Fe-Festival Emergente: A irreverência faz emergir o talento | Entrevista

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A 3ª edição do Festival Emergente 2021 vai acontecer nos dias 15 e 16 de Outubro no Capitólio, uma das melhores salas do país e da cidade de Lisboa. Depois da difícil mas desafiante edição de 2020, num só dia e com 8 bandas, este ano o festival volta ao seu modelo original em dois dias, num alinhamento repleto de bandas emergentes.

Um cartaz cheio de talento, em resultado de um Open Call Super Emergentes fortíssimo, em que mais uma vez esta nova geração de músicos superou todas as expectativas e tornou a seleção extremamente difícil: foram selecionadas 11 bandas para o alinhamento e não 8, como estava previsto.

O Emergente faz assim jus à sua principal missão de apoiar a nova geração da música portuguesa, dando-lhe o maior número de oportunidades possível, fazendo-a subir a um palco com excelentes condições técnicas, espaciais e audiovisuais, para que o seu talento possa brilhar em grandes concertos com grandes performances, já uma imagem de marca do festival.

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Estivemos à conversa com o Carlos Gomes, diretor artístico do festival, e falamos sobre o super cartaz que o festival lisboeta traz, assim como todos os desafios que enfrentaram e sobre o futuro não muito distante deste evento tão único em Portugal. 

Entrevista ao Fe-Festival Emergente

headLiner: Olá, Carlos, tudo bem? Estamos
a muitos poucos dias do festival, o que falta fazer? Já está tudo pronto para
esta terceira edição?

Festival Emergente: Oi, tudo bem? O que falta fazer?
Oh pá, falta fazer aquelas coisas finais de produção de um festival. Desde
coordenar a chegada das bandas, aos horários de refeições, como é que as bandas
se vão articular no espaço em termos de camarins, enfim, todas aquelas coisas
pequeninas com que fazem que no fundo as coisas fluam.

headLiner: “Os menos jovens têm os mais
jovens como referência e não o contrário.” Queres-nos falar o significado desta
frase e como ela se reflete no festival?

Festival Emergente: É o espírito que preside ao
aparecimento do próprio Festival Emergente. É uma crença profunda de algum de
nós que estamos por detrás do festival, temos presente na vossa geração, ou
seja, na geração daqueles que poderiam ser os nossos filhos, também tenho um
filho com 23 anos (risos), e, portanto, sei bem o que é isso. Vemos que é uma
geração muito mais cooperante, muito mais aberta, trabalha mais em comunidade e
em prol de objetivos comuns, ao contrário daquilo que nos vendem a toda a hora,
que não há valores nesta geração. Eu acho que há muitos valores e eu/nós
acreditamos muito nela, portanto a ideia é essa, aprender também com os mais
novos. É aprender com toda esta atmosfera, com toda esta capacidade que vocês têm
em trabalhar em conjunto e de sonharem com os vossos projetos e de os
concretizar. O Emergente é precisamente o reflexo disso. Nós queremos convocar
essa energia para o festival e dai abrirmos as portas às bandas super
emergentes para saltarem para cima de um palco, neste caso o Capitólio. O
festival representa um pouco isso também, uma junção da experiência das equipas
técnicas e das pessoas que estão por detrás da produção do festival com a
juventude e a frescura das bandas, músicos e de toda a gente que está envolvida
na promoção e divulgação do seu trabalho. Diria que é um pouco a nossa missão,
apoiar esta geração, contribuir para que ela mais rapidamente atinja os seus
objetivos porque acreditamos que isso é uma forma de darmos o nosso contributo
para mudar um pouco o mundo. Uma espécie de status quo, de serem sempre
as mesmas pessoas, as mesmas bandas envolvidas em coisas com uma visibilidade
um bocado maior.

Não sei se respondi à tua questão
(risos), porque essa frase de facto tem um trocadilho muito sentido que é: não
é necessariamente os mais novos que olham para os mais velhos como alguém mais
experiente em função dessa experiência, porque se a experiência é má, não há
muito a aprender com ela. Nós gostamos muito da palavra irreverência, porque
nós também sentimo-nos muito irreverentes, e apesar de não sermos da mesma
idade das bandas, todos nós sentimo-nos irreverentes no sentido de acharmos que
a questão da idade não é o mais importante, a idade é só uma questão cronológica.
O que é realmente importante é estarmos abertos uns aos outros e podermos
aprender com aqueles que não tem essa tal experiência e que por isso tem uma
forma diferente de olhar as coisas, uma outra forma de estar em palco e nós
colhemos muito dessa energia vital.

[youtube=https://www.youtube.com/watch?v=RKxWDa-uNCQ&w=540&h=303]

headLiner: Há muitos festivais por este
país fora, e que felizmente Portugal faz tão bem. O Fe-Festival Emergente traz
algo de novo. Como surgiu a ideia de fazer uma Open Call para artistas
emergentes, em vez de não só convida-los?

Festival Emergente:

Isso é uma pergunta que gosto
particularmente de responder, porque a verdade é que no 1º ano pensamos como
toda a gente. Convidamos x bandas de acordo com os nossos critérios, gostos e
com uma tentativa de apresentar uma certa linhagem da nova música portuguesa naquele
momento, procurando também abranger todo o território nacional. Já na 2ª
edição, por questões até de ordem financeira, não tínhamos orçamento para estar
a pensar em convidar quem nós quiséssemos, tínhamos um orçamento baixíssimo. O
que pensamos foi fazer um open call para bandas que nunca tenham tocado num
palco com a qualidade do Capitólio, e vamos fazer um line-up com base só em
bandas super emergentes, pagando um cache simbólico. Isso é algo que também
temos em atenção, ninguém vai tocar ao Emergente sem ser pago, suportamos
ajudas de custos tanto a nível de deslocação como a nível alimentar, ou seja,
tentamos acolher verdadeiramente as bandas, acarinhamo-las e temos prazer
nisso. Com a invenção do Open Call Super Emergentes, a coisa correu tão
bem e as bandas tinham tanta qualidade, que poderíamos ter feito um festival de
3 dias só com bandas desse open call. Assim, pensamos em claramente
continuar a experiência neste ano tendo agora mais flexibilidade quer em termos
financeiros quer em termos de dias, voltamos a ter 2 dias. O que
aconteceu foi que tínhamos pensado ter 8 bandas resultantes do open call
e 8 bandas convidadas, mas a verdade é que a dor foi tanta de deixar certos
projetos que tem uma altíssima qualidade de fora que o que fizemos foi estender
não a 8 mas a 11 bandas, ou seja, não estamos a falar nem de 1, 2, 3 nem de 4
mas 11 (!!) bandas a subir ao palco do Capitólio.

É um bom exemplo da tal irreverência
que estávamos a falar há pouco, de não estarmos fechados na nossa caixinha e
termos tido esta capacidade de pensar em soluções diferentes para tornar viável
a realização do festival em 2020, nas circunstâncias que todos sabemos. Adiamos
o festival 5 vezes, reprogramamos o festival 5 vezes para conseguirmos
realizá-lo com público na sala. Também tivemos o livestream, o que
voltamos a ter este ano. Essa abertura acabou por despoletar uma ideia com que
fez que tenha-mos ainda mais contacto com bandas ainda mais emergentes e com as
quais aprendemos de facto a qualidade que existe por ai como até descobrir
sonoridades emergentes, que estão num ponto de muito autêntico e visceral. Não
há nenhum festival em que possas assistir a 8, 10 bandas que sabes que vais
estar a vê-las pela primeira vez e sabes que aquilo que vais ouvir nunca
ouviste antes. Isso é algo que nos dá um grande gozo, essa tal irreverência.

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headLiner: Inicialmente estava previsto a
escolha de 8 artistas, no final foram escolhidos 11 artistas. Isto mostra o
quanto talento Portugal tem e toda a potencialidade de jovens artistas? Como é
feita a escolha das bandas?

Festival Emergente:

A escolha das bandas é conjugante
de uma serie de fatores. Nós convocamos uma serie de júris da área da música, o
Tiago Castro, radialista na SBSR, Vitor Belanciano do Público, eu
(Carlos) em representação do festival, o João Araújo do Rodellus, e este
ano tivemos a parceria do João Fernandes do Canal 180, que acabou por
ser substituído mais tarde. O júri escolhe 3 das bandas do Open Call num
sistema que começa por ser por de votação, e depois como aconteceu este ano, a
votação foi tão dispersa, a qualidade era tão grande que toda a gente votou em
praticamente bandas todas elas diferentes. Temos de nos reunir e de chegar a um
consenso. Este ano a escolha do júri recaiu sobre o Conjunto Júlio, os Los
Chapos
e Biloba. Os Biloba são um grupo incrível de música
que vem de uma escola de jazz, o Conjunto Júlio são daqueles casos que
falávamos há pouco da visceralidade de quem começa a tocar com os amigos e
descobre ali qualquer coisa e isso esta muito presente na música deles, e
depois os Los Chapos que são uma banda que nós também sentimos que tem
tudo para fazer um grande percurso. Eles também são muito jovens, salvo erro
eles até se reuniram no ano de 2020, como o Conjunto Júlio. Só para
teres uma ideia do quanto emergentes são (risos). Pronto, isso é uma primeira
fase.

Depois, abrimos a votação ao
público, eles escolhem uma banda para subir ao palco e este ano essa escolha
recaiu sobre Mikee Shite, e nós estamos muito curiosos. Eu acho que vai
ser a sua estreia mesmo como banda (risos), apesar de já terem tocado com
outras bandas, com o nome de Mikee Shite, vai ser praticamente a estreia
absoluta. Bem, as outras bandas tendo em conta a escolha dos júris, são
escolhas nossas, da organização em função da diversidade dos géneros musicais,
de uma forte presença feminina, a conjugação de projetos solo e projetos
formato banda, a conjugação de malta mais do norte e malta mais do sul. Há uma
mensagem que gostaria de dizer e gostaria de deixar bem claro, há muitas bandas
que ficaram fora do Festival Emergente não é porque tenham falta de qualidade,
é porque a seleção é isso mesmo, ou seja, acabam por ser um conjunto de fatores
com que aqueles que foram selecionados fazem sentido naquele momento para a
construção do line-up.

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headLiner: Do super cartaz que montaram
este ano, da nossa parte é impossível não destacar um dos discos do ano do
Chinaskee, a irreverência de Sreya ou os concertos eletrizantes dos Gator, The
Aligator. O que gostavas de destacar mais deste cartaz?

Festival Emergente:

Primeiro de tudo, o que gostava
de destacar deste cartaz são as 11 banda resultantes do Open Call como um todo,
porque acho que seria extremamente injusto estar aqui a destacar alguma em
particular. Não são nem 1, nem 2 nem 3 nem 4 bandas, são 11 bandas super
emergentes que vão subir ao Capitólio.

Depois dentro dos nossos
convidados, obviamente que gostamos muito de todos eles (risos), e o importante
é que para além dos que já referiste, referir que vamos ter o Caio, é um
artista que seguimos atentamente, é alguém que nós gostamos mesmo muito de
ouvir. Ele de facto é um músico com uma altíssima qualidade, com uma entrega
muito grande e com uma relação também muito grande entre a sua própria pessoa e
aquilo que ele faz como artista. Então, vamos ter o Caio num momento turning
point
da sua carreira, no qual vai apresentar temas novos do seu próximo
álbum, e, em formato de banda o que acho que vai ser uma experiência muito forte
no festival. Depois temos um conjunto de vozes femininas completamente
diferentes. Teremos a Madalena Palmeirim, ela tocou com uma proposta
muito singular, ela e o seu ukelele com uma poética muito forte, aquilo que ela
canta, os temas que ela invoca na sua música. A April Marmara, é uma
artista que nós adoramos, já gostávamos de a ter trazido ao festival Emergente
noutros anos, mas que por uma razão ou outra não foi possível, mas de facto ela
traz-nos uma espécie de nostalgia épica como eu lhe chamo (risos). Ela invoca
tudo aquilo que é mais profundo do ser humano, das suas ambições, dos seus
sonhos, dos seus desejos, tudo está ali expresso de uma forma latente e acho
que vai ser um concerto enorme. A Bia Maria tem uma proposta incrível,
que achamos também muito importante em Portugal, das tradições estarem muito
vivas e de ainda ter sido possível a esta geração ter este clash entre
aquilo que é a hipermodernidade em confronto com as tradições que ainda estão
presentes. Por cima disto, ela ainda vai adicionar uma roupagem mais
eletrónica, e nós estamos super curiosos de ouvir este concerto. Por fim temos
a Sreya que invoca temas muitos importantes para nós. Tem um lado quase
infantil, genuíno, mas ao mesmo tempo muito próprio muito identitário, no
sentido de se exprimir muito o que se é sem merdas, sem grandes filtros,
colocando também esta liberdade do ser, das opções de se quer ser aquilo que se
é e não em função das regras que nos são impostas.

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headLiner: O Festiva Emergente vai para
além da música cantada/tocada. Traz também um conjunto de conversas de
personalidades do meio, assim como uma componente mais artística, nomeadamente
da parte audiovisual, os videoclipes. O que é que vocês querem trazer com toda
esta diversidade de conteúdo? Uma espécie de WebSummit da música nacional?

Festival Emergente:

Não não não, nada disso (risos).
Deixa-me te dizer que pessoalmente tenho alguma aversão a esse tipo de ideia de
Summit ou o que seja. O que nós percebemos é que as coisas de facto estão
interligadas. Para já, os videoclips são uma forma de muito cineastas iniciarem
o seu percurso. Há um enorme talento dentro da cinematografia em Portugal e
muitos deles começam precisamente por fazer videoclipes que são pequenas
histórias, são curtas-metragens. Podem ter ou não uma certa sintonia com a
música e com os temas musicais que abordam, mas que por muitas vezes se
sobrepõem à qualidade musical do tema que estão a acompanhar. Por outro lado,
há equipas a trabalhar nos videoclips, desde os camaras man, maquilhadores,
produtores, enfim, toda uma serie de gente muito jovem, que tem uma enorme
vontade de trabalhar e com uma qualidade brutal. Nós então decidimos selecionar
14 videoclipes que vão passar entre cada dois concertos, e no final haverá um prémio para o melhor e para a melhor realização, ambos no valor de 500€.

Teremos também as conversas, que
são extremamente importantes para passar aqui uma mensagem à malta mais nova, que
o talento é o pilar fundamental do percurso artístico, mas que também é preciso
ter a consciência que o talento só por só não basta. É preciso trabalhar, é
preciso criar as condições para que esse talento chegue ao maior número de
pessoas possíveis. Isso implica também um envolvimento com o meio artístico a
que se pertence, o querer trabalhar nesse sentido e saber como promover o seu
trabalho, encontrar as pessoas certas que possam apoiá-los nesse caminho. E
isso passa por tudo, pelos agentes, programadores de espaços, passa pela
imprensa escrita, pelos radialistas, enfim, passa por entidades que neste
momento desenvolvem um trabalho incrível no sentido da promoção da música
portuguesa lá fora. As conversas de facto vão ter uma serie de convidados muito
interessantes, e nós apelamos que toda a gente compareça e que venha conversar.
As próprias bandas que não estejam a
fazer soundcheck, que subam até ao terraço. As conversas serão das 14:30
até às 15:30 sobre precisamente o que é isto da música emergente e dos desafios
que teremos no futuro. Por outro lado, irá ser falado também estratégias de
internacionalização e de partilha de conhecimento para que este talento seja
mais visível.

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De ano para ano, o Festival
Emergente Reinventa-se e traz sempre boas novidades. Já tens alguma pensada
para o ano de 2022?

Festival Emergente:

Já este ano tentamos fazer uma ponte com o país vizinho, com
Espanha, com o objetivo de trazer bandas espanholas através do open call, que
acabou por não resultar porque também começamos muito tarde. O Festiva
Emergente também tem um problema estrutural, que é a dependência financeira,
que implica candidaturas, prazos e tempos de espera desses resultados e só
depois de saberes com que linhas te podes cozer, é que podes propriamente a
programar e a pensar no que é que o festival pode ser em termos de estrutura,
datas, local, enfim, há muitas variáveis que ficam dependentes dessa capacidade
financeira. E pronto, de facto começamos tarde a procurar esse trabalho de
procura de parceiros em Espanha que nos apoiassem neste esforço de trazer
bandas espanholas, e depois começar a intercambiar com eles bandas portuguesas
em Espanha. Para o ano queremos precisamente continuidade aos contactos que
fizemos este ano, que não foram frutíferos numa primeira abordagem, mas que
estou convencido que vão ser para o ano.

Outra coisa que gostaríamos de fazer, pouco a pouco, é
expandir esta ideia da internacionalização do festival, a outras propostas que
nos parecem encaixar neste carácter emergente do festival e da sua programação.
Agora, nós gostamos de dar estes passos de uma forma consistente e de uma forma
que faça sentido para nós. Gostamos de olhar para os line-ups de todos
os anos e de pensar que de facto há todos os anos ali uma ideia, uma espécie de
“onda” como eu lhe chamo, de cada um dos dias da programação. Uma transição de
uns momentos para os outros de uma forma que faça sentido, quase como uma
partitura musical e não somente uma junção de bandas.

Entrevista por: Luís Silva

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

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