
Aparição da chuva no 1º dia // Foto oficial Primavera Sound Porto @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
Entre os dias 7 e 10 de junho, respetivamente entre a última quarta-feira e sábado, aconteceu a edição 2023 do Primavera Sound Porto no local do costume: Parque da Cidade. Pela primeira vez sem o habitual naming sponsor cuja presença foi permanente nas 9 edições anteriores, desta vez adotou o nome da cidade que o acolhe.
Além dessa novidade houve mais umas quantas nomeadamente no layout do recinto, bastante remodelado. A mais significativa, também a que mais celeuma provocou, foi a passagem do palco principal para uma nova zona. A mítica encosta do Parque da Cidade continua a ter os dois palcos no mesmo local. A grande alteração é que o renomeado Palco Vodafone agora não é o mais relevante, aquele que recebe os grandes headLiners do evento. Houve muitas conversas e na mesma medida variados comentários nas redes sociais acerca dessa mudança, sobretudo de forma negativa. Acho que é preciso analisar a situação dos dois pontos de vista: o da organização e do público.
Por parte da organização, é percetível a orientação em direção a um determinado rumo notadamente ao objetivo do aumento da lotação máxima diária. Este ano esteve fixada em 45 mil pessoas, em nenhum dos dias esteve perto desse número, e no futuro será ainda maior. Há também a questão da logística, tal como José Barreiro, o diretor do festival, afirmou que as principais bandas trazem atualmente consigo 10 a 15 camiões. Fazer chegar todo o equipamento aquela parte, atualmente Palco Vodafone, de forma fácil torna-se algo muito trabalhoso sem danificar o verde do parque. Algo que o Palco Porto, dado estar mesmo junto à estrada, proporciona fazer-se de forma bem mais prática.

Vista ampla do Palco Super Bock // Foto oficial Primavera Sound Porto @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
Por parte do público existe algum descontentamento: perde-se alguma mística pelos concertos mais importantes não acontecerem no local do costume bem como um conforto associado à encosta. Pela experiência no Palco Porto neste 2023 a verdade é que a vivência não ajudou a desmistificar tal. Com as chuvas do primeiro dia o terreno em frente ao palco ficou bastante danificado: com poças e lamacento, foi efetivamente bastante desconfortável. Outra situação grave, sinalizar que foi também bastante desconfortável foi o cheiro pútrido, mais pegado à zona da bancada. Por fim referir que sobretudo para pessoas de estatura mais baixa, ser um local plano é prejudicial, mais na zona frontal até sensivelmente à cabine do som.
Pessoalmente, vendo a questão do tipo copo meio cheio, acho que o recinto do Palco Porto tem potencial. A organização já revelou que no próximo ano o local será para manter. Oxalá o que se passou este ano permita retirar as melhores ilações para que possam corrigir os aspetos menos bons. A experiência naquele sítio tem de ser acima da média para uma satisfação plena do festivaleiro.
Relativamente ao Palco Plenitude (veio tomar o lugar do palco do “bosque”, antigo “ATP” ou “Binance”) demonstrou potencial e uma localização bem prática. Pelo lado menos positivo, quando houve concertos ao mesmo tempo, no Plenitude e Vodafone existiu conflitos de som. No Plenitude ouviu-se bastante o som vindo do outro lado em algumas ocasiões.
Já sobre os restantes dois, nos locais do costume, o Palco Super Bock e o Palco Vodafone cumpriram com o que estamos habituados.
Cerca de 140 mil entradas foram registadas no Primavera Sound Porto nesta 10ª edição, sem dias esgotados. Os números apontam para o público estrangeiro ter representado 40% da audiência. Isso talvez explique a política de preços ser um pouco acima do que os portugueses estão mais habituados. O preço dos bilhetes, quer o geral (a preço normal) quer o diário são dos mais caros dos grandes festivais. Se calhar aí, a organização podia fazer um “miminho” aos fãs portugueses. Fazer um acordo com algum retalhista português e ter uma quantidade limitada de ingressos a preço promocional nos dias após a divulgação do cartaz.

Público do Primavera Sound Porto // Foto oficial Primavera Sound Porto @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
A restauração e o merchandising registam também preços médios para cima, tendo em conta a realidade lusitana. Efetivamente são dados significativos, se a tudo isto ainda juntarmos o valor de deslocações e hospedagem, fica um valor bastante considerável. Para o comum português a decisão de ida ao Primavera tem de ser bem ponderada, algo que estará sempre associada, normalmente, a um forte motivo musical.
Um estudo revelou “um impacto económico de 48,5 milhões de euros na cidade” pois muitos dos festivaleiros vêm de fora do Porto, sobretudo mesmo fora do país. A organização pretende aumentar o número diário de entradas nos próximos anos. Sabendo da necessidade do aumento de receitas vinda da venda de bilhetes, por oposto às receitas de patrocinadores são cada vez mais difíceis de obter, espero que o festival não perca a sua “qualidade de vida festival e conforto” com a mudança desta premissa.
Regressando às restantes considerações sobre o layout, além das já referidas, é preciso referir que tudo funcionou de modo bastante positivo. A fluidez do público era imensa, mesmo em altura de picos de adesão. Será que assim seria com 45 mil pessoas? A restauração funcionou bem, de referir a permanente limpeza de mesas e do espaço coberto. Quanto às casas de banho: estavam muito bem situadas, havia sempre uma perto de um dos palcos e com boa manutenção. Neste aspeto só uma situação menos boa. Num dos dias a determinada hora da noite, registei escassa água disponível numa delas. Para higiene pessoal ou um simples encher da garrafa, era uma tarefa árdua.

Yves Tumor e o seu público // Foto oficial Primavera Sound Porto @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
Quanto aos concertos houve atuações incríveis a fazerem jus à fama do Primavera Sound. As bandas lusitanas foram merecedoras da aposta do festival e as algumas das internacionais proporcionaram atuações memoráveis, tais como Blur, Pet Shop Boys, My Morning Jacket, Yves Tumor, Alvvays The Beths ou St Vincent. Só para citar algumas. Nada como ler as nossas reportagens diárias para perceber melhor o que aconteceu em cada um dos quatro dias. Reportagens disponíveis em headlinerportugal.tumblr.com
Apesar do percalço no set dos New Order, do não cumprimento do horário da abertura das portas nomeadamente nos primeiros dois dias (com a aglomeração de pessoas durante algum tempo) e do mau tempo (e respetivas consequências no recinto) tenho de atribuir à organização do Primavera Sound Porto nota bastante positiva.
Nota final e principal para a mais mais-valia do Primavera Sound do Porto: o seu público. Comportamento impecável ao longo dos 4 dias e mesmo face a condições mais precárias, principalmente, nos dias 7 e 8 de junho, as pessoas procuraram tirar o máximo partido da ocasião. Destacar o largo alcance do público, bem dos 8 aos 80 anos. Com famílias, pais e filhos, a estarem juntos no evento.
Em 2024 o Primavera Sound Porto regressa de 7 a 9 de junho e pela primeira vez acontecerá ao domingo. No próximo ano o feriado nacional de Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas calha numa segunda-feira.
Texto:
Edgar Silva
Fotografia:
Hugo Lima @ Primavera Sound Porto [fotos oficiais]
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