
Quis o destino e Kevin Parker, o cérebro e talento por detrás de Tame Impala, que a tournée de 2026 descolasse na nossa nave especial tripeira, o Super Bock Arena. Aconteceu na véspera de Páscoa, no sábado, dia 4 de abril. Num autêntico espetáculo audiovisual bem espacial, a banda australiana mostrou o porquê de ocuparem um trono bem especial dentro dos amantes tanto de rock como de música mais eletrónica.
Mas antes da invasão sensorial provocada pelo australiano, uma sonda musical bem inglesa foi enviada para testar o ambiente da sala. RIP Magic, que apesar de serem um projecto bem recente, já tiveram a honra de fazer a primeira parte em várias apresentações ao vivo dos LCD Soundsystem passado dezembro. Num cruzamento sonoro bem interessante, invocando um low-fi sleaze com tons bem remanescentes de Madchester, o quarteto formado há pouco mais de um ano cumpriu o seu papel, porém sem causar grande entusiasmo. Apesar de algum constrangimento técnico no som nos temas iniciais, a verdade é que tirando isso, não há grandes defeitos a apontar à cerca de meia hora de actuação dos londrinos, conseguindo arrancar mais aplausos e abanões de anca com o tema de despedida, “5 Words”, responsável por retirar James Murphy de um hiato de 10 anos a produzir temas alheios ao seu trabalho nos LCD Soundsystem e entregar ao mundo este single, através da DFA Records.


Primeira fase da invasão completada, aumentou-se a intensidade e de que maneira: sob um manto de aplausos e berros (muitos mas muitos jovens presentes na plateia), o assalto iniciou-se taticamente com dois temas mais antigos mas representativos duma espécie de dupla identidade que Kevin Parker pautou nos quase 20 anos de existência de Tame Impala: se por um lado “Apocalypse Dreams”, retirado do marcante segundo registo ‘Lonerism’, propõe uma viagem contemporânea pelos meandros do rock-psicadélico de décadas passadas, já “The Moment”, do álbum seguinte ‘Currents’, arrefece o rock e convida a um lado mais eletrónico e pop, algo que iniciou um percurso sem regresso na sonoridade do australiano. Numa curiosa sequência temporal, seguiram-se visitas aos planetas dos dois álbuns seguintes, com o single “Borderline” retirado de ‘The Slow Rush’ a deslizar pelos ombros do público suavemente com a sua batida viciante, e finalmente uma primeira audição do último registo lançado ano passado, ‘Deadbeat’, também pela mão de um single, desta feita “Loser”, onde é difícil não ver algo de Beck no refrão: “I’m a loser, babe / Do you wanna tear my heart out? / I’m a tragedy / Tryna figure this whole mess out”. É bastante o que liga estes dois registos de estúdio, uma clara tentativa de Tame Impala se fixar ainda mais no panorama pop, orbitando cada vez mais longe das suas raízes um pouco mais orgânicas e mais focadas em desenhar canções bem mais doces ao ouvido. Por esta altura já era notório que Tame Impala não pretendia que esta noite fosse marcada só pela música criada nos seus laboratórios: também os olhos “ouvem”, e portanto fossem pelos vários robôs de luz atrás e em cima do palco, fosse através das “danças” coreografadas dos lasers ou pela lente de vídeo registada e emitida em directo para os dois ecrãs gigantes fixados nas laterais mais atrás do palco, quase que numa tentativa de espremer até ao tutano toda a sentimentalidade ou energia dos seus temas.

De volta a ‘The Slow Rush’ com “Breathe Deeper”, o público continuava bem em sintonia com a performance, com este tema a receber imenso calor (talvez demasiado para o que a canção nos parece convidar, mas cada qual com a sua) e o pequeno interlúdio que é “Gossip” a abrir alas para um dos temas mais marcantes da sua carreira, “Elephant”, que tantas cabeças fez rodar em 2012: passados 14 anos, dá para perceber porquê, seja pelo rompante e mecânico riff que pauta o início da música, seja pelo solo simples mas tremendamente eficaz, ou pela bateria que faz um pouco de tudo no tema, seja a manter o seu andamento, seja a ligar as suas várias partes, seja até a terminar a canção como se fosse uma pessoa a cair escadas abaixo. E, claro, não se esperaria menos do que um turbilhão de calor humano a premiar um dos seus mais importantes temas. Em contraste quase completo, a galáxia a visitar agora era outra, com o regresso ao registo de 2025 com “Afterthought”, tema a régua e esquadro para abanar a anca como se fosse 1988. De facto, é mesmo impressionante a forma como Tame Impala substituiu o seu ADN musical por algo tão diferente, que em muitos casos apenas a voz de Kevin Parker parece ser o único elo entre os temas. E, se boa parte da crítica da especialidade foi bruta na forma como classificou ‘Deadbeat’, a verdade é que a reação dos seus fãs parece passar incólume, com bastante excitação e cantorias de temas saídos há tão pouco do forno.
Mas por muito que temas mais recentes tenham feito furor ao vivo, a verdade é que os picos de euforia se dão mais em temas como “Feels Like We Only Go Backwards”, onde a combinação irresistível do refrão espetado no título do próprio tema com o baixo a carregar as pontas da melodia o elevam a um hino da pop psicadélica. Neste tema, também o público deu uma ajudinha às cordas vocais de Parker e cantou uma parte da música “sozinho”: sempre fofo de se ver e ouvir.
Tal como anteriormente um tema de ‘Deadbeat’ veio após um outro de ‘Lonerism’, chega-nos “Dracula”, que encaixaria perfeitamente numa sunset party, e que na minha opinião tem uma letra que, infelizmente, tem versos que roçam o embaraçoso (“Now I’m Mr Charisma, fucking Pablo Escobar”). E, após um pequeno interlúdio onde a câmara seguiu Kevin Parker às lindas casas de banho do Super Bock Arena para mudar a água às oliveiras, o regresso efetuou-se, mas para o pequeno palco secundário, redondo e com almofadas e uns candeeiros bem aconchegantes, onde o concerto prosseguiu mas em versão mais intimista, onde entre teclados e drum machines Parker enfeitiçou os fãs com recurso a planetas mais techno ou house. Apenas três temas de ‘Deadbeat’, “No Reply”, “Ethereal Connection” e “Not My World”, e a procissão intergaláctica regressou ao palco inicial.
Na reunião com os seus colegas de bordo, “Let It Happen” testou a energia dos presentes, e sabendo do que a casa gosta, mais um tremendo espetáculo visual com direito a chuva de confetes e tudo. Se “Elephant” serviu como um grande primeiro chafariz à sua obra, “Let it Happen” cimentou de sobremaneira a popularidade do artista australiano, bem fácil de perceber pela recepção apoteótica dos presentes. Numa das várias interacções com o público, Kevin Parker perguntou se precisavam de água, e de facto era notório que os próprios seguranças de palco iam distribuindo copos de água pelos presentes, num belo gesto que premeia quem tanto sacrifica para ocupar os lugares mais próximos das grades. Voltamos a ‘Currents’ para mais um par de temas, mais precisamente ao etéreo e curto “Nangs”, antecipando o privilégio de assistir ao vivo, pela primeira vez no mundo, “List of People (To Try and Forget About)”, o que obviamente precipitou também uma grande onda de aplausos.

Representando sozinho ‘InnerSpeak’, álbum de estreia do projecto, surgiu “Alter Ego”, com um tratamento um pouco mais discotequeiro, talvez para se inserir melhor no alinhamento, e “Pieces of Haven” sob um manto de acordes de sintetizador bem anos 80 a deixar Kevin Parker sentado na frente do palco a cantar possivelmente uma das músicas mais lamechas da noite, onde a nostalgia radiofónica se cruza com uma pop ambiental bem açucarada. Num gesto relativamente frequente nos dias que correm, o público prontamente respondeu ao tema com um coro visual de luzinhas de telemóvel a baloiçar. Continuando em temas bem melosos, surge o hit “Eventually” retirado de ‘Currents’, convidando aos duetos apaixonados pelos fãs que foram com a sua cara-metade (ou suas, já que estamos em 2026), e do mesmo álbum “New Person, Same Old Mistakes”, malha bem gingona que serviu de tapete vermelho para o encore, sob novo coro de confetes.
Sem grande aparato, Tame Impala abandonou o palco mas seguramente nenhuma alma presente assumiu que seria a última vez que os víamos em palco. Como entretenimento de espera, voltamos a ver os pirilampos digitais a deambular nos presentes, já que a luz do pavilhão manteve-se praticamente apagada.

Mas veio a reacender-se para os últimos três temas da noite, com dois singles retirados do último álbum a ensanduicharem um dos seus mais emblemáticos temas: “Old Ways”, “The Less I Know the Better” e “End of Summer”. Porém, antes da execução dos temas, houve algum tempo para Kevin Parker se desfazer em elogios à cidade e às suas pessoas, dizendo que o arranque da tour deixou a barra demasiado elevada, assim como dirigindo algumas palavras a pessoas do público que fizeram questão de levar bandeiras da Austrália ou equipamentos dos Fremantle Dockers, clube de futebol da Austrália do qual além de mega adepto.
Após um falso arranque onde as coisas não estavam bem como queria, o encore lá arrancou em condições, onde o tema mostra a clara obsessão com house e pop mais electrónica que está mais no centro da sua atenção artística. “The Less I Know The Better” foi, previsivelmente, um dos temas mais esperados da noite, com o público a agitar-se e a cantar bem alto, e onde as luzes, que sem dúvida são um ponto forte do espectáculo dos Tame Impala, estiveram mais cativantes, com um arco-íris em cascata a desfilar pelo topo do palco a hipnotizar tudo e todos.

Para encerrar um concerto que já ia longo, “My Old Ways” carrega no pedal de algo a fazer lembrar as raves de Underworld ou aventuras post-disco de Chemical Brothers. Últimos confettis a serem bombeados para o ar e, por entre “thank you” e “we love you”, ficou a promessa genuína de um regresso em breve. Pouco mais de duas horas de concerto serviram para mostrar que a mutação musical e artística de Kevin Parker continua, com direções muito específicas à pop e à música de clubbing, cada álbum mais longe do rock psicadélico que tanto o popularizou e que influenciou boa parte das bandas que surgiram com esse tipo de som revivalista após ‘InnerSpeak’.
Quanto a mim, é difícil esquecer aquele grandioso concerto de 2011 no Super Bock Super Rock, sob um sol bem caloroso, sem grandes artifícios e com um punhado de canções electrizantes. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (e os públicos), mas para quem se delícia com as aventuras sónicas de Tame Impala seguramente saiu de barriga e coração cheio dos jardins do Palácio de Cristal. Quanto a mim, aguardo a tal prometida visita à invicta: Kevin, a gente do Porto não esquece.
Reportagem fotográfica Completa Tame Impala: clicar aqui

Texto:
– Tiago Magalhães “Megas” @ tiagomegas (Instagram)
Fotografia:
– Ana Lourenço @ blackphant.stage (Instagram)


