A Primitiva Razão de voltar a ser

O incrível regresso dos Primitive Reason | mais fotos clicar aqui

Em jeito de prenda natalícia, os Primitive Reason anunciaram em Dezembro uma autêntica viagem ao passado: reunindo a trupe circense que abalou a cena da música alternativa nacional em 1996 com o lançamento de ‘Alternative Prison’, a banda mais internacional de Cascais convocou todos os seus fãs da velha guarda à celebração de um dos álbuns alternativos mais importantes da década. Uma das duas datas teve teve lugar a norte, mais especificamente no Porto, na sala principal do Hard Club, no passado dia 12 de março.

Mas antes das acrobacias ska, afro e metal que os colocaram no mapa do ouvinte, fizeram-se acompanhar não por uma mas duas bandas de suporte. Acabados de regressar de uma tournée pelos Estados Unidos da América, e já com presença assegurada em palcos como o do gigante Mad Cool Festival em Madrid no próximo Verão, os Bad Tomato tiveram a honra ingrata de entreter um público bem mais velho e bem mais focado em rever a banda da noite.

Bad Tomato, a primeira banda a aquecer as hostes | mais fotos clicar aqui

Embora incansável nos seus apelos ao público para sacudir o esqueleto, a verdade é que o público do Hard Club estava relativamente imóvel durante os cerca de 30 minutos que a banda esteve energeticamente em palco. Apesar da onda de visibilidade e popularidade que tem bafejado o colectivo lisboeta, o cruzamento de tantas influências diferentes como post-punk, electro wave, rock alternativo e metal recolheram palmas e algum bate-pé, mas ficou um pouco por aí. De notar também alguns problemas técnicos (nomeadamente ao nível da voz), que dificultou um pouco a actuação do trio, aqui transformado em quarteto com a adição duma baixista.

Recepção algo mais calorosa tiveram os Hetta, que talvez nos ombros de já muitas visitas explosivas à invicta, foram mais eficazes e directos no seu manancial de canções, onde os universos mais ligados ao punk hardcore e screamo fluíram um pouco mais abertamente na sala. Também sinto que a postura em palco mais confiante e madura de Alexandre Domingos em comparação à presença de Manuel Casanova da banda anterior ajudou um pouco a criar mais ligação entre um público mais veterano, sobretudo nas suas já habituais visitas às grades de proteção do palco. Não obstante, dois ótimos pontos de partida para uma noite que já ia bastante rica a nível de ruído e distorção.

Alexandre Domingos, o vocalista dos sempre em ebulição | mais fotos clicar aqui

Já com a sala bem mais composta, mas mesmo assim com espaço para respirar, finalmente por volta das 22h17 os “velhinhos” Primitive Reason deram entrada: primeiro Guillermo de Llera com o seu baixo, seguido de Jorge Felizardo ocupando o seu lugar atrás da bateria, Abel Ventura com os seus riffs eletrizantes na guitarra e finalmente Mark Cain / Brian Jackson a tomarem os seus postos de guerra no saxofone e microfone respectivamente: apesar de todas as dezenas de trocas de músicos na banda ao longo dos anos, foi talvez a de Brian Jackson a que causou maior impacto no percurso sonoro da banda e, por isso mesmo, o nome mais ansiado pelos fãs. Como um dealer de blackjack num casino rural algures no deserto, o colectivo fundado em Cascais mas com raízes por todo o mundo decidiu baralhar o alinhamento do álbum e, como pontapé de saída, os dois primeiros temas do álbum trocaram de posição. Por isso mesmo, foi “Bobo Grey”, um tema denso e com um crescente de intensidade que contém um dos trechos mais heavy metal da banda, mas que num par de minutos faz showcase dos inúmeros vértices sonoros e flexibilidade artística contida no seu universo perverso.

Guillermo de Llera, um dos elementos dos Primitive Reason | mais fotos clicar aqui

Por outro lado, “The Mind, Nature and Nurture” põe um pé no travão nos ânimos e convida a um abanar de cabeça irresistível, muito pelo flow das vozes, enquanto “So You Say” traz à mesa um lado mais politicamente vincado da banda, numa insatisfação e revolta bem típica do zeitgeist musical dos anos 90, com gritos de ordem como “conformity to the lies, to the lies they call democracy / or any other politics keeping us chained to this society” a realçar a postura desalinhada de Guilhermo de Llera.

Continuando pelo fio condutor dos problemas sociopolíticos, passamos pela mensagem directa a todos que insistem em ter atitudes e ideias racistas com “The X in X”, onde o reggae-ska açucarado em tons sul-americanos, quase ambiental e bem ancorado no saxofone aconchegam os ouvidos, apesar do amargo existencial de ainda termos que lidar hoje com estes problemas, aqui descritos há 30 anos.  

 À boleia dum riff palpitante de guitarra e momentos smooth jazz oferecidos pela veterana banda, “Thoughts, Pen and Papper” surge a meio-lume, e “Obsession” leva às paragens mais grungy e alt-rock que tanto moldaram os anos noventa do outro lado do atlântico, numa canção onde a assinatura de fusão de estilos é um pouco menos evidente. Um dos primeiros regressos ao passado passou por “Hip” e “Kill the KKK”, sendo a última das suas primeiras composições pré ‘Alternative Prison’ e que está incluída ao vivo na sua primeira demo, que combina uma letra bem agressiva e violenta dirigida aos racistas (já dissemos que esta banda era bastante politizada?) contrastar de forma bem irónica com os momentos mais tranquilos do instrumental.

Brian Jackson, o vocalista dos Primitive Reason | mais fotos clicar aqui

Com um largo sorriso a rasgar a face, Brian Jackson dava a aparência de estar no sítio certo à hora certa: se é verdade que foi para muita gente um reencontro a uma juventude já lavada pelos anos, o mesmo também se pode dizer de Brian, que volta a um lugar que abandonou tão precocemente, e que raramente foi celebrado de forma tão reverente como neste concerto.

Mas voltando a ‘Alternative Prison’, Brian Jackson ressalvou que este tema nunca tinha sido tocado ao vivo no passado, cabendo portanto as honras de o inaugurar ao público portuense. E a verdade é que “Sancaro, The Death of The Guapameis” orbita naquilo que pauta mais o lado reggae e world music, mais longe das guitarras carregadas de distorção e peso no geral.

Aproveitando uma boleia mais “morna”, a banda viaja-nos até “Hey Mam”, hino de defesa dos “maus aspectos”, que curiosamente marca um dos momentos mais em sintonia entre a banda e o público, desde pedidos para bater palmas a um claro gingar sem moshar: diria mesmo que fora os singles e talvez o tema inaugural do concerto, foi dos temas mais bem recebidos.

Primitive Reason em palco | mais fotos clicar aqui

Seguiu-se uma versão da “Yellow Submarine” de uma banda local de Liverpool que não me recordo o nome agora, cuja presença marcou muitos dos seus míticos concertos iniciais, e a verdade é que soa um pouco a isso, mais a uma brincadeira pueril de uma banda adolescente e menos numa interpretação ou reinvenção de uma música tão liricamente e musicalmente longe deles.

Já a sentir a areia da ampulheta cada vez mais fugidia, eis que ressoa “Hipócrita”, o tema perfeito para cartão-de-visita para o ADN miscigenado das suas raízes e influências, levando à loucura os presentes, com muitos saltos, caras felizes e, pois claro, algum mosh, que se foi formando assim que qualquer música o “pedia”. E iluminou qualquer sombra de dúvida que pudesse existir quanto às competências da banda em pleno 2026: se é verdade que já não têm nem a energia e vitalidade de outros tempos, nem o entrosamento que só o tempo pode oferecer com muitos e muitos ensaios, têm uma aura mística e algo sebastiana, já que, pelo menos por um curto tempo, cumpriram um papel importante no fortalecimento e crescimento do underground nacional. 

Mark Cain em destaque no saxofone | mais fotos clicar aqui

 “Sold Out” faz de novo rugir o amplificador de guitarra para algo mais trash metal, de novo trazendo temas de inconformidade social e entregues de forma energética, tão energética que Jorge Felizardo não só cantou como mergulhou no mosh pit (admitidamente, o baterista que o substituiu na bateria cumpriu e preencheu a bateria de uma forma tão competente que não nos importávamos de ouvir mais).

Anunciado como último tema, a banda lá fez o truque de circo de sair e voltar a aparecer, num dos encores mais anunciados de que tenho memória: é que nem em sonhos a banda deixaria “Seven Fingered Friend” fora da tour do seu álbum inaugural, o tema que os catapultou nas rádios nacionais e que, ainda hoje, se ouve aqui e ali.

E o seminal tema foi ensanduichado por “Devil in June”, um daqueles temas que passa por vários universos sónicos e que é o tema mais longo do alinhamento em estúdio, e “Born From Fear”, com pózinhos nu metal bem evidentes.

Guillermo em destaque no baixo | mais fotos clicar aqui

Curiosamente, ambos os temas onde vivem e morrem na técnica de La Llera no baixo: cheios de entrega do artista mais constante e prolífico da banda, que apesar de todas as mudanças, carregou sempre a sua criatividade nas décadas que se seguiram ao lançamento de ‘Alternative Prison’.

“Seven Fingered Friend” foi, como esperado, o momento mais congregador da sala, mas, e meio que de forma poética, o mais acidentado, já que íamos jurar que vimos a bateria saltar um belo pedaço do tema, talvez dada a excitação de ressuscitar dos mortos um tema tão cheio de vida e nostalgia. Vénia da praxe, selfie do costume, promessas de regressar num futuro próximo e um adeus suado e merecido de todas as palmas recebidas.

O público não deixou uma pontinha de energia em casa | mais fotos clicar aqui

Se foi um regresso perfeito? Claro que não, houve problemas técnicos no som, e porque não dizer que também alguns de execução, aqui e ali, particularmente na bateria. Mas uma banda como Primitive Reason, que sempre desafiou os padrões sociais e musicais da sua época, estará sempre confortavelmente desalinhada nos nossos corações. Esperamos ansiosamente que o circo volte à cidade.

Reportagem fotográfica Completa:  clicar aqui

Abel Beja em destaque na guitarra | mais fotos clicar aqui

Texto:
– Tiago Magalhães – “Megas” @ tiagomegas (Instagram)

Fotografia:
– Juliano Mattos @  julianji.matti (Instagram)

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