Homem em Catarse – ‘sem palavras | cem palavras’ | HeadLiner On The Moon #4

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HeadLiner On the Moon é uma rubrica de análise de trabalhos discográficos elaborada por João Tavares do blogue Man On the Moon no qual são originalmente publicadas. Nesta parceria os álbuns lançados
nas últimas semanas terão um olhar sempre atento e uma audição sempre
sagaz!

 

Nota Introdutória

Já faz uns anos que conheço o Afonso Dorido (sem ele me conhecer) de outro mundo musical do qual sou fã, os indignu (banda de post rock) no qual é guitarrista. A partir dai fui olhando de lés a lés no que ele ia criando. O Homem em Catarse entrou-me no ouvido numa noite em que ele tocou no aconchegante
Oub’Lá

(bar em Guimarães) começando aí a descoberta de outra faceta do artista.

O primeiro contacto pessoal com ele surgiu num evento organizado pela Gig Club, uma Listening Session no dia 23 de Janeiro, no qual ouvi pela primeira vez este ‘sem palavras | cem palavras’.

Fazendo um contraste ao seu primeiro LP ‘Viagem Interior’, um trabalho que nos faz viajar por entre os campos alentejanos áridos e de se perder de vista ou entre os montes verdejantes que se difundem entre os rios de trás-os-montes, o ‘sem palavras | cem palavras’ leva-nos numa outra viagem. Uma viagem mais introspectiva, uma viagem que para a concretizar só nos basta fechar os olhos, clicar no play, começar em “Tu eras apenas uma pequena folha” e deixar-nos levar pela poesia sem palavras onde o destino é incerto e simplesmente idealizado por nós.

por Luís Silva (gestor e administrador do HeadLiner)

Homem em Catarse é o alter ego musical do músico Afonso Dorido, um exímio guitarrista que começou a sua aventura musical há já meia década com ‘Guarda Rios’, um EP auto-editado.
Dois anos depois veio o tão aguardado registo de estreia em formato álbum, um trabalho intitulado ‘Viagem Interior’ e que nos oferecia um percurso às principais cidades de Portugal profundo.
‘sem palavras, cem palavras’ é a sua nova etapa discográfica, um disco com um brilho raro e inédito no panorama nacional, feito por um projeto que não conhecia antes de ouvir este trabalho, mas que já percebi que é exímio a compor canções que cirandam entre os altos e baixos da vida e que nos mostram como é, tantas vezes, muito ténue a fronteira entre esses dois pólos, entre magia e ilusão, como se a explicação das diferentes intersecções com que nos deparamos durante a nossa existência fossem alguma vez possível de ser relatada de forma lógica e direta.

Logo na deliciosa intimidade que sobressai do piano de “Tu eras apenas uma pequena folha”, percebe-se que o Afonso não tem pudores em servir-se da música como um veículo privilegiado para nos mostrar, de modo realisticamente impressivo, o seu ímpeto criativo e como isso lhe alimenta a urgência que o seu âmago sente de comunicar connosco.

[youtube=https://www.youtube.com/watch?v=QwZSIXz8rFU&w=540&h=304]

“Yo La Tengo”, faixa de ‘sem palavras | cem palavras’

 

Depois, a simplicidade melódica e o imediatismo planante das cordas que se entre cruzam na lisérgica “Hey Vini!” e o banquete sintético de forte cariz progressivo que conduz “Hotel Saturnyo”, acabam por personificar com excelência a (apenas) dicotomia de um título, que pode transmitir a ideia de que a idealização do conteúdo do registo não teve como premissa essencial o desejo de transmissão de ideias concretas, quando aquilo que acontece, ao longo da audição do trabalho, eminentemente instrumental, é, exatamente, um bombardeamento constante de pensamentos, conceitos e até opiniões, tenhamos nós, ouvintes,a predisposição para nos deixarmos enlear e enfeitiçar por estas canções.

O disco prossegue e se a crueza e a simplicidade acústica de “Marie Bonheur” parecem evocar a verdade eterna que todos reconhecemos de que tudo é passageiro, a fragilidade perene que tremula nas teclas que nos instigam em “Calle del Amor”, a simultaneamente intrigante e sedutora destreza maquinal e orgânica em que assenta “Yo La Tengo” e a luz que nos faz sorrir sem medo do amanhã que fica defronte ao que sabe a frenética “Danças Marcianas”, são mais momentos altos que comprovam a notável abrangência autoral de um artista que assina neste ‘sem palavaras I cem palavras’ um álbum extremamente comunicativo e repleto de composições contemplativas, que criam uma paisagem imensa e ilimitada de possibilidades que compete a nós destrinçar ou, em alternativa, idealizar, já que as duas abordagens são sempre possíveis na música de Homem em Catarse.
Espero que aprecies a sugestão…

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Capa do álbum ‘sem palavras | cem palavras’
Tracklist:

  1. Tu eras apenas uma pequena folha
  2. Hey Vini!

     

  3. Hotel Saturnyo
  4. Lembro-me de ti mesmo quando não me lembro

     

  5. Marie Bonheur
  6. Calle del Amor
  7. Yo La Tengo
  8. Danças Marcianas
  9. Mar Adentro
  10. Casa dos pequenos pássaros

Ouvir o álbum: homememcatarse.bandcamp.com/

Avaliação pelo HeadLiner:
⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐

(8 numa escala máxima de 10)

 

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Review escrita por João Tavares.

### Autor do blogue Man On The Moon no qual publica, desde 2008, análises bem pertinentes às bandas e artistas mais interessantes do momento. Sem dúvida uma das leituras mais aconselháveis sobre música indie e alternativa em português de Portugal. ###
Outras análises musicais em:
stipe07.blogs.sapo.pt/

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

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