
2020 seria o 3º ano que viveríamos o Rodellus, exatamente isso, viveríamos, pois nestes 3 dias de festa que o festival de Ruilhe oferece, é exatamente isso que faríamos. Montamos a tenda e durante os dias de calor intenso, vivemos a bonita e pacata aldeia de Ruilhe como fosse nossa casa. Este ano tal não aconteceu, devido a todas as razões que conhecemos pelo qual não irei voltar a relembrar, mas a organização Rodellus – Associação Cultural formada por jovens de Ruilhe, Cunha, Tadim e Arentim (freguesias vizinhas) arregaçaram as mangas e fizeram acontecer um dos primeiros festivais de Verão pós-confinamento.
Como relembrar também é viver, nada como recordar as últimas edições através da nossa visão:
2018: Viver o campo é viver o Rodellus – A estória | Reportagem
2019: A política dos 3 R’s: Ruílhe, Rodellus, Rock | Reportagem
Em 2021, após um ano inevitável de interrupção, o Rodellus mostrou-se resistente perante tudo o que vivemos, reinventou-se dando primazia à música e à cultura, distribuindo por 3 fins-de-semanas distintos o festival. Em poucos dias os 3 dias esgotaram e isso reflete a sede com que todos nós andamos sedentos pela música, pela liberdade, amizade e tudo que só um festival de verão oferece.

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O novo formato do Rodellus trouxe a todos os festivaleiros uma experiência rural diferente: uma pequena viagem à historia do festival relembrada por Hernâni, diretor do festival. Esta viagem foi iniciada com um pequeno passeio ao passado da vila de Ruilhe. Começamos numa das antigas típicas casas da região, que outrora servia de abrigo para muitas famílias, e a partir dai seguimos caminho.
Por umas escadas em pedra, mesmo antes de chegarmos ao destino final, fomo-nos cruzando por pequenas molduras em que nela se encaixavam memórias fotográficas dos últimos anos do festival, autoria de Joana Sousa, a fotografa oficial do Rodellus. No topo da escadaria, encontrava-se o tal local “secreto” onde se ia fazer a festa durante aquela tarde.

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O local era uma pequena praça (se assim se pode chamar), mesmo em frente ao bonito e abandonado edifício da GNR. O calor fazia-se sentir com o passar dos minutos (embora as previsões assim não o dissessem) mas algo, que já não se vivia em eventos pós-confinamento, ajudou a combater tais temperaturas. Falamos da barraca de cervejas (e águas) que a organização montou. Realçamos este tão insignificante espaço físico pois era em torno dele que se iam fazendo ouvir conversas e gargalhadas entre amigos e conhecidos, algo que para esta nova realidade ainda solta um sorriso da nossa parte. Sorriso devidamente escondido…

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As cerca de 50 cadeiras coloridas, que ocuparam grande parte do pequeno recinto, iam sendo preenchidas ao longo que os minutos se aproximavam para a hora de arranque: 17:30h. Pouco passava, quando os Hause Plants entraram pelo único palco que este ano se ergueu na pequena vila. Há muito tempo ansiávamos ver o projeto de Guilherme Correia, banda lisboeta que fez no Rodellus a sua primeira aparição por terras minhotas. Na bagagem trouxeram o seu EP de estreia e que no qual tivemos o privilégio de ouvir em 1ª Mão, ‘Film For Color Photos’.
O shoegaze que já conhecíamos do disco, veio reconfirmar-se na sua atuação ao vivo. Com Dani Royo na guitarra, João Simões dos Grand Sun no baixo e ainda
Jantónio Nunes dos Huggs na bateria, a banda mostrava toda a pujança de uma banda rock em pleno delírio e diversão, algo que não é tão visível em bandas lisboetas, como a própria banda brincou. Passando por todo o seu EP, no quais se incluem singles como “Here, Somewhere”, “Only You” ou “Visual Daries”, faixa que fez Guilherme em tom irónico dizer:
“É a única que vocês conhecem, se estiverem ligados à Antena 3 à uma da manhã sem querer”.
No cardápio, não podia faltar uma das nossa favoritas e primeiro single de estreia “City
Vocabulary” ou até passando mesmo por uma estreia:
“É a primeira vez que tocamos esta música ao vivo”, começando a dedilhar “Fun at Random Places”.


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Uma estreia sem medo do campo pelos Hause Plants, que aqui e ali iam mostrando irreverência e rock em cima do palco. Desde os voos aéreos entre a bateria e palco, passando pela interação com o público que levou Simões a descer do palco e a tocar com uma das figuras icónicas do festival, o Zé Pimenta (quem lá esteve conhece a personagem).
O palco ia-se despindo de instrumentos, dando lugar a uma comprida mesa de DJ coberta de rosas ora vermelhas ora cor-de-rosa e uma bonita e única guitarra elétrica. De fundo ia tocando clássicos desde a bem portuguesa, “Papel Principal” a um dos grandes clássico da música rock, “Wind Of Change” dos Scorpions. Quem orquestrava isto tudo só poderia ser uma pessoa: António Bandeiras.
Passando pouco tempo do DJ set em estilo mátine, entrou a figura principal do último concerto do dia. Marquito, como carinhosamente David Bruno chama ao seu amigo e solista de palco Marco Duarte. Da sua guitarra saem os primeiros acordes de “Praliné”, bem afinados e bem sentidos pelo guitarrista, deu o inicio do concerto de um dos nomes mais aguardados do festival.

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Quem já viu esta figura da música contemporânea portuguesa ao vivo, sabe que David Bruno é um português com muito orgulho nas suas “portugalidades”, referenciando as “bandejas de alumínio”, como um instrumento fundamental num bom tasco começando a tocar “Mesa Para Dois no Carpa”.
Sempre muito comunicativo e com o seu sotaque bem característico, é bem audível as muitas gargalhadas que vai arrancando da plateia. Um desses casos foi na explicação que deu em “N Gosto K M Mentem“ relembrando os tempos de escola em que os rufias pediam dinheiro e de forma a fugir a tal suborno mentia.
David Bruno fez uma viagem pelos seus três mais recentes discos, tocando faixas como “Monte da Virgem Platónica“, “Salamanca By Night“, “Doucement“, ou mesmo pela nunca editada, “Lamborghini na Rulote”, faixa que diz ele:
“ (…) nem que me pagassem 1 Milhão de euros eu gravava-a. Esta música é só para quem vem ver os concertos, só a toco ao vivo”.
Um dos momentos mais bonitos e mais esperados ficou para o final, onde já ninguém se aguentou sentado, soltando na minha cara um sorriso rasgado. Foi em “Festa da Espuma”, quando a maior parte das pessoas levantou-se e começaram a dançar, algo que para mim tem um pouco de estranho mas de maravilhoso. Estávamos todos lá só por um propósito, a música, a alegria, e David Bruno, Marco Duarte e António Bandeiras com as suas rosas, conseguiram dar-nos isso tudo.

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Foi assim o primeiro fim-de-semana do Rodellus, festival onde o mote de Rock paira na sua
génese
mas é com a palavra Resistência que mais uma edição se ergueu na bonita aldeia de Ruilhe.
Durante os próximos dois sábados, já com casa esgotada, subirão ao palco nomes como Grand Sun e The Twist Connection a 31 de julho e
Black Bombaim e Krypto a 7 de agosto.
Texto: Luís Silva
Fotografia: João Machado
