A Socorro Faz 2 anos FEST!: teve um exótico Serrabulho, uma pitada de Oeste Africano e um surf de clássicos rock | Reportagem Completa

A pandemia teve, nos seus muitos efeitos secundários, a percepção temporal completamente deturpada: Simultaneamente um acontecimento recente e longínquo, também certas outras coisas parecem existir desde sempre e aparecerem ainda ontem. Uma delas que me provoca sentimento algo semelhante é a Socorro, que inesperadamente para mim celebrou apenas dois anos de existência, um testamento ao seu impacto importante na agenda musical portuense.
E para celebrar tão marcante data dum espaço tão sonicamente eclético, nada melhor que três convidados especiais de galáxias bem diferentes.
Directamente dum planeta arenoso e quente à boleia do psychobilly e surf rock, de óculos e farpelas escuras e a lição de história na ponta dos dedos, os Los Cudas abriram o certame num registo fortemente marcado por versões de outras músicas do género. Ouviram-se clássicos em catadupa, como “Route 66” imortalizado por nomes como Nat King Cole ou Chuck Berry, “Goo Goo Muck” dos indomáveis The Cramps ou até reinterpretações um pouco mais arriscadas, como uma versão surf rock da “Bela Lugosi’s Dead” dos Bauhaus, dedicada especialmente a quem foi ver o novo Nosferatu ao cinema. Num alinhamento tão bem conhecido dos amantes do rock n’ roll, pouco ou nada há a apontar aos músicos que notoriamente já têm alguns quilómetros de estrada fruto de outros projectos como Phantom Powers ou QuanticTones.

Los Cudas no Socorro Faz 2 anos FEST!
Claiana foi o senhor que se seguiu, pseudónimo de Gui Lee, artista cabo-verdiano residente no Porto há bastantes anos e cara simpática e bem conhecida de quem frequenta festas e concertos na invicta. Num frenesim contínuo de ritmos zouk alicerçado na herança cultural da morna e do funaná, sem descurar uma perspectiva mais contemporânea, Claiana foi andando de um lado ao outro do palco cantando os seus temas de forma simpática e efusiva, muito bem acompanhado pelo componente baixo do Luis Dixe Masquete e com Francisca Sousa na voz secundária e ao leme do equipamento digital, há algo de bastante hipnótico no gingar dos temas, que de cambalhota em cambalhota vão pintando um retrato possível do que será visitar Cabo Verde pelos olhos de Gui. A vibe de quase banda de baile, muito sugerida pela textura simples e humilde de que são feitas as batidas e restantes instrumentos digitais dão um definitivo charme terra-a-terra, desprovido de cerimónias ou prepotência: só importa o sorriso e o abanar de anca.

Claiana no Socorro Faz 2 anos FEST!
Mas era notório que o principal chamariz deste aniversário eram mesmo os Serrabulho, banda vila-realense de culto formada já nos idos 2010. Com o seu party goregrind onde há espaço para de tudo um pouco, a resposta do público foi imediata e, passando um pouco das 19h a banda subiu finalmente a palco, após uma sessão de stand up algo penosa por parte de um dos animadores de serviço: sim, como se não bastasse o natural carisma de Carlos Guerra a liderar as hostes, esta cercou-se de três dançarinas (vá, duas dançarinas e um dançarino em drag). E foi festão no primeiro até ao último acorde, com alfinetadas a instituições do rock mais populares como Guns ‘n Roses numa espécie de cover ou com a constante apresentação da banda como sendo os Red Hot Chilli Peppers. Confiando nas palavras da banda, praticamente todas as músicas eram românticas, pejadas de distorção, dupla pedaleira e pig squeals, mas a celebração pouco ortodoxa dos Serrabulho é mesmo assim: cheia de humor pueril e fecal (não é insulto, “Quero Cagar e Não posso” e “Caguei na Betoneira” são bangers) em contraste com o absoluto peso das canções e, sim, a precisão e qualidade da execução.

Serrabulho no Socorro Faz 2 anos FEST!
Só porque a banda monta um circo e viram palhaços de serviço (na sua melhor definição possível), a componente musical nunca é descurada, sendo levada bastante a sério. Paulo Ventura é um guitarrista e músico com imensa técnica e estrada, Guilhermino vira um monstro atrás do baixo (apesar da suas vestes hippie-coloridas) e, claro, o motor do tractor agrícola é alimentado por Ivan na bateria, certinho como um relógio suíço. Houve ainda tempo para cantar os parabéns à Socorro levando João Pimenta, um dos chefes da casa, ao tecto numa espécie de crowdsurf atabalhoado. Pelo meio, houve muito moche, muita brincadeira, um comboinho liderado pelo vocalista pela rua de Santa Catarina fora e uma wall of death mas…feita de costas (cú com cú pareceu a definição técnica oferecida pelos músicos).
Independentemente do gosto ou background musical de cada um de nós, é mesmo difícil não sorrir e ficar contagiado pela pândega que é imposta pelos Serrabulho. Ficamos à espera de mais uma tigela desta iguaria bem nacional, e já me esquecia: Parabéns Socorro!
Texto: Tiago Megas
Fotografia: © Direitos Reservados
