Chico César canta Aos Vivos e aos resistentes

Chico César na sala principal da Casa da Música | mais fotos clicar aqui

Francisco César Gonçalves é conhecido artisticamente somente por Chico César e trata-se de um músico com origem no interior do Paraíba no Brasil. Ele é uma das referências incontornáveis da Música Popular Brasileira (MPB), muito por culpa do seu disco de debute. ‘Aos Vivos’ é o seu título, editado em 1995, um registo discográfico a solo e ao vivo.

Neste mês de março atuou na Casa da Música no Porto no passado dia 16 de março. Esta foi uma atuação em que o headLiner marcou presença, esse concerto foi um dos sete da sua digressão portuguesa. Neste espetáculo a solo onde a voz e o violão recuperaram a alma do disco na sua essência mais natural.

Trinta anos depois comemoram-se as canções de ‘Aos Vivos’ nas suas formas mais tocantes e sensíveis numa partilha pujante e indelével.

Chico César demonstrou-se muito interventivo | mais fotos clicar aqui

O paraíbano Chico César é um gigante da Música Popular Brasileira (MPB) e um gigante agigantado nas margens das grandes passarelas da indústria fonográfica. Sempre transitando pelos meandros de um terreno pantanoso, pelas interconexões entre o território do entretenimento e a mais genuína cultura popular, que é o seu lugar e de onde emana toda a sua potência artística.

A primeira vez que o vi, na versão portuense do MIMO, em 2002, ali na Cordoaria, não deu para fazer a assimilação adequada da sua presença. Culpa minha, talvez, por estar dispersivo no que parecia ser apenas mais uma noitada no velho burgo. Isto e o ambiente do festival, mais parecendo uma qualquer efeméride da cidade com assinatura camarária – bem diferente do que ele é em Amarante –, não ajudou. Desta feita, porém, deparei-me com uma apresentação grandiosa, histórica, inesquecível.

Chico César sempre em diálogo com o público | mais fotos clicar aqui

Como era esperado, a Casa da Música ficou cheia para receber um artista em estado de poesia que, sozinho no palco e munido apenas de um cravo vermelho e da sua guitarra, ofereceu o seu primeiro e brilhante álbum, ‘Aos Vivos’, a uma plateia ávida pelos laivos de depuração de cada canção do histórico registo de 1995. Sua própria aparição no palco, numa explosão encarnada que revelava a silhueta algo futurista de um eclético cantautor popular, anunciou que a noite seria de cores vibrantes, como teria mesmo de ser. E além de cores, o destaque também ficou nas formas, tendo ele sido tão bem tratado pela artista das cabeleiras Sabri Menis, da nossa querida Casa Odara.

Uma a uma, as canções de ‘Aos Vivos’ foram emocionando a plateia, que ora fazia o seu coro suave, ora apenas reverenciava toda a sensibilidade poética e estética daquilo que, mais do que um espetáculo musical, era um momento até de certa liturgia popular, sagrado pelo comprometimento do artista e do público com a sua ancestralidade. Esses momentos de quase oração foram por veze interrompidos pelas deliciosas histórias que Chico oferecia perante rostos atentos e maravilhados, desejosos não de que a próxima canção começasse logo, mas de que a história se prolongasse ao sabor do seu contador e rumasse para onde ele bem quisesse. Uma delas terá durado os seus bons dez minutos, e ninguém se teria incomodado se chegasse à meia hora.

Uma lenda da MPB | mais fotos clicar aqui

Os chamados “êxitos”, inevitáveis num concerto que celebra as três décadas de uma genialidade, sucederam-se com a naturalidade de uma cerimónia irmanada. Então estiveram lá “Mama África”, “À Primeira Vista” e “Alma Não Tem Cor”, esta última autoria de André Abujamra, figuraça das recomendadíssimas bandas Os Mulheres Negras e Karnak. Ainda deu para falar do inesquecível Itamar Assumpção, a minha grande referência da Vanguarda Paulista.

Também houve a devida menção a Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira ao explicar tão gentilmente as necessárias alterações à canção “Paraíba”, adaptada aos ares mais respiráveis trazidos pelas lutas emancipatórias feministas. Nesse gesto, e nada panfletário, Chico mostrou que, ao se adaptar à evolução da sociedade, um artista não pratica autocensura, pratica a coragem de se atualizar, a sabedoria de se manter antenado e a sensibilidade de que tanto necessitamos em tempos obscurecidos pela barbárie e brutalidade que nos batem à porta.

Um cenário de diversas cores que foi mudando durante a noite | mais fotos clicar aqui

Chico também cantou “Estado de Poesia”, do álbum homónimo de 2015, porque o seu compromisso com a beleza é uma paixão declarada e explícita, mas encerrou uma noite tão serena com a mais do que necessária “Pedrada”, canção de ‘O Amor É Um Ato Revolucionário’, lançado em 2019 em plena distopia bolsonarista, em que não poupa palavras para afirmar a resistência, em ambos os lados do Atlântico, às seitas neofascistas que literalmente ameaçam as nossas vidas. O público, tão relaxado e sereno durante a noite, gritou a plenos pulmões “fogo nos fascistas!”, parte do refrão de uma canção tão espiritualmente Punk que já ganhou versão da banda de Hardcore Mukeka Di Rato e agita rodas desenfreadas de punkalhadas.

Num concerto em que a maior homenagem foi ao cravo vermelho – (ainda) tão sagrado na sociedade portuguesa –, erguido em sua mão a todo o instante, Chico conseguiu conciliar a conexão ancestral, a leveza de uma voz em estado de poesia e o apelo à luta social, sem nunca ser superficial ou apelativo, tão somente com a naturalidade da sua própria essência. Foi uma oferenda aos vivos.

Vivamos, pois!

Reportagem fotográfica Completa:  clicar aqui

Lotação esgotada para Chico César no Porto | mais fotos clicar aqui

Texto:
– Juliano Mattos @ julianji.matti (Instagram)

Fotografia:
– Juliano Mattos @ julianji.matti (Instagram)

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