do rock and roll
com as malhas de “Good Night” ou uma das nossas favoritas “Nukin’ in the
Cookin’” soltando a primeira moche na linha da frente.

image

Para fechar a noite, veio a poesia bruta de O Gringo Sou Eu.
O artista brasileiro acompanhado dos seus beats retirou muitos pés do chão
cantando “Felicibookdade” ou “Breack Turístico” como criticas à sociedade dos
dias de hoje. Na reta final ainda se fez acompanhar por bidões e latões, os Tukbatuk, grupo que o próprio fundou, num momento live
fazendo lembrar o grupo de NYC Stomp.

Já com a noite bem
entranhada no céu regressamos ao ‘O Grande Ruílhe Hotel’, ou como lhe chamam, o
campismo.

Capítulo II

Dia 20 de julho, já de
barriga cheia por aqueles petiscos dignos de um festival de verão que todos
vocês sabem e, depois de um banho fresco, bem fresco, seguimos mais uma vez
para o bonito Palco Cunha, servido por uma relva bem verde que nos levaria à
piscina natural do parque, ou como têm dito por aí, o tanque.

Bem de tarde por volta
das 17h, tocaram os Sunhui apresentando o seu trabalho de estreia com o mesmo
nome. O Rodellus marcou assim como o primeiro festival em que a banda de Braga
alguma vez tocou. Pouco mais de uma hora depois veio a dupla Tresor&Bosxh e
sua banda sonora digna de um filme de Sci-Fi. Uma autêntica viagem por beats
bem espaciais que fazem lembrar trilhas sonoras dos melhores filmes de ficção
científica, apresentado o seu mais recente EP ‘Grocery’.

image

Na foto Sunhui
Créditos © Hélder Oliveira // Undertow

A noite chegou e com ela
finalmente o primeiro dia do tão esperado arraial. O Palco Eira fez as honras com Omie Wise a dar as boas vindas às pessoas
que começaram a encher o recinto. De seguida, o salto foi para o Palco Rodellus
e o contentamento dos Astrodome por abrirem o grande palco. O psicádelismo da
banda encheu os ouvidos com longos riffs quase como se de uma aula de solos se
tratasse. A banda do Porto veio com o seu mais recente EP ‘II’ e as suas longas
viagens pelo fuzz, não é ao acaso que cada música tinha uma média de 7min(!!).

Foram o mote perfeito
para o turbilhão e força bruta dos Mother Engine. Normalmente o baixo é o
esqueleto de uma banda enquanto a guitarra dá forma ao “corpo”, esqueçam isso.
A banda alemã fez com que isso seja um mito e a força dos seus instrumentos é
tal que fez lembrar uma locomotiva a rodar a alta velocidade levando tudo à
frente e, ao vivo, essa pujança foi ainda maior com a banda praticamente sempre
em contraluz impondo respeito.

image

Na foto Mother Engine
Créditos © Hélder Oliveira // Undertow

Para fechar o palco
principal vieram os The Cosmic Dead entrando em palco com muito humor traduzindo o
seu nome, “morte cósmica”, com aquele sotaque escocês. A banda anda em mini
tour por Portugal com 5 datas, sendo o Rodellus a primeira paragem para a banda
de Glasgow. Saímos do palco principal, todo ele vedado por metades de troncos, talvez
de pinheiros(??), e com a sua entrada bem ao estilo western com placas
penduradas a dizer “Rodellus” que davam um ambiente bem acolhedor.

Em direção aos últimos
cartuchos do Capítulo II, fomos a um dos mais bonitos palcos do país, o Palco
Eira, que tinha como cenário um grande espigueiro que tornava a interação
com o público ainda maior. Fomos ver os nuestros hermanos vindos diretamente de
Vigo, Kings Of The Beach, trazendo na sua bagagem o garage surf rock rasgando campo a dentro
com o seu rock explosivo sem medo do campo, fazendo lembrar bandas como Fidlar.

A noite já era longa,
mas não seria o Rodellus uma odisseia pelo rock sem ter os The Cavemen. Vindos
do outro lado do globo, os homens da Nova Zelândia trouxeram muito rock e
irreverencia fazendo lembrar os The Stooges. O frontman Paul é o sinonimo de loucura e suor, não tivesse ele
tirado pouco tempo depois a sua t-shirt e oferecido a mesma ao público, um
gesto que repetiu dando o seu próprio corpo mostrando que o punk is not dead. Quando tudo indicava o
final do concerto, eis que a banda volta com o guitarrista a ser engolido pela
plateia mostrando que não há barreiras no rock.

image

Na foto Paul – The Cavemen
Créditos © Hélder Oliveira // Undertow

Com transportes
gratuitos entre o recinto e o campismo, o resto da viagem fez-se sobre 4 rodas
até adormecermos no inclinado terreno já perto do amanhecer.

Capítulo III

Após três dias de muito
rock e pó, o festival para gente sem medo do campo chegou ao fim.

O dia seria de certo o
mais quente dos três, algo que nos levou a pegar no campingaz bem cedo rumando
ao Palco Cunha. Montamos o estaminé bem ao lado da piscina, a.k.a. tanque, e lá
cozinhamos uma deliciosa la pasta con
tuna.
Com uma hora de atraso, De Turquoise começou a tocar por volta das
17:00, apresentando o seu mais recente EP ‘Camomila’. A tarde foi dedicada ao
dedilhar da guitarra, sendo o próximo nome um dos mais fortes da seleção
nacional, Filho da Mãe. Veio a apresentação o seu 4º álbum de estúdio,
‘Água-Má’ tendo sido interrompido por problemas técnicos levando o artista a
deixar o palco. Momentos depois e já com tudo resolvido, Rui
Carvalho volta a palco dando de novo vida à sua
guitarra e às mil e uma melodias que cria com o seu instrumento.

image

Ao final da tarde, fomos
a caminho do Palco Rodellus aldeia abaixo pelas ruas de calçada, onde fizemos a
primeira pausa na Casa do Músico, um bonito e acolhedor café. A uns longos
metros ainda mais abaixo ficava a junta de freguesia e o conhecido Externato infante D. Henrique, bem ao lado do recinto. Percebemos que estamos
num festival eclético e único quando passamos o pórtico de entrada e andamos
sob uma vinha. No final deste céu carregado de uvas encontramos uma horta
biológica e, na direção oposta, uma montra de produtos biológicos que se
estende até à zona de restauração no qual todos os campestres -festivaleiros-
são convidados a cheirar e sentir.

Depois dos fafenses El
Señor
terem aberto o palco principal, e desta vez sob um céu estrelado, foram
os Imploding Stars que trouxeram o post-rock ao campo. Entre muitas homenagens,
veio o agradecimento ao festival “É de louvar este festival. Com muito pouco se
faz algo tão grande”. Uma das bandas mais esperadas da noite por estarem a
apresentar o seu 2º álbum ‘Riverine’, álbum cheio de sentimento, algo que se vê
a olhos nus pelo quinteto de Braga em palco. Um concerto cheio de explosões
sonoras, consequência de três guitarras tocarem ao mesmo tempo por vezes com acordes diferentes. Um concerto que vai ficar na memória, sendo nós claros fãs
dos conhecidos Explosions In the Sky.

Depois do sentimento de
saudade, de amor, o disco mudou e veio o sangue e suor dos franceses Slift. Uma
banda que claramente anda pelos campos musicais entre King Gizzard ou de Thee
Oh Sees
, este trio veio determinado a fazer estragos levantando muita poeira
com a sua distorção ao máximo. Com o pescoço a exprimir o que o corpo não foi
capaz, a banda oriunda de Toulouse ao começar com o fuzz de “Dominator”,
soltou as primeiras moches da noite. Com o ‘R’ (de Rock ou de Rodellus?), no
pano de fundo do palco a ser alvo de projeções psicadélicas ao vivo, a banda
quase teve de ser expulsa do seu habitat natural por já ter passado o seu tempo
de antena.

image

Conseguem imaginar rock
psicadélico com um saxofone ou uma flauta transversal à mistura? Não? Então
ouçam Ecstation Vision. O quarteto veio com vontade de partir tudo apesar do
contratempo anterior. O vocalista, fazendo-se acompanhar da sua longa trança,
mostrou todo o seu poderio vocal fazendo-se ouvir a kms. Os solos de saxofone acompanhados
dos longos solos da guitarra eram uma delícia como se ouviu em “You Got It or
You Don’t”. Fechámos assim o palco desta quarta odisseia.

R de Ruílhe, R de
Rodellus, R de Rock. Neste festival tivemos uma viagem por praticamente todos os estilos do
rock, uma autêntica aula para os amantes da música, desta vez liderados pelos
portuenses Fugly. Para nós uma das melhores bandas ao vivo em solo nacional,
sem medo de partir cordas, sem medo do campo.

O final ficou a cargo
dos Baleia Baleia Baleia. Pouco foi preciso para encerrar esta estória, apenas
um baixo e uma bateria. Com o humor de Manuel Molarinho logo a abrir o concerto “Estou tão nervoso, é a primeira vez que atuo neste palco” fazendo referência ao concerto “secreto” e
inesperado que tivera dado umas horas antes sob a pele de O Manipulador. O duo
veio apresentar o seu trabalho de estreia ‘Baleia Baleia Baleia’ que em bom
português fez vibrar as muitas pessoas que se encontravam àquela hora da noite.

– Se estás farto da rotina
da cidade, vem viver o campo, vem viver o Rodellus
–

Fim.

Vejam agora todas as fotos pela lente do nosso Alexandre Vale.

https://www.flickr.com/apps/slideshow/show.swf?v=261948265

Queremos agradecer à excelente organização e simpatia do Rodellus pela excelente pessoa Jorge Dias, aos nossos amigos da Undertow, especialmente ao Hélder Oliveira, pela cedência de algumas fotos e ainda ao pessoal que tornou esta estória possivel: Catarina Oliveira, Sérgio Pereira, Pedro Lopes, Adriano Faria, Carolina Clasen, Alexandre Martins, Diogo Silva e à Cacho.

Texto: Luís Silva

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

Ainda sem comentários

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.