
A “maré baixa” dos Maruja na costa portuguesa teve o seu fim. Após um concerto cancelado (o do Vodafone Paredes de Coura de 2025) e dois adiados (no Porto e em Lisboa organizados pela Crowdmusic) que deveriam ter acontecido em dezembro do ano passado finalmente a banda do Reino Unido apresentou-se novamente ao vivo em Portugal. Em fim-de-semana de intensa atividade de trovoada o trovão Maruja foi o mais cintilante de todos.
Devido à enorme procura de bilhetes a promotora decidiu abrir uma data extra a norte, desse modo, a primeira noite portuense aconteceu a 24 de maio e a segunda teve lugar no dia seguinte. Em Lisboa a atuação tem lugar a 26 de maio. O headLiner marcou presença na noite de domingo, num evento ocorrido na Sala Mouco do JAM Porto.

A primeira parte ficou ao encargo dos Pomadinha, um quarteto de rock instrumental com origens em Vila Nova de Gaia. Os seus elementos são Marco Barbosa na guitarra, Miguel Alves na bateria, Fernando Azeredo nos teclados e David Cruz no baixo. No ano passado venceram o Indie Talents tendo assim entrado para o cartaz do Indie Music Fest, evento marcante no panorama nortenho de festivais e que regressou precisamente em 2025. Este era um bom indicador da relevância positiva deste projeto português.
Surgiram na Sala Mouco do JAM Porto às 20:32h e permaneceram em palco exatamente trinta minutos. Logo aí na sua aparição deram nas vistas: a sua imagem de marca é atuarem em tronco nu, somente de boxers, meias e respetivo calçado. Um impacto visual fortíssimo, algo bizarro até, porém nem os músicos se mostraram intimidados nem o público, que encheu rapidamente a sala.

Um dos temas que mais gostei de conhecer foi “Nevrites”, curiosamente, o primeiro que tocaram, tema ainda não editado tal como “AI”. Esta última introduzida como sendo sobre Inteligência Artificial. “É uma merda”, gritou alguém do público sobre a famosa IA, é mesmo total oposto relativamente à música deste quarteto Pomadinha, uma sonoridade bem elegante. Eles revelaram um rock maioritariamente instrumental, teve vocalizações num ou outro tema, de boa onda. Foi muito bom ver gente jovem a mostrar o seu talento de forma descontraída e visivelmente a desfrutar do momento. A última que interpretaram foi “Ei God Chapéu, Pls Take Me to the Céu” e foi dedicada com imensa vontade aos Maruja, banda da qual são mesmo fãs. Posteriormente os quarto “pomadinhas” vieram para o meio do público e curtiram eles também o concerto.

Os Maruja entraram para o meu léxico musical nos primeiros meses de 2024, muito por culpa das faixas “Zeitgeist” e “The Invisible Man”, ambas incluídas no EP ‘Connla’s Well’ cuja edição ocorreu em abril desse ano.
A minha estreia ao vivo com este projeto musical britânico aconteceu em Guimarães, no Sonus Art. Antes desse concerto vimaranense, ocorrido em outubro de 2024, a banda já tinha tocado em Portugal, cerca de dois meses prévios, no SonicBlast. As impressões da equipa do headLiner que esteve nesse evento do Alto Minho me passaram não foram as mais impressionantes contudo nessa performance os Maruja não tiveram consigo o seu saxofonista devido a um problema de saúde incontornável e impeditivo da sua presença em palco. Aquilo que testemunhei em Guimarães é que esse elemento faz muita diferença na dinâmica da banda. Joseph, já perfeitamente restabelecido, não deixou os seus créditos por mãos alheias. Uma performance que me deixou rendido e cuja resenha pode ser lida aqui.
Os Maruja, oriundos de Manchester em Inglaterra, contam nas suas fileiras com Harry Wilkinson na guitarra e voz, Joseph Carroll no saxofone, Jacob Hayes na bateria e Matthew Buonaccorsi no baixo. Antes de entrarem em palco pouco antes das 21:30h, já o público “fervia em lume brando”. Sentia-se uma ansiedade crescente quando o fumo começou a levitar por entre o cenário.

Efetivamente foi a loucura total desde o início com moche logo desde os primeiros instantes. Se há crítica menos boa a fazer ao público é que não esperou um segundo sequer que a banda os arrebatasse. A fortíssima dinâmica dos fãs foi totalmente palpável logo nas primeiras duas faixas interpretadas: “Bloodsport” e “Trenches”, ambas do incrível álbum ‘Pain to Power’ editado no ano passado. A pedido de Harry o público empunhou o seu “middle finger” com vivacidade e a partir daí a intensidade não baixou de níveis críticos. Foi um início arrasador em que o público viu Wilkinson fazer uma visitinha à plateia, nomeadamente durante “Break The Tension”, tema em que os fãs brindaram a banda com coros bem musculados.
Harry Wilkinson fez questão de frisar ser “um prazer enorme estarem no Porto”, pela ligação e pelo histórico ao nosso país, não tenho a mínima dúvida. Ele que deu tudo durante a performance, esteve sempre em tronco nu, e foi bem visível o suor sem fim que ia escorrendo abaixo pelo seu peitoral…
Um bocadinho de tensão sentiu o vocalista quando, antes da interpretação de “Zeitgeist”, houve uns ligeiros problemas técnicos na primeira vez em que pegou na sua guitarra. Tudo resolvido com a ajuda preciosa do roadie, já o público não esmorecia nos seus ânimos.

Os acordes de Joseph Carroll no seu saxofone marcam de forma indelével o traço de sensualidade no meio do restante da floresta sonora caótica dos Maruja. São essenciais para contrabalançar com o contraste mais obscuro e pesado do significado da maioria das letras. O som é pujante e poderoso contendo influências claríssimas e bem diversificadas dentro dos sub-estilos do rock, do punk e do free jazz.
Carroll também teve “alas abertas” a seu pedido tendo o público obedecido de forma natural, antes da interpretação de “Thunder”. Ele que envergou, durante todo o concerto, uma camisola do Clube Desportivo Feirense. Foi sempre irreverente e compulsivamente bastante ativo.
Jacob Hayes na bateria esteve impecável e nota-se que estava a usufruir da atuação. Já Matthew Buonaccorsi no baixo fez bastante uso da sua pedalboard tendo inclusive criado diversos níveis de sonoridades atmosféricas ao longo de toda a sua atuação. Fez uma utilização bem acutilante do seu baixo, diga-se.

A veia de spoken word por parte de Harry foi bastante íntima na introdução para “Born To Die” quando todo o público ficou em silêncio completo. Já “Saoirse” surge na fase certa: um momento mais pausado para permitir um pouco de descanso a todas as bonitas almas presentes. Houve coros sofredores e ao mesmo tempo de catárticos de nível inexplicável.
No arranque para “The Invisible Man” o vocalista Harry Wilkinson diz que o tema versa sobre saúde mental e pede para as pessoas abraçarem os companheiros a seu lado. Um momento bonito e bem significativo. Foi o primeiro numa fase final de concerto bastante intensa emocionalmente.
Houve igualmente ainda tempo para uma mensagem de concórdia e harmonia, de que somos todos mais fortes juntos. Wilkinson referiu inúmeros conflitos ao redor do mundo, a bandeira da Palestina estava em palco. Após essa mensagem de solidariedade, paz e amor toda a gente ficou longos minutos em silêncio com o punho levantado no ar e em plena reflexão. Deveras foi mesmo emocionante.

Apesar do “pano de fundo” mais obscuro e profundo do significado das canções há sempre aquela inerente esperança bem impregnada por entre o diluvio da sonoridade dos Maruja. Foi isso que eles, mais uma vez, fizeram por transmitir.
“Look Down on Us” e “Resisting Resistance” fecharam o concerto que ficará na memória de todos os fãs que estiveram presentes, efetivamente foi uma noite bem catártica. Uma expurgação coletiva em que toda a gente saiu mais ligeira.
Reportagem fotográfica Completa: clicar aqui

Texto:
– Edgar Silva
Fotografia:
– Ana Lourenço @ blackphant.stage (Instagram)
