
A cantora, compositora e autora Mafalda Costa apresentou-se ao vivo no passado sábado, dia 24 de outubro, no Centro Cultural Vila Flor (CCVF) a cerca de 100 metros da sua residência. A artista vimaranense de 26 anos fez um reset na sua carreira musical e, após alguns anos de hiato, regressou como MAFALDA, nome artístico é mesmo em letras maiúsculas. Nos últimos anos da sua adolescência mostrava-se como Mathilda, alter-ego com o qual editou ‘Changing Colours’, o único álbum dessa fase.
Em 2026 surge de forma airosa e reinventa-se, cantando em português. O é um trabalho colaborativo resultado do desafio lançado pelo músico André Júlio Turquesa. Este um registo discográfico intitula-se ‘Gosto Muito de Estar Aqui’. Um álbum editado pela Skud & Smarty Records cuja edição contou com o apoio da DGArtes e do programa Impacta Guimarães.

Como jeito de nota adicional: já me cruzei com André Júlio Turquesa, nomeadamente em Fafe, quando fiz reportagem de um concerto seu em que apresentou temas do seu trabalho a solo. Esta reportagem pode ser vista e lida aqui.
Uma semana antes, no Convívio em Guimarães, MAFALDA realizou uma belíssima listening party em que os participantes puderam ouvir esta novidade em primeiríssima mão. O vinil encarnado é muito apelativo e foi giro ouvir os temas a partir dessa edição física. O disco é mesmo incrível e este evento serviu-me para aguçar o meu apetite pela índole cruzada de folk contemporânea com pop alternativa tendo pelo meio uns laivos eletrónicos. São novos caminhos sonoros trilhados nestas novas canções.

Na estreia com esta nova “roupagem” no CCVF, por lá já tinha atuado no Café Concerto como Mathilda em 2018, teve muitos amigos e familiares na assistência. Foi o primeiro após o lançamento do álbum na passada quinta-feira e realizou-se na nossa Cidade Berço. Lá esta, pois claro, este concerto foi muito especial por estas razões.
As pessoas foram entrando aos poucos para o hall do Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor. Poucos minutos antes da hora marcada, às 21:30h, as pancadas de Molière soaram na instalação sonora e as portas de acesso à sala abriram-se. Em noite outonal fresquinha revelou-se uma ótima opção. As cadeiras almofadadas do espaço, ao qual já não acedia há bastante tempo, são bastante confortáveis e a sala estava quentinha. Mais aconchegante ficaria após o começo do concerto.

Um efeito de luz, em forma de chave, via-se projetado na tela de palco. Uma simbólica imagem com um significado específico. Às 21:32h, a MAFALDA (voz e sintetizador) e os seus dois acompanhantes, surgiram em palco para o início desta apresentação. Nesta versão trio a artista teve a companhia de André Júlio Turquesa (voz, guitarra e teclado) e de Iúri Oliveira (percussão/bateria eletrónica). Dois músicos talentosos que produziram e participaram neste primeiro novo capítulo da vimaranense.
Para abertura da noite foi interpretada a faixa “Não Há Nada”. O cenário era um misto de vermelho e sombras em que quase só víamos a silhueta dos músicos. Algo propositado pois a cor do álbum e de toda a artwork é precisamente o encarnado. O cenário foi igualmente pensado cuidadosamente. Houve uma chave suspensa atrás do trio, em destaque proeminente, e em frente a MAFALDA estavam uns sapatos vermelhos. A própria artista estava revestida totalmente com essa cor.
Tudo isso era simbólico, como já referi ali atrás. Uma caixinha de música, com a qual se cruzou por motivos familiares, fê-la refletir. Um dos motivos deveu-se à bailarina que tinha lá dentro. A cantora imaginou a história da bailarina e tornou-se e ela tornou-se inspiração para este ‘Gosto Muito de Estar Aqui’. Inclusive encarnou essa personagem em cima do palco.

“Para Ti”, um dos singles de avanço, foi o segundo tema interpretado. O alinhamento do concerto seguiu a ordem das canções como elas estão no disco. As nove faixas foram todas interpretadas e não houve espaço para mais. Era o foco total e completo.
Antes de “Odisseia” o in-ear de MAFALDA estava com problemas o que obrigou a atuação a estar longos minutos parada até à situação ficar resolvida. Foram longos minutos de paragem o que acentuou um pouco o nervosismo da cantora num concerto tão especial, o primeiro após o lançamento do álbum e perante muita gente, das suas relações pessoais, significativa para ela.

Para disfarçar o desconforto com a situação perguntou às pessoas “Qual é a vossa opinião sobre o filme Odisseia?”. O generoso público foi paciente e relativizou a situação. Só acontece a quem sobe a palco e as pessoas entendem isso. Com a ajuda dos técnicos a situação normalizou-se e a performance continuou.
Foi neste “Odisseia”, uma canção bem catita, em que a artista gravou um loop. Foi uma interpretação só com vozes e somente com umas pinceladas do teclado. Logo a seguir surgiu “Gosto Muito de Estar Aqui”, tem um refrão cativante e que fica na cabeça. Nesta o público participou com tímidos coros, algo que funcionou particularmente de forma airosa.

Para fecho ficou o tema “Cozinha Só Para Ti”, um encerramento em nota altíssima. MAFALDA foi muito bem coadjuvada por Turquesa e Oliveira, músicos tarimbados, fornecendo à jovem interprete todo o apoio, a performance foi bem sólida.
A nova vida musical de Mafalda Costa evidencia enorme potencial e o álbum tem muita qualidade, tem também agora tempo e espaço para respirar e crescer. Há mais datas da tournée da MAFALDA nas próximas semanas por isso o meu conselho é que a vejam ao vivo e, pois claro, oiçam atentamente o disco.
Texto:
– Edgar Silva
Fotografia:
– Leonordo Sol @ oleonardosol (Instagram)
