
16 de maio foi um dia de grande movimento na cidade do Porto. Desde as 9h da manhã a cidade se preparava para iniciar as festividades e receber a equipa do FC Porto, recém‑coroada campeã nacional. Mas, para muitos, a Super Bock Arena aguardava e afinava os últimos detalhes para a verdadeira celebração — receber uma das bandas mais explosivas do momento e toda a sua legião de fãs. Se eu tivesse uma câmara a acompanhar-me no pré, durante e pós‑concerto, as palavras que marcariam esses registos seriam: energia, movimento e celebração.
Às 20h17, as luzes apagaram-se. Uma searchlight foi jogada na audiência varrendo o espaço de um lado para o outro ao som de uma sirene. Se os Arde Bogotá estavam à procura de algo, ali encontraram um público que se mostrava pronto para o que a banda tinha a oferecer.
A banda abriu o setlist com a canção “Los Perros”, que também é a faixa que abre o último álbum, intitulado ‘Cowboys de la A3′, lançado em 2023. Os riffs de contrabaixo guiam a canção e sustentam a mensagem de que não irão parar, de que vão romper com as cicatrizes antigas e insistir na própria liberdade. Nota-se a influência de bandas como Arctic Monkeys e Queens of the Stone Age. O vocalista, Antonio García, não se limita a cantar; ele interpreta. A sua presença em palco é imediatamente evidente e, logo na primeira canção, a sensação é a de que domina aquilo a que se propõe, com força e naturalidade. Senti que a sua performance contém traços à la Freddie Mercury, salpicados com Ney Matogrosso. Os seus movimentos, a forma como explora o espaço, a interação com o resto da banda, tudo isso remeteu-me para estes dois grandes artistas, sem nunca perder originalidade. E, como era de esperar, quanto mais ele se entrega ao longo da canção, mais a audiência responde, e sente-se a ligação entre Antonio, apoiado pela força da banda, e o público.

A setlist prosseguiu com “Instrucciones”, o lançamento mais recente da banda. Seguida por “Millenial”, que foi uma boa escolhe para suceder “Instrucciones”. Se uma aborda a tentativa de criar uma blindagem contra as dores da existência, ainda que à custa de uma vida natural e espontânea, a outra surge quase como a razão que leva à criação desse dispositivo. “Millenial” é o desabafo, por vezes desesperado, de uma geração que se vê constantemente pressionada a prosperar e a viver para trabalhar.
Ainda no início do concerto, que contou, no total, com 21 canções, já nesta altura o público estava completamente entregue à banda, e com razão. As músicas apresentadas até então são profundamente relacionáveis: traduzem a realidade e os sentimentos que dela emergem em composições que, combinadas com a performance e com a entrega da audiência, resultam numa verdadeira catarse coletiva. E foi exatamente esse o sentimento que se viveu.
Canções como “A lo oscuro”, “Qué vida tan dura”, “Flores de venganza” e “Cowboys de la A3”, faixa que dá nome ao último álbum, deram continuidade ao repertório. Entre baladas mais lentas, com o vocalista a assumir também a guitarra, e temas mais enérgicos que mantinham o pulso do concerto em alta, a ligação entre a banda e o público tornava‑se cada vez mais intensa.

Já perto do final da performance, chegou a consagração absoluta do concerto. “Virtud y Castigo” foi antecedida pela apresentação da banda feita pelo próprio Antonio García: Dani na guitarra, Pepe no baixo, Jota na bateria e o guitarrista de apoio que dividiu o palco ao longo da noite. “Virtud y Castigo” tem um magnetismo próprio, a seção repetida da música, quase como um mantra, cumpriu o seu papel: só se ouvia o “Wo-oh-oh” ecoar pela arena. Se alguém me dissesse que atingiu o Nirvana naquele instante, eu acreditaria sem hesitar!
Outra experiência absolutamente marcante, aconteceu durante a performance de “Cariño”. Canção dançante, animada e com traços de The Killers. Com o refrão que diz “Ven a bailar cariño”, Antonio foi mesmo! Desceu do palco, pulou as grades e caminhou entre o público. Antonio jogou-se de corpo de alma, avançou para o centro da multidão com seu microfone e pudemos ouvir diferentes vozes a cantar e convidar nossos cariños para dançar. Enquanto ele se entregava para o público, no palco víamos Pepe e os guitarristas ao chão com seus instrumentos, reforçando a força da performance.

O concerto terminou com “Exoplaneta”. A forma como apresentaram esta canção distinguiu-se do que tinha acontecido até então: os cinco alinhados à frente, voltados para o público, iluminados apenas por luzes brancas; um violão e alguns elementos de percussão. A cantoria ficou entregue à audiência, que assumiu a música como forma de prolongar a performance e saborear os últimos instantes. Após o final, a banda continuou a interagir com o público: distribuíram palhetas e baquetas e agradeceram repetidamente.
Foi um concerto explosivo, enérgico e profundamente catártico. Mesmo com um palco minimalista, composto apenas por algumas estruturas de luz, percebeu‑se que cada elemento foi usado de forma estratégica para acompanhar e sublinhar as canções. Tons vermelhos e brancos surgiam para evocar fúria, agitação e intensidade — quase numa referência a The Wall e à sua atmosfera de guerra e urgência, enquanto luzes brancas e azuladas marcavam os momentos mais suaves, quando as letras pediam calma e introspeção.

Os Arde Bogotá existem desde 2017, mas foi a partir de meados de 2021 que começaram a ganhar verdadeira notoriedade. O segundo álbum da banda, ‘Cowboys de la A3’ (2023), marcou a transição de um projeto promissor para o fenómeno que são hoje. Este álbum foi nomeado para o Grammy Latino e alcançou dupla platina em Espanha. Agora, já a preparar o terceiro disco, contam com Joe Chiccarelli na produção, nome associado a bandas como The Strokes, The White Stripes e Muse. Atualmente, o grupo vive um período de forte crescimento e de reconhecimento significativo. Só no Porto, o concerto inicialmente marcado para o Hard Club, cuja maior sala comporta cerca de 800 pessoas, teve de ser transferido para um espaço maior, culminando numa Super Bock Arena com aproximadamente 8.000 pessoas.
Que a banda está a arder, isso realmente vemos. E com a boa relação que parecem ter e querer continuar a ter com Portugal, espera-se que voltem mais vezes a incendiar outra vez o território.
Reportagem fotográfica Completa: clicar aqui

Texto:
– Marina Florence Siqueira @ mahflorence (Instagram)
Fotografia:
– Gonçalo Tavares @ goncalo.raw (Instagram)
