Post Saudade e Traz os Monstros: Esmoriz assistiu ao futuro em estado bruto

“Johnny Saudade”, o vocalista dos Post Saudade | mais fotos clicar aqui

Duas bandas. Duas histórias. Assim terminou a minha sexta-feira em Esmoriz. Foi no Uncle Joe’s que Post Saudade e Traz os Monstros se reencontraram no passado dia 15 de maio. Sim, um reencontro. Porque há pouco mais de um mês, estes dois projetos cruzaram-se pela primeira vez na final da 30ª edição do Festival de Música Moderna de Corroios, dividindo o palco com os igualmente talentosos d’Amélia. Um pódio de três bandas que merecem ouro (mesmo que isto não seja uma competição).

Ali no Uncle Joe’s, entre copos pousados ao balcão, cabos espalhados pelo chão e aquela ansiedade boa de quem sabe que algo especial está prestes a acontecer, era impossível não pensar precisamente nesses encontros que a música provoca. Porque, apesar das diferenças sonoras, havia qualquer coisa a unir aquelas bandas para lá do cartaz.

O baixista dos Post Saudade | mais fotos clicar aqui

À primeira escuta, Post Saudade e Traz os Monstros parecem habitar universos diferentes. E, de facto, habitam. Um mergulha num pós-punk emocional, denso e cinematográfico; o outro cospe ironia, ansiedade e acidez com uma energia que parece prestes a explodir. Mas como eu disse, há também o que os aproxima: longos caminhos pessoais, insistência e essa espécie de sobrevivência emocional que só quem anda na estrada entende.

E é justamente sobre encontros que este texto fala. Encontros consigo próprios, com o público, com o momento. E principalmente: com as pessoas certas para que projetos antes dispersos finalmente ganhassem corpo, identidade e direção. Porque falar destas duas bandas sem falar das pessoas que as completaram seria contar apenas metade da história.

O guitarrista dos Post Saudade | mais fotos clicar aqui

A noite começou com os Post Saudade e seus quatro gentis integrantes, cada um vindo de um lugar do mundo e que por uma grata surpresa se encontrou há quase um ano no Porto.

Confesso que já entrei no Uncle Joe’s a cantarolar. Foi meu terceiro concerto deles, então naturalmente algumas músicas já me habitam (como “Radio Love” que está em várias das minhas playlists). Enquanto me dividia entre fotografar e absorver o concerto, percebia novamente aquilo que me conquistou já na primeira escuta, ainda nas eliminatórias do festival em Corroios: os Post Saudade não vivem apenas do som. Vivem também da presença, da lembrança, da empatia.

Muito disso passa pela figura de “Johnny Saudade”, o codinome do vocalista e guitarrista. Antes do concerto, um mar aberto de simpatia e tranquilidade. Em palco, transforma-se completamente. A maquiagem preta e vermelha que salta à máscara de tecido que me lembram ataduras, cria uma espécie de portal entre a voz e aquilo que quer transmitir. Não é um acessório cénico gratuito. Funciona quase como uma extensão emocional das músicas. Como se ele escondesse o rosto para deixar todo o resto mais exposto.

Post Saudade em acção | mais fotos clicar aqui

E resulta numa catarse natural. A voz ecoa carregada de tensão e uma melancolia que está longe de ser triste. É gostosa! Enquanto isso, os demais três “Saudades” constroem o molho: ambientes que oscilam entre o peso e a suspensão (que por vezes é deliciosamente dançante). Há ali qualquer coisa que não pede pressa. O público entra devagar naquele universo (ou imediatamente, como foi o meu caso). E, quando se percebe, você já está completamente imerso.

O mais curioso é pensar que os dois discos ‘PLAY (Music For Modern Life)’ e ‘Watchdogs’ já lançados por Johnny existiam antes da formação completa da banda. Produzidos pelo próprio, aqueles temas já tinham sido semeados, mas só ganharam outra dimensão quando o projeto finalmente encontrou os elementos certos e se consolidou enquanto banda, algures em meados de 2025. E talvez seja precisamente isso que hoje torna os Post Saudade tão interessantes: percebe-se que aquelas músicas deixaram de pertencer apenas a uma pessoa. Agora respiram em coletivo.

E como se isso não bastasse, a banda ainda apresentou três temas novos: “Beautiful Monday”, “The Swallower” e “Two Polaroids”, deixando no ar a promessa de um próximo disco que, pelo que se ouviu naquela noite, levará ainda mais longe tudo aquilo que já construíram até aqui. O novo álbum está no forno, quase pronto. Mas, para os mais afoitos, há versões ao vivo destes temas nas principais plataformas. Recomendo que ouçam!

“Johnny Saudade”, o vocalista dos Post Saudade | mais fotos clicar aqui

Depois vieram os Traz os Monstros, que desde que soube da existência deles, no ano passado, me despertaram uma curiosidade imediata. Primeiro pelo nome, claro. Cresci no Brasil a ouvir falar de Trás-os-Montes por causa da família da minha avó. Obviamente que a semelhança agarrou-me logo, antes mesmo de me conquistar pela música. Surpreendeu-me, inclusive, perceber que os Monstros vêm afinal de Coimbra — e não diretamente das montanhas transmontanas, como a minha imaginação quase quis acreditar.

E quem traz os monstros sabe bem o que faz. Quem os vê ao vivo percebe isso quase de imediato, já que todos acabamos por levar os nossos próprios monstros para a plateia.

A banda define-se como “filha da quarentena”, e o fio condutor começou lá atrás pelas mãos do vocalista e guitarrista Xavier de Sousa, numa versão duo junto de Fábio Matos, que entretanto não está mais no projeto. Esse momento nos rendeu ‘Demos Para o Papá e a Mamã’, o primeiro EP em 2021.

O vocalista e guitarrista Xavier de Sousa dos Traz os Montros | mais fotos clicar aqui

Desde então, os Monstros evoluíram baseados, sobretudo, na gana de Xavier por fazer acontecer. Agora, acompanhado por Rui Bastos (nas teclas e voz), Rafael Borges (no baixo e voz) e Artur Correia (bateria e voz), numa formação que finalmente parece ter encontrado equilíbrio entre caos e intenção. Mais pesada, mais rápida, “brincando mais com a fonética”, como bem diz Rafael.

O baterista, também conhecido como “Catipanga”, foi o último a entrar (até agora). Antes disso, os concertos aconteciam com recurso a backing tracks, “uma cena mais calma, mais blues”, como eles mesmos lembram. Depois de algumas tentativas de encontrar “um baterista para chamar de seu”, o quarto Monstro chegou, há cerca de um ano e meio. E desde a sua entrada percebe-se imediatamente como isso mudou o impacto da banda. Há agora uma pulsação muito mais orgânica. Mais perigosa. Mais viva.

Dentre as novidades soube que muito em breve estes Monstros serão cinco. Um segundo guitarrista ocupará o lugar que falta “e finalmente o nome da banda ganhará um fundamento porque ele é de Trás-os-Montes”, brincam todos os integrantes.

Rui Bastos, o teclista dos Traz os Monstros | mais fotos clicar aqui

Depois de vê-los em dois concertos, a sensação é de que tudo parece prestes a descarrilar, mas nunca descarrila. E que apesar do “caos”, tudo é muito coerente.

Com guitarras nervosas, letras afiadas e uma presença em palco assustadoramente intensa, percebe-se rapidamente que a banda é muito mais do que “Pilates”. Embora seja impossível negar o efeito imediato desta música, sendo cantarolada até mesmo pelos ouvidos desavisados de quem ainda não percebeu que aquilo é uma baita crítica. Já “Porcos”, tema novo, surge como uma espécie de cobertura ácida sobre os tempos estranhos em que vivemos. Incómoda, sarcástica e necessária.

E há mais caminho a chegar. O próximo álbum já tem nome: ‘UNTO’. E se aquilo que se ouviu no Uncle Joe’s servir de pista, os Monstros parecem preparados para expandir ainda mais o caos controlado que construíram até aqui.

Artur Correia, o baterista dos Traz os Monstros | mais fotos clicar aqui

No meio de tudo isto, há uma sensação que fica constantemente a pairar: tanto os Post Saudade como os Traz os Monstros são bandas que vemos crescer diante dos nossos olhos. E talvez seja precisamente isso que torna acompanhá-los tão especial.

Há concertos onde assistimos apenas ao presente. E depois há noites como esta, em que conseguimos vislumbrar futuro. O Uncle Joe’s foi palco disso mesmo. De encontros. De construção. De bandas que encontraram finalmente as pessoas certas para fazer florescer ideias que já existiam, mas que ainda procuravam forma.

E, felizmente para nós, parecem ter muito futuro. Há muito por vir e se quiserem saber a fundo sobre esses dois talentos emergentes, fiquem ligados: em breve, a headLiner publicará entrevistas completas com ambas as bandas. Para já, ouçam e mergulhem nestes dois projetos, pois valem a pena!

Reportagem fotográfica Completa:  clicar aqui

Rafael Borges, o baixista dos Traz os Monstros | mais fotos clicar aqui

Texto:
– Ane Carolina Pacola @ ane.its.me (Instagram)

Fotografia:
– Ane Carolina Pacola @ ane.its.me (Instagram)

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