Na enigmática sala de estar das Pinehouse Concerts, com: Luís Severo | Reportagem

Luis Severo no CCOP no Porto

“Era início de dezembro quando, misteriosamente, surgiu um vídeo de uma performance do artista brasileiro Tim Bernardes num canal de YouTube até então desconhecido, intitulado de Pinehouse Concerts.” Escrevemos estas palavras após sermos convidados à casa deste projeto. Enigmático e sempre sem revelar muito a sua “identidade”, despoletou muitas questões: Onde se situa este cenário? Será que é possível assistir a estas íntimas performances? Quem será o próximo nome?

No dia 17 de Junho, após o fecho da 1ª temporada das Pinehouse Concerts, o ciclo de concertos abriu as suas portas e revelou um pouco do seu bonito trabalho. Luís Severo foi o nome convidado para dar forma e corpo, logo com dois concertos, ambos esgotados.

21h e lá estávamos nós a entrar pelo CCOP adentro, bonito, antigo e intemporal edifício perto das Fontainhas, no Porto. À porta estavam as duas caras simpáticas que fizeram este projeto possível. Victor Butuc e a Catarina Soares, iam recebendo todos os convidados que entravam no auditório, fazendo cada um sentir-se em casa, como qualquer bom anfitrião. À nossa frente estendia-se a tal sala de estar que íamos vendo episodio após episodio.

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O cenário montado remeteu-nos ao bonito estúdio, como se realmente lá estivéssemos. A poltrona imponente de pele servia de suporte a um dos muitos dos quadros renascentistas (talvez?) tão característico do habitat natural da casa das Pinehouse Concerts. Do seu lado direito encontrava-se um pequeno baú com um candeeiro de mesa e um metrónomo, pronto a ditar o ritmo da festa. Entre eles subia uma pequena árvore que nos fazia envolver ainda mais naquele ambiente. Do outro lado do palco encontrava-se uma bonita cómoda à anos 60s, dando suporte a uma pequena planta que se debruçava sobre o mesmo e com mais um quadro, dando ainda mais ênfase a uma das imagens fortes do estúdio portuense.

Pouco passava da hora marcada, quando Luís Severo subia à tal sala de estar. O artista serviu-se de um teclado, enquanto suportava um Manejo Neko dourado, e um par de guitarras. Sob uma enorme chuva de aplausos, o artista lisboeta ia agradecendo, acenando com um envergonhado abanar de cabeça. Após uma entrada em falso soltando alguns sorrisos, lá veio ele numa segunda tentativa , recebida pela segunda vaga de aplausos, ainda mais intensificados.. “Amor e Verdade” foi o tema com que iniciou este agradável serão, numa noite que viajou por toda a sua discografia.

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É à segunda música que o artista começa a dissecar cada tema que vai tocando, envolvendo-nos ainda mais na sua lírica. “Joãozinho” foi uma das canções que compôs quando soube que ia ser tio, escrevendo essa bonita música para que o seu sobrinho pudesse ser o que bem quisesse ser, sem preconceitos nem influencias que pudesse vir a ter. Segue-se, à terceira música, um dos momentos mais tocantes e íntimos. Voltando a tocar do seu disco mais recente, ‘O Sol Voltou’, Luís Severo começa a dedilhar “Acácia”, uma canção pesada e que escreveu após a perda de uma pessoa próxima, e como nós sentimos cada nota…

Sem querer “tornar o concerto muito pesado”, e em tom de brincadeira, o artista lisboeta, vai alternando os momentos festivos com os momentos mais introspetivos. Recua assim a 2017 para tocar “Cabeça de Vento”, pedindo desculpa à sua mãe por:

Oh! Mãe
Desculpa ser cabeça de vento
Um dia hei-de ser alguém
Hei-de arranjar sustento

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De uma forma descontraída e descomprometida, Luís Severo abandona o palco por breves momentos, voltando pouco tempo depois para se sentar ao piano. “Raramente toco esta música ao vivo”, deixando todos que assistiam num pequeno borbulhar de emoção. “Vida de Escorpião”, faixa do seu disco de estreia de 2015, saiu das teclas pisadas pelos seus dedos, tendo sido respondido por muitos aplausos vindos da plateia esgotada. Numa transição suave e sem parar, começa a tocar os irreconhecíveis acordes de “Cara D’Anjo”. As máscaras usadas por todos em nosso redor, não foram o suficiente para impedir as letras debitadas por todos os presentes, e nesta, isso foi bem audível.

  • “Quem me Espera” (2019)
  • “Planície (Tudo Igual)” (2017)
  • “Última Canção” (2019)
  • “Domingo” (2019)

Deixando os teclados e guitarras e até o microfone para trás, Luís Severo chega-se à frente do público e, como se tivesse numa interpretação cinematográfica, começa a cantar à capella, “Rapaz”. Foi apenas um dos primeiros momentos especiais que este concerto nos trouxe. O seguinte veio logo a seguir, largando o seu egocentrismo, como ele lhe chamou, e invocando o nome de Filipe Sambado, começa a tocar uma das faixas do aclamado disco, ‘Vida Salgado’.

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Um dos pontos mais cantados em uníssono, veio com o regresso da guitarra elétrica e com o dedilhar de “Primavera”, o single do seu mais recente disco de 2019.

Já se começava a prever o final deste bonito concerto. Na setlist ainda tivemos direito a “Coelho”, música de 2014 escrita e tocada com Coelho Radioativo e “Maio”, tocando assim, praticamente na integra, ‘O Sol Voltou’. Antes de terminar, Luís Severo passa o poder de decisão para nós, público, e pergunta qual será a próxima faixa a tocar. Os pedidos saíram imediatamente disparados, sendo que “Meu Amor” foi o mais audível, e assim o pedido foi aceite.

Este serão agradável na sala de estar das Pinehouse Concerts e com banda sonora a cargo de Luís Severo, acabou em “Boa Companhia”. Apenas com a guitarra sobre os seus braços, já sem ligação aos amplificadores e entregando-se apenas à sua projeção vocal, chegou-se para bem mais perto de nós, e num último ato, encanta-nos com o seu timbre, as suas cordas e a sua poesia.

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Texto:
Luís Silva

Fotografia:
Cláudia Bandeira

Luís Aires Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Num quarto de uma residência universitária em Guimarães, criei em 2012 os primeiros acordes do headLiner. Nasceu da vontade de dar espaço a uma cena musical mais underground. Aqui, o BPM e os decibéis são secundários. Interessa-me a música em todo o seu espectro. Eu fico por aqui a ouvir e a escrever algumas palavras — umas com mais sentido do que outras.