
Uma festa de anos que é um festival? Um festival que é uma festa de anos? É esta pergunta que Luís Salgado, programador dos Maus Hábitos (lugar de culto e da cena alternativa do Porto), faz todos os anos. Nunca terá conseguido responder a nenhuma das duas. A razão? Muito provavelmente porque ambas as respostas estão corretas.
Está é uma daquelas tradições que nunca ninguém percebeu muito bem, mas a verdade é que já vai em 7 edições (!!) e que celebra o aniversário de uma das figuras incontornáveis da cultura portuense.
Para abrir a longa noite que contou com mais de 10 atuações, foi o brasileiro já enraizado em Portugal há uns bons anos, O Gringo Sou Eu, que pela sua música de intervenção em spoken word fez soltar os primeiros passos de dançar e aquecer a pista de dança gigante do 4º piso.

Um dos palco mais marcantes deste evento, é o palco O Salgado, não só por ter o rótulo de quem o criou mas também de ser o palco de todas as atenções nas muitas noites de concertos, festas e DJ Sets ao longo destes anos. Foi para lá que nos dirigimos para assistir ao concerto da brasileira LaBaq. Uma das novas artistas indie mais badaladas do Brasil, veio apresentar o seu mais recente álbum, ‘Lux’. Este trabalho discográfico foi editado em Portugal pela Omnichord Records.
Do mesmo palco saiu uma banda do Porto, uma banda cheia de noise, sem medos e sem merdas quando tocam ao vivo. Os Fugly são uma das bandas portuguesas com o som mais refrescante da cena punk surf e uma das bandas da família Pointlist que esteve bem presente nesta noite. Aliás, ninguém a poderia representar tão bem como próprio Colectivo Pointlist. O super grupo abriu o palco Super Bock por volta das 22h30 com elementos dos Sunflowers na guitarra, dos 800 Gondomar no baixo, dos Fugly na guitarra e na bateria os El Señor.

Por volta da doze badaladas fomos assistir à banda de Fafe e com um dos melhores álbuns nacionais 2019 para o HeadLiner. Os El Señor e o seu ‘Suburbs Of Joy’ carregado de atitude punk, fizeram com que o seu baixista Duarte, agitasse as águas da frontline com um mergulho sem medo de ir ao fundo.
À mesma hora tocava num mundo à parte (mas bem perto do palco Super Bock) a violoncelista Joana Guerra. Digo um mundo à parte, pois no palco Stockhousen o ambiente era outro. Reinava o silêncio onde era preenchido inteiramente pela música. As pessoas deste reino transpiravam serenidade. Praticamente todas elas sentadas, naquela bolha de nome
Stockhousen onde o ruído exterior ficava à porta.
Foi neste palco que assistimos a um dos momentos mais bonito pel’ O Gajo que se baldou o ano passado. Para os mais desatentos este nome artístico (será que é mesmo?) é Samuel Uria, que num ambiente mais intimista faz-se acompanhar apenas pela sua guitarra. Este não seria um dos eventos mais emblemáticos da cidade do Porto, se um dos maiores artistas da música da cidade invicta não estivesse presente. Falamos de Manel Cruz que, em “Lenço Enxuto” acompanhou-o na voz. Quem os acompanhou também na voz foram as dezenas de pessoas que se deixaram apaixonar por aquele momento.

Ao mesmo tempo que este momento lindo de tranquilidade se apoderava de uns, no palco O Salgado um outro momento lindo mas de suor e muito punk se apoderava de outros. A banda de culto dos anos 90, ZEN, foi à festa de anos cantar os parabéns e mostrar que velhos são os trapos com o frontmen Rui Silva, a mostrar o porque de terem uma plateia à pinha e a fervilhar.
No longo cardápio ainda houve espaço para o Luís Salgado subir ao palco com o afro-punk de Scúru Fitchádu e, tocar um reco-reco metálico fazendo assim com que participasse ainda mais na sua própria festa. Sem regras e quase epiléptico, assistir a um concertos deste senhor faz gastar mais calorias que qualquer maratona que possam correr. No bagagem veio o álbum acabado de sair, ‘Un Kuza Runhu’.

Enquanto n’o palco o Salgado, o projeto de Marcus Veiga encerrava a historia deste, num outro palco o rock tocou-se até bem mais tarde.
No palco Super Bock a festa fez-se com o suor a escorrer face a baixo. Depois da banda de Braga Bed Legs e o seu incansável vocalista Ferna ter remado por esse público fora, foi a vez de subirem ao palco a banda do país vizinho. Os Favx são uma banda bem conhecida da nossa parte depois de já os termos vivido por duas ocasiões – Oub’ Lá e no Rodellus. A banda Madrilena veio mostrar o seu punk fervoroso. Tão fervoroso que a certo momento a sala transpirava por todos os poros existente fazendo com que o trio espanhol continuasse a festa brava já sem t-shirt.
O Salgado faz anos Fest! não é para qualquer um. Aguentar esta carga de decibéis no corpo é só para os mais resistentes, e mesmo depois de muito rock ter passado por estes ouvidos, ainda tivemos espaço para fechar com os The Dirty Coal Train. A dupla de Viseu veio apresentar o seu álbum de 2019 ‘Primitive’. As guitarras sujas de Ricardo Ramos, o baixo imponente de
Beatriz Rodrigues (fazendo lembrar a figura de PJ Harvey), fizeram a sala praticamente cheia, acompanhar os BPM’s de rock n roll através de headbanging e dos milhares de saltos que faziam expulsar a adrenalina que corria dentro de nós.
A noite fechava com a dupla indígena Venga Venga e os discos de vinil a rodar noite fora de DJ Lynce.
Mais de 8 horas non-stop a festejar a vivência de um gajo que muitos de nós mal conhecemos. É estranho é, mas a verdade é que ano após ano estamos lá a cantar os parabéns.
~ Longa vida a’O Salgado faz anos Fest!
Vejam toda a foto-reportagem pelo Diogo Meira: clicar aqui

Texto: Luís Silva
Fotografia: Diogo Meira
