James McGovern, vocalista dos The Murder Capital | mais fotos clicar aqui
A última noite de quarta-feira, de 30 de abril, serviu para fazer uma incursão ao Auditório CCOP situado no edifício do Circulo Católico de Operários do Porto, na zona da Batalha no Porto. Esta sala de espetáculos foi remodelada e reaberta em 2018 com novas facilidades tecnológicas e as devidas comodidades para o público. Após a pandemia foi a primeira vez que entrei no Auditório CCOP. Efetivamente foi o “tiro certeiro” para este regresso.
Tinha muita curiosidade em ver os The Murder Capital numa atuação em nome próprio. Gostei imenso da atuação deles no Vodafone Paredes de Coura em 2022 numa atuação poderosa no palco secundário daquele festival minhoto. Vi-os também no Primavera Sound Porto em 2023.
Agora, pela primeira vez, tocaram a solo no nosso país pela mão da Pic-Nic. Antes do concerto portuense, a banda esteve na sala 2 do Lisboa ao Vivo. Com estas duas recentes performances, passam a ser cinco atuações em Portugal, incluindo uma em 2024 numa primeira parte de Nick Cave na MEO Arena.
As primeiras pessoas que acederam à sala foram uma mistura de fãs lusitanos e estrangeiros, de várias nacionalidades, da banda irlandesa. Aqueles que realmente queriam estar lá na frontline. Tivemos todos a sorte de nosso lado, tivemos de aguardar na rua enquanto não estava tudo pronto para aceder ao interior do edifício. Num dia pleno de chuva, pareceu bom presságio não ter chovido durante aqueles minutos.

Hex Girlfriend no CCOP | Foto: Rafael Faria @ rafaelfilipefarias / Pic Nic Produções
Os britânicos Hex Girlfriend trataram de animar as hostes numa primeira parte de apresentação do seu projeto. Eles são uma dupla oriunda de Londres composta por Noah Yorke (voz e bateria)e James Knott (voz, baixo e eletrónica). Entraram um minuto depois das 20:30h, hora aprazada para o arranque da sua atuação.
Ambos vestidos com batas brancas, causaram logo esse primeiro impacto visual. O projeto experimental destes rapazes britânicos assenta num mix de eletrónica (com sons pré-gravados e disponibilizados pela indispensável “máquina de sons”) e do manejo de dois instrumentos: a bateria e o baixo. Estes contribuíram com uma espécie sonoridade industrial num regime ligeiramente agressivo. As vozes também foram um recurso, fantasiadas pelos já famosos efeitos de reverb. As influências rock e punk estão lá bem perceptíveis.

Hex Girlfriend em estreia no Porto | Foto: Rafael Faria @ rafaelfilipefarias / Pic Nic Produções
Não estiveram assim tantas pessoas a vê-los, as pessoas iam acedendo ao espaço consoante o aproximar da principal atuação da noite. Apesar disso, quem estava lá, pareceu focado nos Hex Girlfriend, deu-lhes força e desfrutou.
Noah foi o mais expansivo, até deixou a bateria e circulou por entre o público a cantar num claro gesto de“incendiar” os ânimos. Ele que também foi o primeiro, logo ao terceiro tema, a abandonar a bata tal era o calor e vigor da atuação. James esteve igualmente expressivo, sobretudo quando empunhava o baixo.
Ambos estiveram focado e sincronizados, notou-se que queriam dar o melhor de si apesar de terem acordado às 5h da manhã. Foram 30 minutos engraçados de uns Hex Girlfriend com potencial para algo num nível superior.

Quinteto The Murder Capital em estreia no CCOP | mais fotos clicar aqui
Igualmente um minuto depois da hora aprazada, 21:30h, os The Murder Capital surgiram em palco para delírio de um Auditório CCOP lotado. Os bilhetes já tinham esgotado há alguns dias.
‘Blindness’, o mais recente trabalho discográfico editado no passado mês de fevereiro, é o motivo para a banda estar em tournée mundial. As canções deste disco foram obviamente o concreto destaque da noite. ‘When I Have Fears’ de 2019 e ‘Gigi’s Recovery’ de 2023, discos reconhecidamente de grande qualidade, foram também abordados.
As datas portuguesas surgiram no debute da fase dos concertos pela Europa continental.

James McGovern sempre muito interventivo | mais fotos clicar aqui
Nos minutos antecedentes ao início da atuação fomos entretidos com temas rockeiros como, por exemplo, “Mayonaise” dos The Smashing Pumpkins. O som ambiente é sempre uma “arma” que ajuda a criar a vibe certa. Definitivamente este foi o caso.
Oriundos de Dublin na República da Irlanda, os The Murder Capital são um quinteto composto por James McGovern (vocalista), Damien Tuit (guitarrista), Cathal Roper (guitarrista e teclista), Gabriel Paschal Blake (baixista) e Diarmuid Brennan (baterista).
Logo no tema de abertura, em “The Fall”, o vocalista McGovern pede para “abrir alas” e os fãs sedentos acedem ao pedido. A palavra certa é mesmo esta, para definir a maioria do público: fãs à séria. O ambiente aqueceu rapidamente, literalmente e figurativamente.

Visão da frontline | mais fotos clicar aqui
Já em “More Is Less”, segunda canção interpretada, já se cantava em uníssono. Os fãs lá iam devorando as letras na frontline bem defronte a McGovern.
Uma plateia com um público misto, entre portugueses e estrangeiros de várias nacionalidades. O Porto também já é uma cidade de “melting pot” à boa medida de uma Nações Unidas realmente universal.
Damien e Cathal Roper envergaram as suas guitarras de forma enérgica e incentivaram o público em diversas ocasiões. Eles que tinham à sua disposição “mesas” de pedais bastante extensas.

Energia abundante com fãs “colados” ao palco | mais fotos clicar aqui
Diarmuid demonstrou-se uma máquina ininterrupta na bateria e Gabriel foi um baixista deveras primoroso. Já James, na sua posição de frontman, teve também uma performance vocal incrível e uma interação em simbiose com os fãs. Ele que atuou com óculos de sol nos primeiros temas sendo que os retirou mais tarde.
A banda demonstrou-se solta e sorridente.
Deu para notar no microfone de McGovern fitas adesivas com as cores da banda da República da Irlanda. O jogo de luzes também foi bastante concentrado a três: recurso a muito amarelo e vermelho com algum azul em determinados momentos.

Gabriel Paschal Blake, o baixista | mais fotos clicar aqui
Houve vários momentos curiosos durante o concerto. Um deles foi quando James entregou o seu copo com cerveja a uma fã, de cabelos loiros, mesmo situada à sua frente. Isto aconteceu em “That Feeling”, um dos temas onde mais se sentiu mais intensamente o modo elétrico com que foi vivido todo esta performance.
Durante “Moonshot” e “Don’t Cling To Life” sentimos literalmente o chão de madeira a vibrar devido aos intensos pulos e ao moche que ia acontecendo. Dois temas que antecederam o encore.
60 segundos depois seguiu-se o encore e o arranque foi arrebatador com “Ethel”. A boa disposição continuava e um dos fãs, em modo eufórico, pedia que tocassem “Green & Blue”. Após uma troca de palavras com James subiu ao palco em tronco nu e até tirou foto com o vocalista. Amavelmente a banda fez-lhe a vontade.

Diarmuid Brennan, o baterista| mais fotos clicar aqui
Cathal demonstrava também uma vibe divertida. Pegou no smartphone de um fã tendo-o colocado no bolso da sua camisa enquanto continuava a gravar vídeo.
O momento político da noite foi quando James McGovern entoou “Free Palestine” tendo o público pegado na deixa. Uma bandeira da Palestina estava bem visível num dos amplificadores.
Para encerramento de festa ficou “Love of Country” cuja interpretação em modo solene teve vários momentos com os fãs em suspense e em silêncio pleno. Foi um momento fantástico, arrepiante e entusiasmante.

James McGovern numa performance incrível | mais fotos clicar aqui
O pós-punk dos The Murder Capital permanece em estado evolutivo. Os estados de alma têm uma verificação contemplativa extremamente profunda através de letras bem afiançadas. Não é possível ficarmos indiferentes se prestarmos aquela devida atenção.
Esta atuação dos The Murder Capital deixou-me rendido e se ainda não me identificava a 100% como fã incondicional, este concerto no CCOP no Porto foi a ocasião que permitiu selar de modo definitivo essa condição. Tratou-se de uma atuação brutal e arrasadora. Estes irlandeses prometem subir de cotação.
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Ambiente efervescente sem barreiras | mais fotos clicar aqui
Texto: Edgar Silva
Fotografia: Nuno Coelho @ nunomscoelho (Instagram)
