
Em maio de 2022 o Coliseu Porto Ageas fez o anúncio da reabertura de uma das suas salas históricas: o Salão Ático. Renomeado de Novo Ático tem sido ocupado com programação em regime de matiné ao domingo, será sempre assim. Um pouco a fazer lembrar os chás dançantes realizados no século passado, desde 1941. A sala mantém a sua capacidade de 300 pessoas em pé e até 200 pessoas em formato de plateia sentada.
A Garota Não, Happy Mess, Club Makumba e Surma foram alguns dos artistas que atuaram por lá, nomeadamente, na segunda metade de 2022. Mirror People, O Gajo, Golden Slumbers e Mariana Dalot são alguns dos que já passaram pelo Novo Ático este ano. Uma programação musical bem diversificada, uma mais-valia na agenda cultural portuense, sem dúvida.
Catarina Miranda é cantora, multi-instrumentista, diretora de vídeo e fotógrafa. O seu nome artístico é Emmy Curl. Como curiosidade adicional resta dizer que ela é sua própria produtora. Uma artista bastante completa artisticamente cuja carreira prossegue há já cerca de 15 anos. Ela fez parte como vocalista no projeto :papercutz por algum tempo. A sua participação no Festival da Canção em 2018 proporcionou-lhe igualmente uma visibilidade alargada.

Emmy Curl expansiva e concentrada | fotos @ Pedro Magalhães / Novo Ático
Atualmente, fruto de residir na Ilha da Madeira, uniu forças ao guitarrista dinamarquês Andreas Sidenius e criaram Mira Doura. Este projeto musical visa homenagear a Madeira e as suas gentes, sendo que a estreia do projeto em palco aconteceu no Auditório Do Jardim Municipal do Funchal no passado mês de março.
A minha estreia na sala de espetáculos Novo Ático ocorreu então no passado domingo, 19 de novembro, com o concerto de Emmy Curl. Já há algum tempo procurava vê-la, curiosidade aguçada desde uma oportunidade em que a vi pela primeira vez, salvo erro, na Associação Convívio em Guimarães há já alguns anos.
O meio de transporte para chegar à Invicta foi o comboio, meio de transporte que já não utilizava faz bastante tempo, até tempos pré-pandemia. A tarde bem solarenga, com céu azul, coisa rara nas últimas semanas convidou a um passeio pela Rua de Santa Catarina. Tal como é costume, ainda mais devido ao excelente clima, estava cheia de gente. Para continuar o ritmo bastante prazeroso do dia, bem perto das 18h foi então o momento para ver Emmy Curl ao vivo. Subi, pela primeira vez, as escadas que dão acesso à sala do Novo Ático. Fica num espaço situado no 3° andar, no edifício do Coliseu.

Emmy Curl a fazer uso da sua angelical voz | fotos @ Pedro Magalhães / Novo Ático
Ao entrar deparei-me com uma sala bastante escura iluminada em tons de azul, panorama alterado depois da entrada da artista de Vila Real em palco, com um display de cores mais harmonioso. Sala decorada com uma imagem projetada a dizer Pastoral num efeito 3D plenamente artístico, aliás as projeções foram-se sucedendo com o decorrer das canções. Ficamos a saber, num momento mais avançado da performance, que as imagens 3D apresentadas são criações da própria artista. A explicação surgiu num momento em que não estavam a surgir na tela como deviam.
Outro ponto particular da decoração cénica: em cada extremidade estiveram colocadas duas tendas tipi decoradas de modo bem particular.
Tudo certo: lugares sentados, lotação esgotada, sala agradável. Com público diversificado, notou-se a presença de mais público de faixas etárias acima dos 30 anos. A animação subiu de tom com a entrada de Emmy Curl para a sua ‘workstation’ 7 minutos após a hora definida no bilhete. Ela que desejou imediatamente uma boa viagem a todos os presentes.

Emmy Curl junto da sua ‘workstation’ eletrónica | fotos @ Pedro Magalhães / Novo Ático
Emmy Curl revelou ao público que eram algumas das primeiras pessoas a ouvir os novos temas. Ela explicou que queria experimentar tocá-los ao vivo “antes de irem parar ao spotify”. Fui então brindado, juntamente com mais de uma centena de pessoas, com estas músicas novas pouco antes do lançamento de ‘Pastoral’, o seu próximo trabalho discográfico. Este álbum “é uma homenagem à herança cultural do folklore português, uma celebração de coragem e amor em tempos difíceis” no qual as influências das batidas eletrónicas criam um ambiente atmosférico. “Mudança” e “Mirandum”, singles já disponíveis de forma pública, foram temas muito aplaudidos e recebidos calorosamente.
Em “Mirandum” fez uso de um figurino feito à última hora, história de um esquecimento que prontamente contou. Figurino muito bonito, deu-lhe as “asas” para trazer até ao Porto um gostinho de Trás-os-Montes. Inclusive utilizou um adufe em “Senhora do Almortão”, tema do cancioneiro nacional. Foi o pontificado extra da tradição regional inspirada na sua terra natal e em toda a região transmontana.

Figurino arrojado e de belo efeito, visual bem apelativo | fotos @ Pedro Magalhães / Novo Ático
Além destes ouvi também, por exemplo, “Poetas à solta” e “Pensa em mim”. Estes dois temas frescos, ouvidos pela primeira vez, foram um regalo. Comprovam, como os referidos anteriormente, a ligação aos sons lusitanos com o intercalar das batidas eletrónicas e a voz angelical e doce de Emmy Curl.
Para Emmy Curl foi um momento especial, ela que em 2019 editou ‘ØPorto’, trabalho discográfico que “retrata a dualidade da cidade do Porto, entre o antigo e o novo, a natureza e a tecnologia, e é neste formato que divide este seu álbum”.
Ela frisou “nunca cheguei a apresentar por ser lançado durante a pandemia”, um “álbum inteiro para o Porto”. Embora o foco não fosse dar a conhecer este disco ela tocou algumas canções, uma forma de redimir-se por ter passado tanto tempo sem tocá-lo naquela cidade. “Porto” e “De Que É Feito” foram boas pistas introdutórias a esse trabalho discográfico. Para boa parte do público nem tanto, ela foi brindada com a presença de gente sua conhecida.

Emmy Curl com a sua guitarra clássica | fotos @ Pedro Magalhães / Novo Ático
No encore, pedido com palmas afetuosas e intensas, aceitou pedidos do público. “Dança da lua e do sol” , “Morning” e “Volto Na Primavera” foram as três aceites. Esta última com algumas reticências pelo receio de não recordar-se dos acordes certos. Após uns dedilhares nos acordes eis que a interpretação correu de forma simplesmente tranquila e bem conseguida. Foram as três finais com recurso à voz e guitarra clássica.
Recebeu as palmas finais já com o seu filho no colo perante sorrisos de família e amigos. Catarina Miranda teve um final de tarde bem caloroso, sem dúvida.
‘Pastoral’ está quase a sair nos escaparates, não só no reino digital. Merecerá uma audição atenta, com toda a certeza.
Nota final: agradecimento à Joana Brandão do Novo Ático pela disponibilização das fotos oficiais deste concerto autoria de Pedro Magalhães. Podem encontrar nas redes sociais do Novo Ático mais fotografias deste evento: @novoatico.
Texto:
Edgar Silva
Fotografia:
Pedro Magalhães @ Novo Ático
