“Boys and Girls” dos 8 aos 80 numa satisfação Universal – Dia 4 do Primavera Sound Porto 2023

Damon Albarn fiel ao seu estilo irreverente // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept

Em Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas encerrou o Primavera Sound Porto com a sua 10ª edição, particularmente distinta de anteriores por variadas razões.

Neste passado sábado, 10 de junho, teve lugar o último de quatro dias, efetivamente o mais simpático em diversos itens. Logo à cabeça refiro dois factos: foi o mais concorrido e teve a melhor conjuntura de clima.

Ainda não eram 17h e as imediações do Parque da Cidade estavam bem movimentadas, já com uma grande quantidade gente a circular e igualmente muitos carros estacionados, muitos deles em lugares indevidos.

PUP na abertura diária do Palco Plenitude // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
A minha programação iniciou-se com os PUP, formação canadiana que efetuou a sua estreia em Portugal. Esta edição do Primavera Sound Porto teve o condão de proporcionar ao seu público um número apreciável de debutes em Portugal. Stefan Babcock, vocalista e guitarrista, fez questão de dizer que não ia falar muito, afirmou que iam tentar o máximo de músicas possível durante os 45 minutos a que tiveram direito. Sol a brilhar e céu azul e ao passar da música “Totally Fine”, traduzindo: totalmente bem, posso afirmar que assim estava toda a gente. Esta é uma das novas porém a banda fixou-se mais em ‘Morbid Stuff’, o incrível álbum de 2019 do qual interpretaram temas como “Kids”, “Free at last” ou “Scorpion Hill”.Energia punk de imensa boa disposição. Início top de jornada na qual o mosh lá surgiu para levantar o pó.

Uma das maiores curiosidades do dia eram os Yard Act. Estes britânicos oriundos de Leeds fizeram igualmente o seu baptimo na Cidade Invicta e no nosso país. No Palco Porto, agora o principal e “colado” à Rotunda da Anémona, o concerto sofreu um atraso de 15 minutos. Wolf Manhattan, o artista anterior nesse recinto, tinha iniciado a sua performance mais tarde por isso acabou por acontecer “efeito de bola de neve”.

James Smith na sua primeira vez no Porto // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
‘The Overload’, o único LP editado pelos Yard Act, foi o suficiente para um significativo buzz à volta deste projeto. A faixa que dá nome ao álbum, a mais conhecida e mais ouvida, não faltou ao alinhamento. Atuação iniciada com “Dead Horse” tendo passagens pelos temas “Rich” e “100% Endurance”. Na introdução a “Pour Another” o vocalista fez um brinde ao público elogiando pelo meio a bebida portuguesa, estava agitando no ar uma cerveja. James Smith, o vocalista, esteve bastante interventivo no intermédio dos temas. Ele que atuou com uma vistosa camisa vermelha. Proporcionaram uma atuação bastante consistente a deixarem o público com “água na boca”. Mais material de alta qualidade é esperado de parte dos Yard Act, eles que têm um som curioso alicerçado no ritmo pausado das letras cantadas por James mixado com ondas post-punk.

Tal como nos dias anteriores houve de fazer a escolha do horário para jantar, questão sempre condicionada devido à predileção programática selecionada como “concertos a não perder”. Durante esta pausa e de passagem pelo Palco Plenitude parei uns minutos para apreciar o ambiente e a performance da jovem de Joyce Cissé de apenas 17 anos. Realmente bonito ver a vibração do ambiente num dia em que os pais fizeram-se acompanhar pelos seus filhos, dos mais pequenos até aos adolescentes. Algo que aconteceu primeira vez de forma massiva ao último dia.

Joyce Cissé a apresentar-se como Flowerovlove // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
Regressando a Joyce Cissé deu para ouvir 2 ou 3 das suas canções, sempre com “love” nos títulos das canções, ela que executa repertório pop alicerçado na sua voz, no som do piano e bateria. A novata artista até chamou duas jovens a palco duas jovens da audiência para um exercício tendo uma delas acabado a cantar a solo uma canção de Amy Winehouse de forma bem incrível. Certamente essa jovem não esquecerá tão cedo tal momento…

No ano passado na sala do M.Ou.Co, na primeira vez que lá estive, assisti a um concerto Nation Of Language a vibe anos 80s “Sonoramente orientada por sintetizadores, sua música inclui elementos de krautrock, new wave e pós-punk e a mistura com uma forte dose de nostalgia moderna” do seu repertório deixou-me empolgado. Por isso tornou-se fácil a repetição deles no Primavera sensivelmente um ano depois.

Ian Richard Devaney o intrépido vocalista dos Nation Of Language // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept

Esta segunda performance no Porto revelou-se novamente festiva e perante a encosta do Palco Super Bock repleta. Depois da entrada ao som de Perfect Day de Lou Reed começaram as festividades com “Automobile”. Apesar das dificuldades em arrancar com “This Fractured Mind” devido aos sintetizadores, o trio composto por Ian Richard Devaney, Aidan Noell e Alex MacKay ultrapassou a adversidade e não deixou que tal os afetasse. Ian Richard Devaney, o ultra irrequieto vocalista, não escondeu a alegria pela beleza do momento, da imensa multidão num belíssimo final de tarde.

Aidan Noell nos sintetizadores // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
Um concerto na qual a média de idades dos espetadores foi puxada para cima, terá sido algo por volta dos 50 anos. O Primavera Sound Porto é, comprovadamente, um festival para todas as idades no qual existe uma convivência ótima entre todos. Apesar de ter havido alguma gente a “fazer sala”, certo é que houve igualmente bastante gente a apreciar e a dançar ao som de temas como “September Again”, “Rush & Fever” ou Stumbling Still”.

Com Julia Holter no Palco Plenitude, ela que regressou ao evento depois da presença em 2016 e Karate no Palco Vodafone resolvi deambular entre os dois locais mais para sentir o ambiente do que para ficar totalmente focado nas performances. Duas propostas totalmente distintas à mesma hora, o público dividiu-se entre os dois espaços.

Julia Holter nos teclados e voz // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
Enquanto Julia Holter tem uma discografia de sonoridade mais calma, contemplativa e relaxante já o veterano trio Karate tem um som indie rock com estética mais profunda e pausada. Um ritmo perfeitamente moderado e mesmo até algo soturno. O vocalista Geoff Farina dos Karate, numa das suas comunicações, fez alusão aquilo que dizem e que a seu ver não é verdade “que as bandas de rock estão mortas”. O regresso à atividade deles quer ajudar que tal seja uma ideia errada, é o que posso depreender.

Na sequência da programação, pelas 22h, lá aconteceu um dos momentos marcantes desta derradeira jornada. Yves Tumor e a sua banda proporcionaram um momento incrível. Eles que na data final da sua tournée não regatearam os seus esforços e deram tudo aquilo que tinham, mesmo literalmente.

Sean Lee Bowie conhecido artísticamente como Yves Tumor // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
Lançado já no decorrer deste ano de 2023 ‘Praise a Lord Who Chews but Which Does Not Consume; (Or Simply, Hot Between Worlds)’ é o mais recente álbum do artista e foi alvo de bastante atenção. A primeira interpretada foi logo uma das novas: “God Is a Circle”, outras seguiram-se como por exemplo “Ecohlalia”, “Parody”, Operator” ou “Ebony Eye”.

Sean Lee Bowie teve um ritmo frenético e nunca esteve parado por um segundo sequer. Até deambulou várias vezes a cantar, com a voz altamente reverberada, como é seu apanágio, e de costas para o público. Ele e Chris Greatti, o seu guitarrista, deram espetáculo no fosso com grande cumplicidade. Em total comunhão com os seus fãs durante a interpretação de “Secrecy Is Incredibly Important to the Both of Them”.

No serviço à guitarra e fãs: Chris Greatti // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
Para gáudio dos milhares de presentes em “Kerosene”, a última tocada, Chris Greatti chegou mesmo a tocar no meio do público. Após um abrupto final de concerto, toda a gente queria mais, os elementos da banda saíram e regressaram alguns momentos depois. Atiraram para a frontline garrafas de água, palhetas e até as próprias setlists. Tratou-se, sem dúvida, um momento êxtase sentido particularmente pelos seus fãs mais hardcore esta performance no Primavera do Porto.

À mesma hora tocaram os míticos New Order no Palco Vodafone e tiveram uma impressionante moldura humana em frente de si. Mesmo antes do início da atuação segui rumo ao Palco Plenitude. Lá tocaram os Off!, banda orgulhosamente natural da Califórnia nos Estados Unidos da América. Com alguma naturalidade estava mesmo pouco público.

Keith Morris o vocalista dos OFF! // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
Assim que o vocalista Keith Morris entrou, afirmou estar satisfeito por estarem mais de 12 pessoas… O público que esteve lá demonstrou o espírito certo para o punk hardcore bem cru interpretado pelos Off! Com muito espaço à disposição os fãs aproveitaram para um mosh mais intenso.

Enquanto me preparava para rumar ao Palco Porto eis que o concerto dos New Order parou abruptamente. Problemas técnicos fizeram parar o concerto por duas vezes e que foi levado até ao final por muita perseverança dos elementos da banda.

Os ponteiros dos relógios marcavam 1:05h quando o momento áureo da jornada finalmente começou a desenrolar-se. Um regresso de Damon Albarn, Graham Coxon, Alex James e Dave Rowntree ao Parque da Cidade depois da atuação em 2013. Para quem podia ter dúvidas, o nome dos Blur estava pendurado num letreiro girante e foi mudando de cor no decurso da performance. Já durante o dia ia vendo pessoas com t-shirts alusivas a esta banda do britpop. Era a deixa inegável sobre o foco principal da jornada.

Alex James, o baixista dos Blur // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
Os grandes êxitos foram tocados, com toda a naturalidade, logo entre as primeiras interpretadas tivemos “There’s No Other Way” e “Beattlebum”. O aquecimento ficou feito após as primeiras músicas na sequência o concerto ganhou maior ritmo. O primeiro momento de lives para as redes sociais sucedeu-se em “Coffee & TV”. Já em “End of a Century” Damon deslocou-se junto à grade para cantar junto ao público.

A performance seguia com um ritmo bem pensado e foi bem coadjuvada pelos ecrãs que iam transmitindo imagens de todos os elementos da banda. Os ecrãs iam funcionando em conjugação uns com os outros e com efeitos especiais diversos. Com tal foi alcançado um impacto maximizado.

Damon Albarn, o enorme showman dos Blur com o público // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept

Tivemos belos momentos de comunhão em “Country House” e “Parklife” e durante “Girls & Boys” a energia de Damon era insaciável. “Yeah, yeah, Oh, yeah” durante “Song 2” e a satisfação máxima do público começava a atingir o seu pico. No final de “Tender” o público continuou a cantarolar e Damon de forma brincalhona exclamou “Continuem… Podem cantar um Fado”.

O mais recente single “The Narcissist”, que anuncia a chegada de um novo álbum, foi a penúltima interpretada. Antes do fecho em beleza total com “The Universal”, Damon confessou que sentiu-se “afortunado por cá estar e por partilhar a nossa música parva com vocês”. Tal como versa a letra desta épica The Universal: “Well, it really, really, really could happen, Yes, it really, really, really could happen”, efetivamente aconteceu: foi um momento bonito e histórico na vida dos fãs de Blur.

Damon Albarn, o enorme showman dos Blur // Foto de Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
Tal como no dia anterior, este último sábado foi também bastante pretendido e vivido como deve ser vivenciado num perfeito dia de Primavera Sound Porto quando tudo se conjuga bem. Apesar do percalço dos New Order, são coisas que acontecem, a jornada saiu apenas um pouco beliscada.

Agradecimento:

Agradecemos a gentiliza e partilha de fotos utilizadas neste artigo cedidas pelo Nuno Coelho da Noizze. Poderão seguir este projeto em: @noizzept

Texto:
Edgar Silva

Fotografia:
– Nuno Coelho, Noizze. Mais fotos em @noizzept
– Hugo Lima @ Primavera Sound Porto [fotos oficiais] www.fb.me/hugolimaphotography

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

Ainda sem comentários

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.