
A nona edição do Rock
With Benefits realizou-se recentemente, entre os dias 5 e 7 deste mês de
dezembro, respetivamente entre quinta-feira e sábado. Fafe é
o berço desta iniciativa sendo que os locais ocupados foram o Teatro Cinema, o Café Avenida e em estreia o Willow’s
bar.
Como habitualmente, não fugindo à regra, voltou a ser um
evento com um forte cariz social pois o seu objetivo é de auxiliar tanto
instituições como pessoas necessitadas do concelho fafense. Este ano a receita
será canalizada a favor da Associação de
Defesa dos Direitos dos Animais e da Floresta, da delegação da Cruz Vermelha de Fafe e de Rui, um jovem fafense a viver uma situação de saúde precária.
Um leque de convidados musicais bastante cativante. O
cartaz consistiu numa mescla entre mainstream:
como António Zambujo e Luísa Sobral e nomes da cena musical
mais alternativa: como os El Señor ou
os Solar Corona. Portanto, um evento
diversificado e destinado a variados públicos abrangendo diversas faixas
etárias.
Dia 1 – quinta-feira, 5 de dezembro
Na primeira noite e com honras de abertura da edição deste
ano esteve António Zambujo a solo. O
artista oriundo de Beja tocou no Teatro
Cinema naquele que foi o primeiro concerto e o único a registar lotação
esgotada. A noite estava friorenta porém não foi impeditiva para uma
aglomeração de público em frente da sala antes da abertura oficial de portas.
Público este heterogéneo na sua composição na qual existiu uma predominância
numa faixa mais madura.

A simplicidade da voz do cantor alentejano aliada ora à
guitarra clássica ora à elétrica fez-nos ter uma noite musical bastante
agradável e bem-humorada graças à boa disposição do cantor sempre bem coadjuvada
pela audiência. Uma das vozes lusitanas mais populares do século XXI tocou e
encantou com alguns dos seus êxitos, tais como os inevitáveis “Pica do 7” e “Catavento Da Sé”. O concerto terminou com “Foi Deus” numa brilhante versão de “à
lá Zambujo” da canção escrita por Alberto
Janes e eternizada por Amália
Rodrigues.
Dia 2 – sexta-feira, 6 de dezembro
A segunda noite iniciou-se no Teatro Cinema e teve continuidade no Café Avenida. A principal sala de espetáculos daquela cidade
minhota recebeu Luísa Sobral. A cantora e compositora portuguesa
mostrou-se encantada pelo que apelidou de “teatro de bonecas” tendo iniciado a
sua performance poucos minutos depois da hora marcada. A sala não esteve
esgotada o que foi pena pois a artista lisboeta proporcionou um concerto num
registo acústico muito bonito.

Luísa Sobral acabou por adaptar a sua setlist dada a presença de algumas
crianças na plateia pelo que tocou canções como “João” e “Língua dos Pês” do
seu álbum infantil ‘Lu-Pu-I-Pi-Sa-Pa’ lançado
em 2014. Também o seu último registo discográfico ‘Rosa’ (sobre a sua filha) foi abordado com temas como “Nádia” e “O Melhor presente”. Sempre muito voluntariosa e bastante
comunicativa revelou histórias no intervalo das canções. “Amar Pelos Dois” foi também interpretada, canção esta escrita por Luísa para o seu irmão Salvador Sobral. O concerto terminou
com “Xico”, um dos seus temas mais
emblemáticos.
Findo o concerto, a equipa do HeadLiner seguiu para o Café
Avenida. Aí teria o debute da parte musical mais alternativa do programa
deste Rock With Benefits e a mais
apetecida do meu ponto de vista. Registei públicos diferentes, o bilhete do
Teatro dava acesso ao Café Avenida
porém a maioria das pessoas não fez a transição. Realmente os artistas puxavam
por audiências com exigências musicais diversas. Esta situação foi igualmente
registada na noite seguinte. No Avenida a predominância é de público jovem.

Miguel Vilhena foi o primeiro a tocar com o seu projeto Niki Moss. O fundador da editora Pontiaq fez-se acompanhar por outros três músicos, entre os
quais, esteve um autêntico camaleão
musical. Falamos pois de Castilho,
um músico que vimos várias vezes ao vivo a tocar em diversos projetos musicais.
O seu disco de estreia ‘Gooey’ foi
apresentado tendo tocado temas como “GP
Motorcycle Racing” , “Standing In The Dark” ou “Avalanches” e soaram muito bem. Um som com uma vibe hippie dos
anos 70s. Pela primeira vez assisti ao vivo a uma apresentação de Niki Moss e fiquei bastante agradado.
Já depois da 1 hora da manhã entrou em palco a “prata da
casa”. Refiro-me pois aos El Señor.
O trio composto por Guilherme
(guitarra e voz), Vítor (bateria) e Duarte (baixo e voz) apresentou o seu
recentíssimo álbum ‘Suburbs of Joy’ tocando
canções como “Urgent Matters”,
“Sick and Tired” e “This City” e “Laconic Mutter”. Com naturalidade a
“sala dos fundos” do Café Avenida
registou mais público do que no concerto anterior. A diferença entre a
discografia anterior e a deste último trabalho discográfico é notória. Está
mais cru no entanto bem mais intenso. A onda punk está lá e a rebeldia rock
igualmente. A noite fechou-se em beleza.
Dia 3 – sábado, 7 de dezembro
Para o último dia respirei fundo, respiro coletivo da
equipa HeadLiner, e regressei a Fafe
para um dia em cheio. O último dia de Rock
With Benefits iniciou-se no Willow’s
Bar com duas performances de entrada gratuita.

O primeiro a subir ao acolhedor palco do bar fafense foi Tiago Saga minutos depois das 17 horas para
tocar-nos música do seu projeto Time For
T. De passagem por Portugal estão outros dois elementos da banda pelo que
Tiago teve a generosa colaboração
vocal de um deles, o caso do inglês Joshua
Taylor em “Ronda”, “Screenshot” e “Praticality” canções que fazem parte do último álbum ‘Galavanting’. O profundo e bonito “Eyes” e o catchy “Maria” fizeram
também parte deste final de tarde num concerto bem agradável. Vi Tiago Saga pela segunda vez ao vivo a
solo no decurso deste ano e mais uma vez não fiquei desiludido. Também
estive no marcante concerto de Time For
T na última edição do Vodafone Paredes
de Coura pelo que me sinto à vontade para recomendar a audição das suas
canções.
A encerrar a tarde esteve Rita Sampaio como IVY na
apresentação da sua estreia a solo com o disco ‘Over and Out’. A artista faz parte dos GrandFather’s House só que nesta sua aventura pessoal navega num registo bem diferente nomeadamente com uma
carga mais pessoal, intima e algo sombria. Acompanhada pelo seu piano e por Francisco Carvalho (membro dos Imploding Stars) à guitarra fez-nos ter uns momentos de introspeção. Certamente a re-ouvir as suas canções.

Depois da pausa bem produtiva para o repasto noturno
regressamos ao Teatro Cinema para a
dupla apresentação de Bárbara Tinoco
e de Janeiro. Novamente, como na
noite anterior, não registou lotação esgotada. A sala tem condições ideais, é
bem bonita e simpática, merece que os fafenses a aproveitem em pleno.
Bárbara Tinoco foi a primeira a subir ao palco acompanhada por João,
músico encarregue de a acompanhar à guitarra. A cantora vive uma fase em alta
dado o forte airplay nas rádios
nacionais da sua canção “Antes Dela
Dizer Que Sim”. Foi com este seu tema que iniciou e terminou a sua
performance. A jovem cantora tem uma voz com um timbre agradável. Possui uma natural
falta de experiência em palco e um reportório escasso.
Henrique Janeiro
fechou a fase dos concertos deste ano do Rock
With Benefits no Teatro Cinema. Passou a ser conhecido pela sua
participação no Festival da Canção de 2018 e iniciou a sua performance após uma
generosa pausa a qual foi aproveitada para a montagem da panóplia de
instrumentos e portátil. A canção que interpretou nesse festival foi um dos
momentos acompanhados pelo público. Em 2020 vai lançar ‘Com Tempo Sem Tempo’, álbum que me irá merecer alguma atenção.
Este concerto teve alguns momentos interessantes.

Quando cheguei ao Café Avenida já os Jepards incendiavam a plateia que enchia a sala dos concertos. A
banda fafense com o seu EP ‘Okay,
Alright’ marca um debute auspicioso.
São apenas 5 faixas porém há acolá potencial. Os fafenses viveram intensamente esta performance. Até deu para
mosh pela primeira vez ao qual não ficou alheio o guitarrista em plena
performance. “She Says” é aquela
malha cantada em inglês com aquele irresistível sotaque fafense, entra muito
facilmente nos ouvidos e ganha uma vida própria ao vivo. Espero que deem a
conhecer mais canções em breve e acredito que o pessoal que por lá esteve no
sábado sente o mesmo.
Em estreia em Fafe estiveram os Solar Corona. A banda de Barcelos apresentou-se em formato trio com
Peter
Carvalho, José Roberto Gomes e Rodrigo
Carvalho. O alvo desta atuação foi naturalmente ‘Lightning One’, trabalho este lançado no decurso de 2019. Os temas
são incríveis, isso já o sabia, porém acho que aquela sala e respetiva acústica
não fez jus à sua sonoridade. Talvez por ter estado o som um bocado acima do
nível, a sala já não estava lotada como no concerto anterior.

No Café Avenida houve também tempo para DJ Sets. Entre os
concertos o responsável foi Mikael
Gonçalves do Que Amor é Este. No
final das noites houve também sets de Cosmic
Banana na sexta e Bonelson dos Holy Nothing no sábado.
Notas finais com o realce de pontos positivos:
– A associação Cultural e Social Time To Do está de parabéns pela realização deste evento. A sua
finalidade social tem de ser realçada, algo cada vez mais necessário nos dias
de hoje, infelizmente. Uma organização recheada de juventude motivada e alegre
em prol de uma finalidade muito positiva.
– O envolvimento decisivo do Município de Fafe e de várias entidades locais para que o evento
tenha pernas para andar.
– A disponibilidade dos artistas na participação no Rock With Benefits.
– A construção de um cartaz multifacetado capaz de ir de
encontro a diferentes públicos.
Vejam toda a foto-reportagem pelo Jorge Nicolau: clicar aqui

Texto: Edgar Silva
Fotografia: Jorge Nicolau
