
A atuação de Steve Gunn no Teatro Municipal do Porto, vulgarmente conhecido por Rivoli, ocorreu na passada noite de sexta-feira, dia 9 de maio. Evento realizado em parceria deste espaço portuense com a conceituada promotora Amplificasom.
Uma noite primaveril ligeiramente friorenta, contudo bem aprazível para um ligeiro passeio antes do concerto. A cidade do Porto, tal com é já costumeiro, soa a cidade planetária. Muita gente a circular pelas ruas e sotaques dos mais variados recantos mundiais.
Este norte-americano já tem um histórico considerável pelo nosso país com várias passagens ao longo dos anos. Na sua passagem anterior, em 2024, veio acompanhado do pianista David Moore e tocaram em Braga, Espinho e Lisboa. Já passou também pelo Vodafone Paredes de Coura em 2015 em formato banda. Volta e meia tem regressado, ao longo dos anos, para concertos a solo. A ligação a Portugal é bastante forte e um dos melhores exemplos é o seguinte: em 2014 colaborou com o guitarrista Mike Cooper e ambos gravaram o trabalho discográfico ‘Cantos de Lisboa’ na capital lusitana.

Esta atuação, desta última sexta-feira, foi a única realizada em modo ‘Understage’ no período bimensal maio/junho. Pela primeira vez visitei o subpalco do Rivoli e foi uma experiência gira. Normalmente aquele espaço funciona como espaço de armazém e de cargas/descargas para os concertos realizados na sala principal. Desde 2015 o local tem sido utilizado para ciclos musicais apelidados de ‘Understage’ em parceria com diversas promotoras, nomeadamente, a Matéria Prima, a Lovers & Lollypops e a Amplificasom.
O acesso efetua-se pelo corredor do lado direito paralelo à entrada para o auditório principal. Pouco depois das 22:20h formou-se uma longa fila à porta da sala e surgiu aquele burburinho bom, de quem reencontra amigos e conhecidos, toda a gente vinha com “ganas” fechar de semana em alta. As portas abriram as 22:34h e foi engraçado descer as escadas, em círculo, e perceber todo aquele submundo debaixo do palco. A entrada foi processada de forma rápida e eficaz.
Marcado para as 22:30h a performance a solo de Steve teve início às 22:41h em que o artista subiu ao pequeno palco de forma tímida e discreta. Teve perante si uma assistência adulta maioritariamente na casa dos trintas e quarentas. De um modo geral fãs conhecedores do trabalho do artista. Desde modo percebe-se facilmente a lotação esgotada atingida tão rapidamente após a abertura da venda dos ingressos.

A faixa inaugural do concerto foi “On The Way” do álbum ‘Other You’ de 2021. Pelo meio houve um tributo a Nico e aos The Velvet Underground pela interpretação de “I’ll Be Your Mirror”, clássico de 1967.
Não foi uma setlist muito alongada, além de novos temas, houve ainda incursões a ‘The Unseen In Between’ de 2019 com as interpretações de “New Moon” e “Stonehurst Cowboy”. Já de 2013 recuperou “Old Strange” do álbum ‘Time Off’.
Sempre acompanhado por uma guitarra clássica e um pedalboard que lhe permitiu dar outras tonalidades ao seu som. À sua instalação estava também ligada uma “caixinha de efeitos” que lhe permitiram criar diversas “paisagens sonoras atmosféricas”, com efeitos bastante pronunciados. Deste modo boa parte dos temas foram mais alongados, devido a essas incursões sempre a ocorrerem mais adiante, em fases intermédias dos temas.
Steve revelou-se feliz por estar pelo Porto, já há muito tempo que não tocava na Invicta, como fez questão de frisar. Curiosamente não é das cidades lusitanas que mais tem visitado nas suas passagens.

“Não consigo ver ninguém” disse Gunn na fase inicial da sua atuação. As pessoas estavam um pouco afastadas do palco e plateia estava bastante escura. A seu pedido as pessoas chegaram-se à frente, rodearam o palco, e aí criaram o tom certo para um momento intimista e próximo. Pese embora o ar tímido e introvertido de Steve Gunn, pouco conversador, a sua pose e concentração em conjunto com o seu recital musical fez-nos sentir reconfortados.
Alguns dos temas de ‘Daylight Daylight’, álbum editado no final de 2025, tais como “Morning on K Road” e “Another Fade”, funcionaram como uma bela nota introdutória a este registo mais recente.
Público totalmente imerso nas ondas da guitarra clássica. Público “old school” a curtir o momento e nada preocupado com as habituais modernices em que o foco total foi o homem em palco e a sua performance. Um feeling tão bom que mais de uma hora de atuação passou a voar.

Folk introspetivo onde notas de indie rock e americana são inegáveis. A sua veia experimental veio ao de cima pela exploração de ambientes sonoros atmosféricos. Tal adicionou pitadas melancólicas a toda a vivência desta sua atuação portuense. Tornou a ocasião ainda mais meditativa e intrínseca.
O concerto terminou com “Nearly There”, a faixa inaugural do disco ‘Daylight Daylight’ tendo sido uma escolha apropriada. Ao fim de uma hora e dez minutos senti, creio que partilhado por muitos dos presentes, uma alegria e satisfação por ter estado presente neste concerto. Steve Gunn proporcionou-nos uma noite espetacular num ambiente íntimo para um público que soube estar e aproveitar ao máximo a ocasião. Foi especial, sem dúvida.
Reportagem fotográfica Completa: clicar aqui

Texto:
– Edgar Silva
Fotografia:
– Simão Costa @ simaocsta (Instagram)
